Fino pop lusitano
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de julho de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Muitas tentativas foram feitas para emplacar a moderna música portuguesa em terras brasileiras. Mas a ex-colônia parece impenetrável rejeitando toda e qualquer sonoridade de origem lusitana.
Cantoras de maior ou menor qualidade foram incensadas pela crítica com a mesma pressa com que foram relegadas ao ostracismo. Cantores, bem, os cantores permanecem solenemente ignorados. Já entre os grupos, o Madredeus foi o único a conseguir alguma projeção, a ponto de frequentemente receber convites para shows e ter seus discos lançados por aqui.
Não será diferente este ano, quando o grupo retorna ao País para uma série de apresentações em setembro incluindo no roteiro Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. A turnê marca o lançamento do CD Antologia (EMI) que, como diz o título, faz uma retrospectiva de trajetória reunindo 17 canções pinçadas de sua discografia.
Formado em 1985, Madredeus estourou com a música O Pastor (Ao largo / ainda arde / a barca / da fantasia / e o meu sonho acaba tarde / deixa a alma de vigia). A música foi exaustivamente executada em rádios da França, Grécia, Bélgica, Holanda, Espanha e até Japão, colocando Portugal no mapa do pop internacional. Não por acaso, foi escolhida para abrir a antologia.
O grupo derruba rótulos. Combina música de câmara, pop etéreo, raízes portuguesas e canções tradicionais européias. Tem como principal trunfo a voz celestial da soprano Teresa Salgueiro, capaz de imprimir dignidade à mais simplória das melodias. Diz a lenda que após ouvi-la, a cantora de fado Amália Rodrigues teria dito: Finalmente surgiu minha sucessora. Agora posso morrer tranquila.
O cineasta alemão Win Wenders foi outro que se curvou à música do grupo. Fez o filme Lisbon Story inspirado nas faixas do álbum Ainda. Por servir como um cartão de visitas àqueles que não o conhece, Antologia deve converter novos adeptos ao trabalho de Teresa, Pedro Ayres Magalhães (guitarra), José Peixoto (guitarra), Carlos Maria Trindade (teclados) e Fernando Judice (baixo acústico).
O disco inclui, além dos sucessos, duas faixas inéditas: Oxalá e As Brumas do Futuro, feito para o filme Capitães de Abril, de Maria de Medeiros. A saudade, tema português por excelência, se faz presente nos versos de Haja o que Houver, a mais bela do CD ao lado da instrumental As Ilhas dos Açores. Criteriosa, esta antologia chega às lojas como um dos lançamentos mais louváveis da temporada.


