Ninguém questiona: quando se fala de música popular brasileira de qualidade, a principal referência no mundo discográfico é a gravadora Biscoito Fino. Desde que surgiu, há quatro anos, fruto da ousadia e empreendimento da empresária Kati Almeida Braga e da cantora e compositora Olivia Hime, cerca de cem títulos (inclusive instrumentais) foram colocados à disposição de ouvidos inteligentes. A sociedade deu tão certo que hoje a Biscoito Fino, cuja expressão foi cunhada por Oswald de Andrade e passou a ser sinômino de algo requintado e valoroso, tem fôlego para disputar um público subestimado pelas multinacionais aquela fatia de pessoas que apreciam a MPB durável.
Tudo começou com o projeto ComPasso, coordenado por Olivia Hime e desenvolvido no Rio de Janeiro no Paço Imperial. Kati Almeida Braga, megaempresária de rara sensibilidade artística, impressionada com o resultado propôs sociedade à cantora e compositora. Os discos tiveram boa aceitação e, daí em diante, o empreendimento passou a ganhar um tom mais agressivo ou competitivo, como queiram. Além de teor artístico, os discos lançados pelas gravadoras chegam a preços mais acessíveis aos praticados pelos concorrentes (as compras podem ser feitas, inclusive, pelo endereço: www.biscoitofino.com.br)
Com elenco fixo de dez artistas a mais nova integrante é a cantora Leila Pinheiro , a Biscoito Fino causou rebuliço no sistema fonográfico ao conseguir convencer Maria Bethânia a deixar as multinacionais e fazer parte do casting. A intérprete baiana fez um bom negócio: passou a ser estrela principal e, de quebra, inaugurou o selo próprio, a Quitanda.
A gravadora carioca prossegue em franca expansão, seja nos títulos próprios como nas parcerias com outros selos (''Quelé'' , ''Biscoitinho'' e ''Quitanda'') e entrou com tudo no vantajoso setor de DVDs (Toquinho, Bethânia, Bibi Ferreira, Doces Bárbaros, Jobim Sinfônico e ''Mar Sinfônico'', da própria Olívia). Duas novidades: a parceria com o selo Jobim, que trará gravações inéditas do grande maestro, e a Biscoito Clássico, para música erudita. Confira os principais trechos da entrevista que Olivia Hime, na condição de diretora artística da Biscoito Fino, concedeu:
Dá para olhar para trás e fazer um balanço das conquistas que a gravadora conseguiu?
Sem dúvida. Começamos com a idéia de fazer algumas poucas coisas e isso foi tomando corpo. Não planejamos assim: ''a gente quer ser isso ou ser aquilo''. Fomos indo. Convidamos o Sergio Santos, a Miúcha, o Francis (Hime) já tinha um projeto na agulha com patrocínio (''Meus Caros Pianistas'')... E foi chegando um amigo, um disco de fulano, um disco de beltrano.... Mas eu acho que o grande salto foi a hora que a gente resolveu construir o estúdio dentro da gravadora.
Começou com um pequeno selo e transformou-se em gravadora, seria isso?
Acho que podemos chamar de pequeno selo porque a idéia era distribuir meia-dúzia, 10 ou 15 discos. Agora é uma gravadora com estúdio próprio, com distribuição própria e com editora também.
Dá a entender que você e a Kati Almeida Braga pensaram mais ou menos assim ao inaugurar a Biscoito Fino:: ''vamos fazer uma gravadora para a gente ouvir o que gosta''. Foi mais ou menos assim?
Foi isso. Eu te diria com toda a sinceridade que ainda é um pouco assim. Veja bem: o que eu gosto e sei fazer é isso. Eu não quero inventar moda. Outro dia alguém me disse: ''por que você não grava isso assim, assim?''. Respondi que a Biscoito Fino é um espaço musical muito diferente do meu, mas que eu não vou poder ajudar. Como a música eletrônica, por exemplo, não tenho conhecimento, não tenho sensibilidade. Então eu faço a partir do que eu posso ajudar e opinar quando solicitada pelos meus artistas.
A Biscoito Fino preocupa-se primeiramente com a qualidade. Mas a gravadora não é uma instituição sem fins lucrativos. Como conciliar bons discos e bom caixa?
É difícil, ainda estamos batalhando. São três anos de investimento e agora estamos começando a chegar ao ponto de equilíbrio. Acho que daqui pra frente vamos começar a nos pagar mesmo. Deixo isso na mão de Kati (Almeida Braga, diretora geral) por ser ela mais afinada com essa parte financeira. Mas, claro, acompanho o dia-a-dia da empresa. Somos sócias e todo mundo opina na seara de todos. Mas na área de investimento ela conhece melhor e sabe o tamanho do passo que quer dar.
Como diretora artística você é muito assediada?
Muito, muito. Chegam muitas coisas. No início eram cinco ou seis projetos por semana e agora são, às vezes, 30 projetos. Muitas vezes eu peço para que as pessoas não me mandem mais trabalho porque fica muito indelicado da minha parte não responder. (A.M.J.)

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