FINA SINTONIA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de julho de 2007
Antônio Mariano Júnior 
A música está lá, fica te cercando e, um dia, ela aparece. Às vezes, ela está tão perto que se aparecer alguma encomenda, ela sai correndo.
(Sueli Costa)
- Porque outro dia uma música dela me fez arriar discos em vinil da estante.
- Não tinha. Fiquei puxando pela memória e corri ao violão.
- Em compensação, vieram álbuns clássicos. Face a Face. Gotas D'Água. Pedaços.
- 1979. Ginásio de Esportes de Dracena, interior paulista. Catorze para quinze anos. Minha mãe me levou. Foi o primeiro show a que assisti de um nome do primeiro escalão da música brasileira.
- ''Nada do que posso me alucina/ tanto quanto o que não fiz/ nada que eu quero me suprime/ de que por não saber ainda não quis/ só uma palavra me devora/ aquela que meu coração não diz''.
- ''Jura Secreta'' (Sueli Costa-Abel Silva).
- Se é por falta de gancho, lá vai: O primeiro disco foi gravado há 35 anos. Denso. Sem respiradouros. Melancólico, mas perfeitamente cabível à disciplina sensorial de quem começava a entender o mundo, as coisas, os cheiros, as cores. As cores.
- Romântica na essência, Simone trilharia um caminho cantando os escuros e os claros do amor. Trilharia. Mais tarde descarrilaria.
- Década de 70, discos fantásticos. Década de 80 - em meados de, ela passou a gostar vorazmente dos dials. Imagem de cantora romântica e sensual. Títulos tais como ''Desejos'', ''Amor e Paixão'' e outros recados escondidos por trás do próprio nome.
- Década de 90. Releituras burocráticas. Pálida intérprete que transformava rock em baladas. Se deixar ela transforma frevo rasgado em canções com andamentos adocicados.
- ''Será, só imaginação/ será que nada vai acontecer/ será que é tudo isso em vão/ será que vamos conseguir vencer''.
- Assim prosseguiu, prossegue e atinge a quem ainda faltam sentimentos mais agudos. Ou sentimentos que não necessitam de palavras e/ou atos mais contundentes. Simone vai ao encontro das simplicidades franciscanas. Perdeu muitos caminhos. Itamarandiba pedra corrida...
- ''Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde. Assim escrevo: tarde. Não a palavra. A coisa''. Dona Adélia sabe!
- Simone e seu intuito de ser uma cantora que - quem sabe - ainda amarfanha lençóis e aditiva o entorno dos amantes. Ícone a rodar enquanto cavam-se porões. Os gostos já sabidos e, no entanto, cada vez com mais coloridos.
- Até que se prove o contrário, Simone é a cantora dos amantes sem maiores reivindicações.
-''Segura me deu gagueira/ Eu juro que é verdadeira (...)/ Tá dando uma tremedeira/ Eu to que tô''.
- Tá! Que tá.
- Que cor, já disse todas. Rosa não... Azul à volta, azul. Redescobri-me.
- ''De repente você revelou minha cor-de-rosa''. Essa! É Essa! Essa é a música.
- Cifras, violão.
- ''Estou fora de mim por aí com você por dentro''.
- Bege. Bege? É! Bege, então.
- ''Vou ao centro do que não se vê, mas se lê no vento''.
- Simone moldou clássicos. A fase crescente. Com vocalises de Milton, ''Gota D'água''. De se ouvir no talo.
- Canoa, canoa.
- ''Começar de novo''. Três alternativas: Bethânia, Elis e Simone. A primeira daria a dramaticidade necessária, a segunda a perfeição e a terceira foi aquela que cantou com perfeição e propriedade. Simone acertou muitas vezes. Muitas. Coração agora sem garras.
- ''Vai valer a pena ter amanhecido/ Ter me rebelado, ter me debatido/ Ter me machucado, ter sobrevivido/ Ter virado a mesa, ter me conhecido/ Ter virado o barco, ter me socorrido''.
- Cordão umbilical cortado. Dada...
- Simone, ame-a ou deixe-a.
- São as trapaças da sorte.
- À certa altura, sem trocadilho, deu para cantar samba-enredo. Nana Caymmi disse uma vez que adora Simone, menos quando canta samba. Sem contar o disco de Natal...
- Cabelão. Misticismo. Essências. Branco. Fraternidade Branca. Lencinho amarrado ao pedestal do microfone. Estrela em cima da letra ''i''. Cristais.
- Cabelos curtos, sempre de branco. Um ponto de luz a acompanha, garante. Declarou ela, certa vez: ''Eu nunca fiz um show em que não pedisse que a energia fosse para aquelas pessoas que estão ali, para os músicos, para os técnicos, familiares... Se é através de uma televisão, que a vibração de amor e paz voe junto com as pessoas. Então, meu trabalho é também um trabalho espiritual''.
- Nascimentos, Buarques, Suelis, Robertos, Fátimas, Gonzaguinhas, tanta gente boa... Linha tênue entre o popular e o apelativo.
- ''No Brasil tem uma coisa que você não pode gravar uma música que alguém já gravou ''. O importantes são os acréscimos, Simone. Os acréscimos. Sussurros ao pé do ouvido valem, mas sem tesão não há solução.
- ''Porque você pediu uma canção para cantar/ como a cigarra arrebenta de tanta luz e enche de som o ar.'' Cigarra!! Si, si, si...
- Azuis que vejo mesmo em tardes nubladas. Em noite de chuva, azuis.
- Corpo. ''Só quero o teu corpo, quero te dar o meu/ A tua alma guarde pra se entender com Deus/ Ou não/ Quero o teu corpo/ E dentro dele, o coração''.
- Alma: ''Nem sempre sereno, nem sempre explosão/ Feliz essa alma que vive comigo/ Que vai onde eu sigo/ O meu coração''.
- Grande intérprete de Sueli Costa.
- Há tempos não compro discos dela. Os que tenho guardo com afeição tátil.
- Cor e apelo. ''E todos os meus nervos estão a rogar/ E todos os meus órgãos estão a clamar''. (''O Que Será - À Flor da Pele'')
- Braille. Para ser tocado e entendido.
- O meio. Acho que gosto um pouco ainda da Simone. Da Simone perfilada na minha estante. Da Simone que me chamou a dedilhar o violão. O centro do que não se vê...
- Tarde morna...
- Tá dando uma tremedeira...
- Tô que tô!
EU RECOMENDO
Conheci o trabalho da Vanessa Falabella em uma coletânia chamada ''Na Mata Café'' (ST2 Records). Sua voz refinada e sensual combina muito com a batida bossa/eletrônico. Ela é mineira e veio recente de Nova York, onde cantou por muito anos em um circuito alternativo. Agora ela está lançando seu primeiro CD no Brasil. Se chama ''Vibe'' (Sony BMG), são clássicos do pop rock dos anos 70 e 80 em um ambiente cool com discreto tempero brasileiro. O CD é show e essa garota, ao meu ver, vai longe. Leonardo Yoshii, diretor de marketing)


