Flávio de Carvalho ganha retrospectiva no CCBB, no Rio
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de julho de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 30 (AE) - O artista plástico, arquiteto e engenheiro Flávio de Carvalho foi um grande agitador cultural na primeira metade deste século, na esteira da Semana de Arte Moderna de 1922, mas seu nome ficou praticamente esquecido, principalmente no Rio, após sua morte, em 1973. Às vesperas do centenário de seu nascimento, em outubro, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio, inaugura a mostra "Flávio de Carvalho, 100 Anos de um Revolucionário Romântico", uma retrospectiva do que ele realizou, sonhou e pensou.
"Parte da crítica de arte o considera um artista dispersivo, porque Flávio de Carvalho atuou em várias áreas, teve interesses diversos e se expressou de muitas maneiras diferentes", explica a curadora da exposição, a artista plástica Denise Mattar. "Mas quanto mais estudo sua vida e sua obra, mais vejo que ele tinha um objetivo muito definido e seguro: a transformação do ser humano e da sociedade por meio da psicologia". Para Denise, se alguém perguntasse ao artista qual a personalidade mais importante deste século, ele certamente citaria Freud, o pai da psicanálise.
Flávio de Carvalho nasceu em Barra Mansa (RJ), mas quando era ainda criança a família se mudou para São Paulo, onde ele passaria a maior parte de sua vida em contato constante com os modernistas. Adolescente, foi estudar na Europa, de onde voltou formado em engenharia civil, pouco depois da Semana de Arte Moderna. Até quase o fim da década foi um artista plástico amador, mas em 1927 seu projeto para o Palácio do Governo de São Paulo chamou a atenção de outros arquitetos pela ousadia das concepções, embora não tenha sido escolhido para ser realizado.
"Essa reação vai acompanhar todos os projetos arquitetônicos de Flávio pelo resto de sua vida", conta Denise. "Os artistas amavam o que ele criava, mas os financiadores achavam arrojados demais e ele conseguiu ver construído muito pouco do que projetou". Já nas artes plásticas o reconhecimento do público não foi tão difícil. Ele se especializou em pintar e desenhar figuras femininas e retratos de amigos e pouca gente que se destacou nas artes dos anos 30 aos 60 não mereceu um quadro.
Jorge Amado, Tônia Carrero, Niomar Muniz Sodré (dona do Correio da Manhã e criadora do Museu de Arte Moderna do Rio), Cacilda Becker e Mário de Andrade estão nesta galeria. "Mário costumava dizer que Lasar Segall o havia retratado mostrando as boas qualidades, enquanto Flávio de Carvalho expôs seu lado tenebroso", comenta Denise.
Para organizar a mostra, que tem patrocínio do CCBB, da Petrobrás e da Fundação Armando álvares Penteado (Faap), a artista plástica recolheu as obras em sete instituições públicas e com 14 colecionadores. Sua intenção é que quem nunca ouviu falar de Carvalho saia da mostra sabendo quem foi ele. "Já o catálogo, que terá textos de oito críticos de arte e artistas, com reproduções de seus principais trabalhos, é destinado a quem quiser aprofundar esse conhecimento".
Denise conseguiu reunir obras que fazia muitos anos não eram mostradas no Rio, como a "Série Trágica", desenhos em que ele retratou a mãe à morte, considerado um dos conjuntos mais expressivos de sua obra. Há também os famosos retratos dos amigos, quadros com mulheres de diversas épocas e cenários e figurinos de espetáculos de balé criados por ele. No fim da vida
o artista começou a pintar, com tinta acrílica, quadros para ser vistos sob luz negra, uma novidade introduzida em boates no fim dos anos 60. "Isso mostra que ele esteve sempre experimentando, buscando novidades", esclarece.
As artes plásticas serão privilegiadas na exposição. "É o tipo de suporte que tem melhor conservação", explica ela. "Seus projetos arquitetônicos realizados estão muito desfigurados e o que ele fez como agitador cultural deixou influência nos anos seguintes, mas não um objeto ou produto a ser exibido numa exposição". Mesmo assim, ela conseguiu reunir fotos de suas famosas performances e plantas e reproduções de projetos dos anos 30 e 40 que lembram muito a arquitetura brasileira em voga a partir dos anos 50.
Do que foi construído Denise reuniu fotos ou mandou fazer maquetes para transmitir ao público o conceito arquitetônico. É o caso da sede da Fazenda Capuava, em Valinhos (SP), onde ele morou até o fim da vida. A planta não existe mais e a casa está desfigurada, já que a prefeitura, atual proprietária, não acha parceiros para restaurá-la. Mesmo assim, a reprodução será exibida ao lado de fotos antigas e atuais.
Outro projeto famoso de Carvalho, uma vila na Alameda Lorena, em São Paulo, é mais detalhado. As casas estão descaracterizadas, mas as plantas estão perfeitas, trazendo até as recomendações do arquiteto, sob o título de "Modo de Usar". Aí o pragmatismo de suas idéias fica claro, pois conceitos de moradia que só nos últimos anos foram adotados são aconselhados nessa bula. "Apesar de ter encontrado poucas vezes quem realizasse suas idéias, os projetos de Flávio eram facilmente executáveis, pois ele era engenheiro calculista e tinha sempre em mente a viabilidade do que imaginava", diz Denise.
A mostra no CCBB vai de quarta-feira a 29 de setembro. Em 19 de outubro, chega ao Museu de Artes Brasileiras da Faap, wm São Paulo, acrescida de uma remontagem do balé "O Deus Morto", com cenários e figurinos dele e direção de José Possi Neto.


