''Meu trabalho de música está exposto a um consumo rápido e eu praticamente não tenho o direito de ficar pensando numa idéia muito tempo'' (Chico Buarque)


As cores e tons do BOCA LIVRE

- ''La vai o trem sem destino/ Pro dia novo encontrar''

- Que dia, hein?!

- Na voz do Boca Livre, a melodia de Villa-Lobos e a letra de Ferreira Gullar proporcionam viagens ao interior. Ao próprio interior, inclusive. ''Trenzinho do Caipira''. Delicadezas harmônicas, suavidades vocais. Abre o disco do quarteto, lançado pela Universal Music.

- ''Lá vai ciranda e destino''. Tão tocante, vontade de ouvir e ouvir e ouvir. Como está meu interior? Lá dentro,atualmente, tudo se exigue... Desilusão...Dor... Os versos de Gullar servem como lenitivos... Qual a cor da dor? Preta!

- Boca Livre tem um diferencial muito bacana: o modo de cantar simples, bacanas polifonias sem maiores malabarismos - às vezes grupos se engolem quando abrem a boca para mostrar capacidades e se esquecem de emocionar.

- Mesmo ao vivo, nesse álbum o Boca Livre - ao contrário de outros discos, alguns bem estofados mas um tanto quanto assim, assim - deve ter comido a platéia e agora devora com suavidade os ouvintes. Ah, sim o projeto vai gerar um DVD que deve chegar em setembro.

- Revisão, releituras e improvável parceria: Carlos Lyra e... Machado de Assis em ''Quando Ela Fala''. É...

- O início. 1978, Ano seguinte, disco independente que fez meio Brasil cantar ''Quem Tem a Viola'' e ''Toada''. Troca dos músicos originais. Cláudio Nucci saiu em 1981 e foi tentar carreira-solo. Cadê? Entrou Lourenço Baeta. Em 92, Fernando Gama substituiu David Tygel. 2000, Zé Renato deu adeus aos seus e ao vôo solo. Voa grande!

- Agora o Boca - pelo menos para esse Ao Vivo - assim se constitui: Zé Renato (voz e violão), Lourenço Baeta (voz violão, flauta e percussão), David Tygel (voz e viola) e Maurício Maestro (voz, contrabaixo, violão e arranjos vocais). Agregados: João Carlos Coutinho (piano) e Pantico Rocha (bateria). Então, tá!

- Onze discos com esse ao vivo.

- Tem Jobim coladinho a Villa. ''Correnteza''

- Oh, dandá, oh, dandá!

- Buscam Geraldo Azevedo e Alceu Valença. Fazem maravilhas.

- ''Corra, não pare, não pense demais/ Repare essas velas no cais/ Que a vida é cigana''. Caravana

- É mesmo!

- Músicas trazem riscos e lembranças de tarde. Nunca à noite... O quarto, a quarta. A quintessência. A cortina amarela. O que transcendia e vibrava agora aplaca-se. Adeus tem a cor do silêncio? Não sei, não sei...

- ''Você também se dá um beijo, dá abrigo/ Se dá um riso, dá um tiro''.

- Dolorosamente linda, ''Cruzada'' com participação de Renato Braz. É preciso colocar mais atenção a esse intérprete.

- Enigmática prática de ver cor através das transparências...

- ''Quem mandou, coração''. Mistérios de Joyce e Maurício Maestro. Eternos.

- ''Boca Livre Ao Vivo'' faz refletir. Faz vasculhar paisagens e passagens na memória. Disco competente!!! E olha que o formato revala no lugar-comum. Esse ao vivo funciona e muito bem. Da primeira até a 14 faixa.

- E olha que olhei assim meio de lado quando recebi... Pensei, álbum burocrático, para meia dúzia, poucos. A gente se espanta. Há coisas que nos deixam mudos!!!!! Taí um disco que cala na alma. Não é linear. A voz dos rapazes invade a sala e eu me sento. Calado!

- ''Al Otro Lado Del Rio'', do Drexler. ''Sobre todo creo que/ no todo esta perdido/ Tanta lagrima, tanta lagrima/ Y yo sou un vaso vacio''. Não é?

- Roberta Sá é de uma categoria ímpar. ''Desenredo'', do Dory e Paulo César Pinheiro.

- Mas o trenzinho...

- ''De vez em quando fico oca, o corpo hostil e Deus bravo''. Dona Adélia tão bem recebida. Branca gentileza...

- ''Lá vai o trem com o menino''

- Instrumental, ''First Circle'' (Lyle Mays/ Pat Metheny) retoca o entorno poético que cerca o ''Ao Vivo'' do Boca Livre.

- Gravado no dia 3 de fevereiro de 2007, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

- Quase que vira notinha. Virou coluna. Atravessado que estou, busco força na cor das canções que vem do Boca. Ou ainda há alguém que só ouve e lê encartes? Não, não... Se as sensações não forem ativadas que graça tem um disco?

- ''Todo Mundo Quer um Bem'' (Zé Renato/ Fausto Nilo). Olha aí, escuta aí, se toca...

- ''Eu No Futuro'' (Lula Queiroga-Lulu Oliveira), outra: ''Se eu abro a torneira a água voa''.

- Lágrima por lágrima...

- Claro, ''Toada'' para encerrar. Com o MPB-4. Dá para notar a diferença...

- Sempre terá que buscar aventuras al otro lado del rio, hein?!

- Boca Livre ao Vivo. Vale a pena... Pelo Villa, Gullar, Joyce, Márcio Borges, Brant, Jobim... por tudo o que de bom e do bem dispara quando roda a prata...

- E eu... E eu?

- Lá vai a vida a rodar...





EU RECOMENDO

Sabe aqueles dias que a gente quer sair dançando pela casa, ou cantar bem alto no carro? ''Música Preta Brasileira'', de Sandra de Sá, não é novo, e talvez por isso não seja tão fácil encontrar. Foi gravado ao vivo em 2003, com participações pra lá de especiais, como o rapper Gabriel, o Pensador em''Boralá''. Na romântica ''Não Vá'', divide o microfone com Toni Garrido. Como todo show, traz sucessos previsíveis como ''Bye Bye Tristeza'', ''Olhos Coloridos''... aqueles que é só fechar o olho e lembrar de algum momento. Mas sempre tem aquela especial. Pra mim, é ''Black is Beautiful'', de Marcos e Paulo Sérgio Valle. Ouvia essa música nos anos 70, em rádios AMs, na voz alva de Elis Regina. Bons tempos, aqueles. Inclusive para o rádio e para a música brasileira. Os negros tons de Sandra de Sá, Alcione e Luciana Mello, igualmente marcantes, continuam mostrando que a tolerância é beautiful.
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