Nelson Sato
Caetano Veloso já chamou esse rapaz de ‘‘gênio’’ durante uma entrevista. A declaração, desavergonhadamente ridícula, até que faz algum sentido. Afinal, só um artista com traços de ‘‘genialidade’’ seria capaz de colher tantos elogios da imprensa do eixo Rio-SP com um disco tão pífio quanto este Calendário (BMG), um dos piores lançados em 99.
O que explica tal mágica? Uma crítica cada vez mais abaixo da crítica? A habilidade discursiva de Lulu Santos, capaz de aliciar interlocutores como poucos na cena musical brasileira? Ouçam o disco, leiam a entrevista que o cantor concedeu à revista ‘‘Isto ɒ’ dessa semana e tirem as conclusões. O compositor, que se proclama introdutor do tecno no País, parece ter se cansado das experiências dançantes e eletrônicas dos últimos discos e resolveu dar meia-volta.
Calendário é um prodígio pop, no que esta expressão tem de mais corrompida. É pop, aliás, como todos os trabalhos anteriores do compositor. Mas sua irrelevância parece superar os demais por sugerir uma regressão aos anos em que conquistou fama frequentando as paradas com canções como ‘‘Um Certo Alguém’’, ‘‘Como Uma Onda’’ ou ‘‘Toda Forma de Amor’’.
A diferença é que o que tateava na formatação do pop nacional, ganhou vestimenta modernosa no estúdio de gravação pelas mãos do tarimbado produtor Liminha. O disco marca o reencontro dos dois, que trabalharam há 15 anos no álbum O Ritmo do Tempo. Os parceiros passaram três meses e três dias manipulando o novo repertório.
Liminha tocou vários instrumentos, inclusive uma guitarra havaiana no samba postiço ‘‘Brasil Legal’’, feita sob encomenda para o programa homônimo apresentado na TV por Regina Casé. Samba é o que Lulu tenta vender também na faixa ‘‘Mala & Cia’’, poluindo o ritmo tradicional com programação eletrônica.
O CD reúne 11 faixas, entre elas uma instrumental (‘‘Shani’’) e duas regravações (‘‘Sábado à Noite’’, já registrada pelo grupo Cidade Negra, e ‘‘Eu Não’’, içada do álbum Popsambalanço e outras Levadas de 1989). Em ‘‘Bolado’’, Lulu Santos roça a black music setentista, inserindo um naipe de cordas em cima de versos falados.
O resultado é constrangedor. Raras vezes quatro violinos, duas violas e um cello foram tão impiedosamente triturados numa canção. Pasteurização é palavra-chave para descrever Calendário. Todas as faixas trazem a mesma e famigerada batida eletrônica, achatando qualquer eventual passagem sincopada.
A produção soa polida demais, FM-listão demais. É o 15º álbum de Lulu Santos, um testemunho da senilidade precoce da chamada ‘‘geração 80’’, que definha em linguagem e projeto superada por novos talentos. Alguns companheiros, afundados na flacidez criativa, apelam para gravações acústicas de antigos sucessos.
Outros, também desorientados, tentam surfar nas tendências do momento com resultados sofríveis. Mas Lulu Santos possui público cativo. É uma das celebridades musicais do País. Vai emplacar nas rádios, aparecer em programas de auditório da TV e vender seu peixe em entrevistas persuasivas.
Aliás, para dar um ar menos mundano ao negócio, Lulu aparece citando Nietzsche, Platão, Shakespeare e outros ilustres no kit de divulgação do disco distribuído à imprensa. É muita cara-de-pau.

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