Físico do Paraná inventa laser a gás
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de maio de 1997
Leonardo Revesso Especial para a Folha Ciência 
Dezessete anos de pesquisa renderam ao físico Antonio Luiz Morgon Filho, 36, de Umuarama, noroeste do Paraná, uma descoberta que, segundo ele, é inédita no mundo, o laser a gás. O produto está sendo comercializado no Estado e já desperta o interesse de empresas estrangeiras. Cada cápsula fabricada pelo próprio físico tem capacidade de duração de 200 mil horas (cinco anos) e permite uma precisão de 100% nos trabalhos em que é empregado. Além disso, é 30% mais barato que o laser convencional, produzido a partir do iodo.
São três diferenças - durabilidade, precisão e preço - em relação a outros lasers já existentes que fazem o produto a gás, batizado de Morgotron, ser inédito no mundo, segundo o físico. O laser a gás, de acordo com ele, é resultado da combinação de seis tipos de gases concentrados numa mesma ampola. Os gases são bombardeados por eletroudos (condutores de energia) e a partir do choque interno das moléculas há a liberação da luz ou do laser. O segredo da descoberta, segundo o físico, está na combinação dos gases.
O resultado foi obtido há dois anos, mas está sendo divulgado somente agora, segundo Morgon, por causa do patenteamento. Hoje o laser a gás, totalmente nacional, já é utilizado por empresas automobilísticas e da construção civil do Estado. A empresa curitibana Truck Center, por exemplo, usa o laser a gás para checar a precisão no alinhamento de mancais (recondicionamento de pneus). Em Umuarama, o laser é utilizado por uma construtora no nivelamento de terrenos e paredes e o resultado, segundo o empresário Flank Silva, não poderia ser melhor. Acabaram-se os problemas, conta.
Na construção civil, a ampola com o laser é colocado numa sonda. Bem definida na base, ela pode ser movimentada para todos os lados e o resultado será sempre um nivelamento perfeito da obra, o que era considerado impossível. Na indústria automobilística é a mesma coisa. Com o novo laser é possível encontrar falhas até na pintura de carros, que deve estar uniforme para não apresentar má aparência. Ele também nivela pneus que, se não estiverem em perfeitas condições de uso, podem se transformar num problema. Além disso, há o desgaste mais acentuado.
O laser convencional, à base de iodo, foi descoberto nos Estados Unidos e existe no mercado desde 1964. Segundo Morgon Filho, o produto americano dura 50 mil horas (um quarto a menos do que o laser a gás atinge) e tem uma devolução de 30% em média para a fábrica por apresentar defeitos. Isso eleva demais o custo para os consumidores brasileiros que pagam um IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) alto demais, a ponto de não valer a pena a devolução, diz o físico.
Laser traçanteOutro invento, que deve ser lançado nos próximos meses, é o laser a gás traçante. Uma de suas vantagens, de acordo com Morgon que também faz consultas para a Nasa, é que vai permitir a serra de tábuas e placas de mármore sem o uso de régua e com uma precisão ainda maior. Para isso, basta adaptar o laser à máquina.Com isso, elimina-se a margem de erros preservando-se a matéria-prima, que geralmente é cara, explica. Segundo ele, a fórmula já foi encontrada e agora ele se preocupa em desenvolvê-la um pouco mais para obter nova variedade de produtos.
O laser a gás é diferente do laser usado pela Medicina em cirurgias. O laser utilizado por um oftalmologista, por exemplo, é feito a base de gás carbônico e gases Hélio e Neônio (ver matéria nesta página). Por isso é quente. A invenção de Morgon não tem utilidade na Medicina.
A velocidade do laser é de 13 mil quilômetros por segundo, menor que a da luz, que atinge 300 mil quilômetros por segundo. Morgon prevê uma grande utilização do laser a gás porque ele tem uma direção precisa. Dá até para medir o alinhamento de satélites no espaço com base aqui na Terra, porque seu alcance é infinito, observa.
A cada dia, novos empresários ligam ou visitam o físico interessados em adquirir o laser a gás. A comercialização já está atingindo todo o País e há perspectiva de chegar, em breve, ao Exterior. Cada ampola com laser, suficiente para trabalhar 200 mil horas, custa em torno de R$ 150,00. Uma empresa multinacional aguarda uma grande encomenda e, com o produto, pretende melhorar a qualidade de seus produtos.
Morgon Filho tem uma vida inteira dedicada a pesquisas para chegar a inventos. Até 1980 ele era piloto de caça da FAB (Força Aérea Brasileira). Nasceu em Londrina mas até 1984 morou em Guarulhos, no interior de São Paulo. Teve que sair da cidade por causa de um teste com um foguete que caiu na casa de vizinhos causando transtornos. Cheguei a ser chamado de louco e resolvi vir para Umuamara, diz. Além de passar sete horas por dia pesquisando num laboratório de 12 metros quadrados, ele dá aulas em escolas de Segundo Grau, onde inovou o aprendizado da Física com aulas práticas que aposentam os livros, segundo ele, nem sempre confiáveis.


