Acostumada a merecer elogios rasgados, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) começa hoje sua 8 edição em meio a questionamentos diversos: teria já esgotado sua fonte de bons autores a ponto de repetir diversos nomes? Estaria privilegiando ensaístas ao invés de ficcionistas? O homenageado merece tanto espaço? Considerações que geraram debates (alguns infrutíferos) nos últimos dias, mas que não arranham o brilho do mais importante evento literário do País, que, como de hábito, teve boa parte de seus ingressos para as 19 mesas se esgotado rapidamente.
''Uma das principais marcas desta edição é o espaço maior reservado à homenagem. São três mesas, uma exposição, além da conferência de abertura e da programação da Casa de Cultura'', comenta Flávio Moura, diretor de programação que, neste ano, torna-se o mais longevo no cargo. O homenageado é o escritor e sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), um dos maiores pensadores brasileiros. Sua obra será discutida por diversos profissionais a começar pela cerimônia de abertura, amanhã à noite, a cargo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Sua presença, aliás, chegou a gerar boatos que o apontavam como principal motivo pela saída de um dos patrocinadores, a Petrobras, em sinal de desagravo. Preocupado, Fernando Henrique disse que aceitaria ser ''desconvidado'' para evitar maiores problemas, mas a organização da festa garantiu que a saída de um não tinha relação com a chegada do outro - a empresa estava apenas redirecionando suas investidas de marketing.
Flávio Moura reconhece que a escolha de Freyre como homenageado geraria controvérsias, mas não se esquivou. ''Gilberto Freyre é, a despeito de certa recepção negativa de sua obra, autor de interpretação fundamental do Brasil. Justamente por conta da polêmica que envolve seu nome uma homenagem deveria dar conta das diversas facetas desse autor. Tentamos dar conta disso na composição das mesas.'' A medida, embora lógica, provocou nova celeuma por conta do que seria um excesso de pensadores em detrimento da quantidade de prosadores e poetas.
''Nenhum festival no mundo chama apenas autores de ficção ou trabalha com a ideia de que não pode haver repetição'', rebate Moura. ''Eu não deixaria de chamar autores interessantes porque eles já estiveram na Flip. Também acho que é preciso ter uma visão muito estreita do que seja o 'literário' para achar que há pouca literatura nesta edição. Faz parte do trabalho da curadoria escolher o que interessa ao formato pensado para determinada edição, e acho que as críticas boas são aquelas que criticam dentro da proposta adotada.''
O mesmo raciocínio justifica a manutenção de diversos mediadores, também velhos conhecidos de outras Flips. Eles terão o desafio de incentivar o debate com Isabel Allende, Robert Crumb, Azar Nafisi, Ferreira Gullar, Salman Rushdie, William Kennedy, Ronaldo Correia de Brito, que são alguns dos grandes nomes desta edição.

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