FLAUTA EM PRIMEIRO PLANO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de junho de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
O cantor e compositor Geraldo Vandré foi acompanhado, na década de 60, por um grupo revolucionário que reunia Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte, Airto Moreira e Theo de Barros o Quarteto Novo , instrumentistas de peso que deram um novo e profundo sopro à música instrumental brasileira ao estilizar ritmos nordestinos. Quase esquecido atualmente, o Quarteto aparece como referência para Cana Verde, álbum que o flautista e saxofonista carioca David Ganc está lançando pela Kuarup.
Fica Mal com Deus, de Geraldo Vandré, surge como anfitriã e desvenda a diversidade do álbum. Os arranjos, cuidadosos, são ancorados em um quarteto de cordas dois violinos, viola e cello e uma base pop. Reflexos da música de concerto dialogam com fraseados nordestinos, enquanto duas flautas (uma em dó e outra em sol) assumem a liderança de um conjunto que traz ainda baixo, piano, bateria e percussão.
A salada resultante é consistente. O disco inicia com uma criatividade que se mantém até a última faixa, uma versão ousada e dissonante de Inútil Paisagem (Tom Jobim), interpretada por Ganc em quatro flautas e quatro saxofones, com apoio de Cristiano Alves no clarinete e clarone.
As explorações musicais de Ganc revelam outras qualidades ao escapar de clichês e driblar soluções fáceis. A música é clara e direta. Ganc mostra o comedimento necessário nos improvisos, evita barroquismos nos arranjos e ousa com segurança.
Essa massa de elementos ganha costura com a maturidade acumulada em áreas diversas, desde música de concerto, passando pelo jazz e MPB. Ganc também tem experiência em trilhas sonoras para cinema, TV e espetáculos de dança. Já tocou ao lado de Luiz Melodia, Gal Costa, Caetano Veloso, João Bosco, Nelson Gonçalves e Tim Maia. No ano passado, acompanhou Elba Ramalho durante a turnê européia da cantora.
A acentuação nordestina é comum no CD. A faixa-título Caldo de Cana (David Ganc), por exemplo, lembra o sertão com um conjunto heterogêneo de instrumentos flauta, piano, cello, viola caipira, baixo, bateria e percussão.
Os ritmos se sucedem no repertório: aparecem o frevo, o choro e o samba, todos estilizados. Em Vó Argemira (Nando Carneiro), a formação é reduzida ao esqueleto: a flauta de Ganc dialoga com o contrabaixo de Zeca Assumpção.
Os convidados facilitam a variedade do elenco: Leandro Braga e Cláudio Dauelsberg no piano, Artur Maia no baixo e Nando Carneiro no violão, entre outros. Gosto de variar muito as sonoridades para o ouvinte não ficar cansado. Esse disco é mais autoral e mais contemporâneo. Hoje domino dois instrumentos, mas o primeiro é a flauta, que é a minha cara, depois vem o saxofone, comentou o músico em entrevista por telefone.
Cana Verde é o segundo disco solo de David Ganc. O anterior, lançado em 1996, chama-se Baladas Brasileiras e é composto por clássicos da música nacional, interpretados ao saxofone.
Ao abrir o segundo álbum com Fica Mal com Deus, David Ganc faz uma referência ao seu primeiro CD. Ao encerrar, portanto, com uma intepretação dissonante e experimental de Inútil Paisagem, Ganc dá uma dica do rumo que o próximo disco pode seguir. Os CDs da Kuarup nem sempre são fáceis de encontrar. Os interessados podem ligar para (21) 524-4047 ou 524-4048 (pela gravadora o disco sai por R$ 15,00).


