FINA SINTONIA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de agosto de 2007
Antônio Mariano Júnior 
- Olhos de ardósia a hipnotizar platéias. Quem mais ele fascina, os homens ou as mulheres? Machos - e seus entornos ancestrais - cospem no chão e coçam o pensamento. Laivos caricaturais... Ser homem é conjugar verbos amáveis e estáveis. Eu Buarque! E tu, Buarques?
- Como pode um homem vasculhar e traduzir sentimentos tão femininos? Para bom entendedor, um risco quer dizer Francisco...
- Pegou o violão e voltou a cantar. Anuncia-se em tom confortável e voz miúda.
- ''Voltei a cantar/ Porque senti saudade/ Do tempo em que eu andava na cidade/ Com sustenidos e bemóis''. Canção de Lamartine Babo. Palmas! Palmas bem guardadas e intransferíveis.
- Chico Buarque retorna aos discos. ''Carioca'', lançado depois de oito anos de ausência, ganha versão ao vivo. CD duplo já nas lojas. DVD com a íntegra do show assenta-se a partir de hoje nas prateleiras. Sai pela gravadora Biscoito Fino. Impressionante: mais de 180 mil pessoas assistiram à turnê, que passou por 12 cidades brasileiras e três européias. Números também revelam saudade. Chico...ô, Chico...
- Encarte não, amontoados de prosa poética a privilegiar o universo das mulheres. Quem senão Buarque para cantá-las e umedecê-las sentimentalmente?
- Coração a balançar quando expõe sinceridades de homem: ''Sempre/ Eu te contemplava sempre/ Feito um gato aos pés da dona''. Coração e suas ansiedades masculinas: ''Tomava banho, na minha frente, para sair com outro cara''. Lavras novas, ''Sempre'' e ''As atrizes''.
- ''Eu te vejo sumir por aí/ Te avisei que a cidade era um vão/ Dá tua mão/ Olha pra mim/ Não faz assim/ Não vai lá não''.
- Súplicas, pedidos marrons. Cores deitadas no chão. Pôr-do-sol que escondo com a cortina amarela... Estilhaços verdazuis. Lágrima grossa. Não faz assim... Não vai lá não...
- Buarque soa melhor ao vivo e em cores. Estúdio reproduz o silêncio pertinente à timidez mítica. O formato ao vivo dá sinais de lassidão, mas com ele funciona... Vai entender...
- Direção musical perfeita, mas falta voz... Mesmo assim, Chico cria empatia com seus mínimos miados... Feito um gato aos pés do som.
- Músicos de há muito: Luiz Cláudio Ramos (violão), Jorge Helder (contrabaixo), Marcelo Bernardes (sopros), João Rebouças (piano), Wilson das Neves (bateria), Chico Batera (percussão)...
- ... e Bia Paes Leme, teclados e vocais. Quer dizer, os agudos, as segundas, as terças. Tão bonito duetando em ''Imagina''.
- ''Imagina, hoje à noite/ a gente se perder (...) Sabe que o menino que passar debaixo/ do arco-íris vira moça, vira/ A menina que cruzar de volta/ o arco-íris volta a ser rapaz/ Imagina''.
- Hum!
- Homens que comem coração de mulher...
- Olhos vazados, amores serão sempre amáveis, juras, futuros e presentes.
- Lily Braun e o homem dos seus sonhos que apareceu no dancing...
- Ou aquela que entre fartos goles de lágrimas e desgostos espetados em palitos Gina dispara: ''Vou chegar/ A qualquer hora ao meu lugar/ E se uma outra pretendia um dia te roubar/ Dispensa essa vadia/ Eu vou voltar''. ''Palavra de mulher'', fêmea convincente
- Citações de outros para quê, se Chico fundou um reino de palavras...
- ''Se ao te conhecer, dei pra sonhar/ fiz tantos desvarios/ rompi com o mundo, queimei meus navios''.
- ''Eu Te Amo''. Tantas vezes falado, cantado, escrito. Pétalas que se abrem em tardes quentes. Estás onde estou. Agora e lá. Aqui dentro, ó! O desejo viaja no céu sem nuvens. Cor secreta, saliva espessa, tardes alaranjadas... Polegar e indicador, visgo.
- ''Em março vou pro Ceará, com a bênção do meu orixá''. Ora iê, iê. ''Bye, Bye Brasil''. Março não, agosto, já. Transcendo verdes mares, mas a cor por excelência esse mar não tem.
- 28 faixas, algumas canções aglutinadas em pot-pourri.
- Francisco... Todo o disco canta ''João e Maria''... Nó na garganta, minha mãe gostava tanto... Minha mãe! Para ela:
- ''Pois você sumiu no mundo/ sem me avisar/ E agora eu era um louco a perguntar/ O que é que a vida vai fazer de mim?''.
- À minha mãe... Saudade que semeia ipês roxos... Seu ''Juninho'' agradece todos os discos, viu?
- Até aqui cheguei!
- Um ano de Fina Sintonia. Aos brancos, pretos, amarelos, vermelhos, rosas e azuis, masculinos, femininos, assim...
- Risco de Buarque... Homem do céu, não suma!
- ''Abre o teu coração/ ou arrombo a janela''.
- ''Eu Te amo'': ''Já confundimos tanto as nossas pernas''.
- Aquela árvore...
- Pra bom entendedor, escreveu: ''Viva a folia/ a dor não presta/ Felicidade sim.
- Felicidade sim!!!
- Sim!
EU RECOMENDO
Recomendaria que as pessoas revirassem seus discos antigos e retirassem um de capa preta, que tem no título a cor do amor:''Trem Azul'', da inigualável Elis Regina. O show, originalmente gravado mono em fita cassete de baixa qualidade, foi remasterizado (o meu é de 1992). Capa e cenário do show feitos por Elifas Andreato, da minha cidade. Gosto de CDs de intérpretes que reúnem vários autores e esse me parece perfeito. Desde a seleção musical, arranjos, instrumentação perfeitas e Elis, feliz quando apresenta seus músicos... Eterna Elis que diz: ''Agora eu sou uma estrela''. Há músicas como ''Se Eu Quiser Falar Com Deus'' e ''Flora'' (Gil) - essa pra se ouvir de olhos fechados -; ''Me deixas Louca'' (A.Manzanero /vrs. P.Coelho); ''Trem Azul'' (Lô Borges/Ronaldo Bastos) entre outras. Todas de encher os ouvidos e lembranças. Para ouvir em momento de paz e viajar no tempo entre notas, sons e voz da ''Pimentinha'' - a mais doce que já existiu... (Laercio Baldi, servidor público aposentado, Rolândia)


