‘‘Para não ceder à desilusão, apego-me à poesia e à música para me salvar.’’ (Lygia Fagundes Telles)


- Maio de 1995. Determinado momento do show, em Tóquio, os dois começaram a dedilhar os respectivos instrumentos. Assim, despretensiosamente. Jam session. Incessantememte, os acordes roçavam canções do maestro soberano. A saudade latejava: cinco meses antes passarim morria. Acho que foi para o céu dos passarins...

- Voou, voou, voou!

- Do Japão, Joyce e Toninho Horta voaram para Nova York e num só dia - numa só noite mais precisamente - registraram dez canções de Tom Jobim. Ela nos vocais. Ele, violão. Repertório foi puxado pela memória afetiva. A pedido de Kazuo Yoshida, co-produtor, Joyce e Toninho registraram em solo brasileiro mais duas faixas.

- ''Tom Jobim: Sem você'' foi lançado só no Japão. Doze anos depois, o álbum ganha as prateleiras do Brasil através da gravadora Biscoito Fino. Momento apropriado já que Tom faria 80 anos em 2007.

- De fato, mais um tributo ao maestro. Acontece que ''Sem Você'' vem com vontade e saudade. Brilhantismo. Vigor.

- Assim Joyce escreveu: ''Antônio: espero que esteja tudo bem aí em cima. Você tem estado com o Vinicius? Diga a ele que estamos com saudades - de você também, viu? Aqui no nosso planetinha, eu e este outro Antônio de Minas começamos a brincar com o teu repertório. Descansadamente, à sombra de tua palmeira (...) Espero que você goste. Desculpe eu não ter podido ficar para aquele chope. Fica para a próxima''

- Joyce Silveira Moreno.

- Toninho: ''O maestro Tom, que sempre foi a bússola da MPB moderna e qualitativa do Brasil, é ainda para nós um saudoso pai, amigo e um músico eternamente venerado''

- Antônio Maurício Horta de Melo.

- Qual a cor da reverência?

- Magenta.

- Violão às vezes é ''seco'', acompanha a voz sem entrelaçamentos harmônicos. Em outros casos, busca breves caminhos estilísticos. Na maioria das 13 faixas impõe-se ao ponto de provocar a intérprete a mostrar seus recursos, belos por sinal. No todo, voz, dedos e cordas promovem virtuosismos e colorem flores que nascem só talo e seiva e pétalas transparentes pelo caminho...

- ''Se o meu caminho/ sozinho/ é nada''. ''Inútil Paisagem'', melancolicamente linda.

- ''Ou dandá, ou dandá, ou dandá, ou dandá''

- Bonfá

- Claro, Vinicius, Aloysio de Oliveira, Dolores Duran.

- O suingue é marca registrada. Mas há por se derreter por dentro e por fora com clássicos relidos com impacto emocional e técnica absoluta.

- ''Meu amor, meu amor/ Nunca te ausentes de mim/ Para que eu viva em paz/ Para que eu não sofra mais/ Tanta mágoa assim/ No mundo/ Sem você''.

- ''Tom Jobim: Sem Você''. O disco, a música. A letra, a harmonia. Joyce canta tão lindo. Horta tão preciso...

- Lilás, cortina amarela, azul que vem e vai. Alarajam-se ainda mais as tardes

- ''Este seu olhar''.

- Joyce toca em duas faixas, ''Frevo de Orfeu'' e ''Estrada do Sol''. Levada particular. Joyce, a exemplo de Nara e Wanda Sá, pegou o violão e foi cantar por aí. Toninho canta quando Joyce toca. Canta.... né, canta... Toca melhor. Já foi eleito um dos melhores guitarristas do mundo. O mundo sabe.

- Dela, numa entrevista: ''Não tem uma vez que pegue o violão e ele não corresponda''.

- ''Ela é carioca''. Da gema. Ele, mineiro de Belo Horizonte. Participaram do mesmo conjunto musical. A Tribo. Mais Nelson Ângelo e Novelli.

- Lígia...

- ''E quando você me envolver/ nos seus braços serenos/ eu vou me render''.

- Simbiose.

- Álbum para deixar a tarde escorrer pelas frestas da cortina. Para noites e sua grande aspirina, às vezes cortada ao meio. Madrugada, claras madrugadas. Ocupa-se?

- Goethe e suas teorias cromáticas. Pigmentos, fragmentos. Pensamentos.

- A cor do segredo é segredo.

- Ôu dandá...

- Nem tudo o que é desta cor é desta cor. O meio há de tingir tudo de bom. O meio.

- Deliciosa levada em ''Vivo Sonhando''. ''Outra Vez'', categórica.

- Ôu dandá...

- ''Sem Você'' é tributo dos maiores.

- Tributos sempre vêm cercados de boas intenções. ''Tom Jobim: Sem Você'' vem cercado de carinhos sem ter fim. Muita competência. Muita disposição

- Azul e Rosa. Encarte. A mescla.

- Joyce e Toninho Horta. Gente disposta sabe como expandir as cores, certo?



EU RECOMENDO

''Bem de Bem'', de Pirisca Grecco. Em plena época de cultura massificada, o artista uruguaianense Pirisca Grecco merece ser notado pela boa música de temática regional com contornos universais. A união entre nativismo e sonoridades de diversas tendências dá o tom do CD, lançado em junho de 2006 pela gravadora USA Discos. O álbum se destaca pelas interpretações criativas e o refinado entrosamento entre instrumentos como o tradicional bombo-leguero e a moderna guitarra semi-acústica. Um CD com carteira de identidade gaúcha, mas com passaporte para rodar o mundo todo. O disco recebeu recentemente o prêmio de Melhor CD Regional Troféu Açorianos de 2006/07 do Estado do Rio Grande do Sul. Pirisca se apresentará em Londrina, no dia 27 de julho, às 21 horas, no Teatro Ouro Verde. Eu recomendo! (Elizandro Pellin, advogado e vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil Subseção

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