São Paulo, 29 (AE) - Há na exposição de pinturas de Flávio Shiró, a partir de amanhã (30) na Galeria Nara Roesler, em São Paulo, uma tela chamada "Encruzilhada". Como observou o crítico Frederico Morais, é possível identificar na estrutura cruciforme dessa obra a presença fugidia de Grunewald. Mais do que isso, nesse amálgama do Renascimento com formas arcaicas também é fácil perceber uma justaposição entre o caráter visionário de uma pintura que quer antecipar o novo século, mas está presa à dura realidade de um mundo trágico que não conseguiu resolver suas contradições.
De certo modo, o conflito do mundo globalizado, dividido entre a riqueza americana e européia e a pobreza asiática, africana e latino-americana, parece uma extensão do drama pessoal do pintor. Nascido em Sapporo, Hokkaido, há 71 anos, o japonês Flávio Shiró foi criado em Tomé-Açu, no Pará, aprendeu pintura sozinho e foi morar em Paris nos anos 50. Do Japão para o Brasil e do Brasil para a França essa história cresceu com o amálgama do xintoísmo e cristianismo, do cruzamento da força expressionista com a fragmentação cubista. Isso explica, de certo modo, a estranha justaposição de elementos que chega a incomodar na pintura de Shiró. Essa tensão está presente o tempo todo, mas não resulta clara como o transe de Grunewald, provocado pela tradição gótica. Shiró sempre caminhou em outra direção. Teatral - Há drama em sua pintura, mas um drama teatral. Vale dizer, criado pelo artifício, pelo delírio formal. Como Grunewald, Shiró pode estar sintonizado com a monstruosidade da sintaxe medieval - e, com efeito, as figuras deformadas de ambos devem algo aos pintores dessa época -, mas a paleta de Shiró não é iridescente. Ele trabalha num registro mais sombrio, numa zona de fantasmas. Em outras palavras, não há transe místico, mas sombras provocadas por iluminação teatral.
Shiró confirma. Sua "Encruzilhada" não pretende ser uma releitura do perturbador altar de Isenheim do mestre Mathis. A figura torturada da cruz não é o Cristo, mas o homem laico e hedonista do século que acaba. Quando criança, Shiró cansou de buscar um sentido para o interior do altar xintoísta de seus pais, dividido entre representações de Cristo e Buda. "É impossível escapar dessas memórias", diz Shiró, que há 15 anos não realizava uma exposição comercial em galeria brasileira. Ele volta com uma série realizada nos ateliês que mantém no Rio e em Paris. Como Grunewald - A "Encruzilhada", um óleo pintado há dois anos, tem, coincidência ou não, uma figura central de rosto deformado como o homem que tortura Cristo vendado na obra mais comovente de Grunewald. "Espero que o próximo milênio não tenha acontecimentos tão trágicos", diz Shiró, casado com a cenógrafa Beatriz Tanaka, que trabalhou com Arrabal e diretores como Victor García e Lavelli. "Esse aspecto teatral da minha pintura
sem dúvida, deve algo a ela", observa. Como num palco vazio, as figuras vão entrando aos poucos na tela, mas sem pedir licença. "Às vezes começo um quadro abstrato e elas vão surgindo do nada", conclui.
O advento dessas figuras nunca é calmo. É sempre marcado pela violência, pelo choque. "Foi violenta a ruptura com a tradição de uma família japonesa de nove séculos e o entendimento da transfiguração da natureza amazônica", conta Shiró. "Não poderia jamais fazer uma pintura dentro da estética japonesa", observa. Por outro lado, Shiró não está disposto a entrar no território plúmbeo de Iberê Camargo, apesar do tom baixo da última série. "Gostaria de me extinguir como fogos de artifício", diz. "Já Iberê era mais ligado à terra, mais telúrico", compara.
A despeito dos títulos dos últimos trabalhos (La Source, Raga da Tarde), Shiró nega que a sua seja uma pintura anedótica. Mesmo os olhos que surgem entre as rápidas pinceladas não conservam nenhuma ligação com a paródia narrativa dos surrealistas, garante. Shiró conta que esses olhos são reminiscências da infância passada na Floresta Amazônica. "Eram milhões de olhinhos de insetos observando a gente", lembra. Eles sempre estiveram presentes em sua pintura, que resiste à fúria classificatória da crítica, segundo o pintor. "É difícil manter coerência e integridade numa época em que os artistas sofrem a pressão da mídia e do mercado", conclui. Serviço - Flávio Shiró. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 15 horas. Galeria Nara Roesler. Avenida Europa
655, tel. 853-2123. Até 24/10.

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