FLEURY SEM CENSURA
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de fevereiro de 2001
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
Os anos de ditadura militar precisavam de um livro que desvendasse a época sem o tempero da paixão. A literatura existente, realizada quase exclusivamente por opositores do regime, traduziu o período com a ótica de quem foi perseguido com mão de ferro. Quem estava no poder agiu em sentido contrário, escondendo documentos e mascarando a história.
Autópsia do Medo, de Percival de Souza, retrata a vida do ícone máximo da da chamada segurança nacional, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, e transita numa faixa paralela ao maniqueísmo esquerda/direita. O jornalista, buscando a objetividade, afastou qualquer sentimentalismo para relatar fatos.
O mergulho de Percival de Souza foi em águas obscuras. A pouca documentação existente dificultou a tarefa. Com ímpeto investigativo, o jornalista entrevistou pacientemente 117 pessoas de ambos os lados do conflito. Entre elas, estão depoimentos surpreendentes, como o de Erasmo Dias e Romeu Tuma.
Depois de anos de pesquisa, Percival de Souza escreveu um livro fundamental para se compreender a rivalidade entre esquerda e direita nos anos 60 e 70, destacando o ódio cego que reinou entre as facções.
Sérgio Paranhos Fleury mandou mais do que muitos militares. Surgido na Polícia Civil, tratava presos políticos como comuns. Não se considerava um sujeito de direita nem propagava posturas ideológicas. Julgava que cumpria o seu dever: destruir o que era considerado subversão. Para isso utilizou de todos os expedientes possíveis, da tortura ao simples engodo.
Fleury foi um civil comandando a repressão política de governos militares. Sua história, remontada com minúcias por Percival de Souza, é surpreendente. E o impacto do livro aumenta pela serenidade da narrativa. Não há sensacionalismo. Os fatos, por si, são aterrorizantes.
O cuidado do autor fez com que sua obra correspondesse à pretensão histórica. Mais do que uma narrativa linear e saborosa, Percival de Souza se empenhou em provar o que escreveu. E para isso foi necessário escarafunchar leis, reproduzir na íntegra documentos importantes em grande parte inéditos e, em alguns momentos, passar a palavra para as testemunhas do período sem interferências.
Os procedimentos aumentam a credibilidade da obra. Além do festival de assassinatos, torturas, mortes e insanidades, Percival trilhou um caminho que passa ao largo dos clichês ao mostrar um delegado Fleury apaixonado por uma advogada anarquista, longe do ambiente de trabalho. Ambos protagonizaram cenas surreais por representarem a aproximação de dois extremos, esquerda e direita. Essa paixão também está documentada, inclusive com bilhetes e cartas escritos pelo próprio Fleury.
Mas a maior parte do texto enfoca os porões e traz uma riqueza enorme de detalhes. Percival de Souza apresenta os acontecimentos sem julgá-los. Fleury não está no banco dos réus. As revelações do jornalista vão além de visões fragmentadas para reconstruir uma personalidade cujo nome foi, para muitos, sinônimo de horror e que, ao mesmo tempo, para outros, representava o heroísmo da nação.
Consciente de que jornalismo sério também é documentação histórica, Percival de Souza fez a maior e mais importante reportagem de sua vida ele é autor de mais de dez livros e tem um currículo de peso. Na Folha, Percival assina uma coluna semanal, aos domingos, no primeiro caderno.
Autópsia do Medo é fartamente ilustrado: Fleury aparece em situações diversas, em confraternizações, times de futebol, ao lado de figurões do regime militar, durante a infância. Há, inclusive, a última fotografia, horas antes de sua morte ainda hoje mal explicada ao cair de um barco em Ilhabela.
Entre os documentos revelados pelo autor, estão textos sobre subversão e contra-subversão da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, inquéritos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), manuais secretos do Serviço Nacional de Informações e a abertura do inquérito da Polícia Civil de São Paulo que apurava a morte de Fleury o documento traz, curiosamente, um erro crasso: data do dia 2 de abril de 1979. Fleury morreu em 1º de maio, um mês depois da data que consta no inquérito.
A profundidade que Percival de Souza atingiu balizada pela profusão de informações inéditas em seu mergulho nos porões não encontra paralelo na literatura sobre o tema.
Autópsia do Medo Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury De Percival de Souza. Editora Globo, 650 páginas. R$ 45,00.


