''Gosto de música popular, sim, gosto de samba, e costumo dizer que não há depressão que resista a um bom ritmo brasileiro. (Lya Luft)


Edu Lobo: consistente trajetória do cantor e compositor é revelada em documentário e show



EDU LOBO, fazedor de 'vento forte'



- Sujeito reservado. Deve ser por isso que causam assombro as muitas cores nas melodias meticulosamente confeccionadas por ele. Experimentem cantá-las ou solfejá-las e o desenho que se apresenta deixa perguntas no ar: como pode, como é lindo, como é bom, como é pra sempre, como espalha ventos bons. Fortes e bons.

- Edu Lobo sai da toca. Fala, dá pistas para a compreensão da sua arte. Desde quando tudo era em preto-e-branco até a chegada de cores ávidas. Vento Forte, documentário dirigido por Regina Zappa e Beatriz Thielmann, sai em DVD pela gravadora Biscoito Fino. Registro audiovisual instigante de um artista em seus vários tempos. E tudo a um tempo só. Atemporal.

- Rosto vincado, musicalidade sem vinco algum.

- Lobo decifrado, decodificado. Lobo bom!

- Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria.

- Valha-me Deus nosso Senhor do Bonfim.

- A força da oração em ventos bravos acariciando violetas.

- Década de 60, festivais em uníssono, ''Edu, Edu, Edu''. Tempo de cores de chumbo, frases vermelhas. Poderia ele adotar a popularidade numa época em que falar ''música boa'' era pleonasmo vicioso? Fez as malas, juntou os seus e foi para fora aprimorar-se. Discos bissextos, obras fabulosas. A coisa toda, a melodia do lobo. A melodia...

- Sente-se pernambucano. Exalta o Recife. Encontra-se com os amarelos de Lia de Itamaracá e dança ciranda. Lia, exuberante, gengivas, tranças, muitas cores a vesti-la. Feliz, mítica. Encontro de reserva, sem assunto.

- Um filme de Fellini, a chegada de navio ao Recife, quando pequeno. ''Sou carioca quase que por acaso porque meu sangue é pernambucano'', diz. O pai, Fernando Lobo, era de lá.

- Tecnicidades. Vê cores nos frevos, pregões, bandas de pífaros. ''A escala nordestina tem uma quinta diminuta que é um negócio espetacularmente moderno''. Música, maestro!!!!

- Consequências... A cor do que grande em mim há é igualmente pertinente à cor do retorno. Zelai! ''Se é fraca a oração, mil vezes cantarei''.

- Ser tocado como bela melodia numa tarde de segunda em que o sol é anêmico e a fruição dos desejos demora... E aprende-se a dizer saudade.

- Depoimentos e depoimentos. Dori, Marcos Valle, Tárik de Souza, Joyce, Paulo César Pinheiro, Ivan Lins...

- ...Gianfrancesco Guarnieri: ''Cresce neguinho, me abraça, cresce, me ensina a cantar, eu vim de tanta desgraça''...

- ... Buarque: ''Eu era escravo da Bossa Nova (...) Depois, o maior impacto que recebi foram as músicas de Edu, uma coisa inteiramente nova, com muita vitalidade e um pé no nordeste''...

- ''Mesmo que você fuja de mim/ por labirintos e alçapões/ Saiba que os poetas, como cegos, podem ver na escuridão''. Sinuosidade melódica, letra em braille...

- Palavra, língua. Alvejante de almas e pisos frios... Transparência. Minhas cores preferidas... Acréscimo cromático.

- Corrupião.

- ...Dona Maria Bethânia: ''Ouço e digo logo: é Edu. Ele tem sofisticação e apuro musical''...

- Coqueiro, brisa e fala nordestina e faróis. ''Só sei que me fez bem ao coração''.

- Rosa das incontáveis pétalas brancas. Música ao pé do ouvido. Espelho e lágrima. Emoção.

- ''Será que é divina/ a vida da atriz''. Beatriz/Ana Rosa. Pra sempre!!!

- Rosinha, minha flor, cantando ''Zanga, Zangada''. Songbook, 1995: ''Tome juízo, me faça feliz/ num dia de sol''.

- Eduardo de Góes Lobo, filho de Fernando, pai de Bernardo e Isabel e Mariana.

- ''Eu vos saúdo em nome de Heitor Villa-lobos, teu avô e meu pai''. Assim escreveu Antônio Brasileiro para Edu das melódicas cores.

- ''Vento Forte'', fartas palavras!

- Borandá...

- Casa Forte, o show. Gravado em 2006 na extinta casa carioca Mistura Fina. Público atento, ouvidos inteligentes.

- Doze canções, solavanco jazzístico por força da formação instrumental: Cristóvão Bastos (direção musical, arranjos e piano), Jorge Helder (baixo) e Rafael Barata (bateria).

- Cantor de recursos breves, mas incisivo. Graves bem resolvidos. Registros médios.

- Predominam canções de Lobo-Buarque.

- ''A Moça do Sonho''. Sonho... ''Há de haver algum lugar/ um confuso casarão/ onde os sonhos serão reais e a vida não/ por ali reinaria meu bem.''

- Risos, ais, tez.

- Tudo tão aconchegante. Edu Lobo apenas canta. Inflexões corretas. Básicas palavras, sonoridade orgânica. Tão bonita...

- Edu Lobo, arquiteto, ourives, fazedor de som.

- Na carreira...

- No silêncio...

- Na alegria...

- Na discrição...

- Vento Bravo é uma lição de música e caráter musical. Edu Lobo, genial!!!

- Na carreira...

- A cor do olho que tudo quer mirar.

- ''Como um furtivo amante antes do dia clarear/ apagar as pistas de que umdia ali já foi feliz.''

- Sem jamais dizer adeus...

- Jamais...

- Mil vezes cantarei.

- Laia, ladaia, sabatana...

- Ave Maria!




EU RECOMENDO

''Essa Mulher'', de Elis Regina. Apesar de ter toda a discografia da Elis, esse é o álbum que mais gosto. É antológico, uma obra-prima. Ela estava na melhor fase como intérprete e teve a ''audácia'' de gravar compositores novos como Tunai, Sérgio Natureza e Guinga, por exemplo. Esse disco me marcou muito afetivamente. Não estava, nessa época, trabalhando profissionalmente: estava dona de casa, mãe... Ficava em casa compondo apenas. Aprendi muito com esse disco, principalmente a dinâmica dos sambas. Eu a conheci em Brasília, há 29 anos. Ela disse que havia ouvido falar muito de mim, através de um disco meu em vinil. Marcamos um encontro e levei duas músicas, mas ela tinha compromisso e o encontro não aconteceu. No entanto, me deixou um bilhete carinhoso me pedindo para remeter uma fita com as músicas para o endereço dela. Por pouco, ela não me gravou... Elis Regina é minha paixão, uma máquina de fazer música. (Rosa Passos, cantora e compositora)

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