''Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também.'' (Clarice Lispector)



Os horizontes de LEILA PINHEIRO

- Deixou Belém do Pará e foi para o Rio morar. Verdejou num festival, pediu a bênção publicamente à Bossa Nova e seguiu, ungida. Até hoje reproduz finezas e gentilezas harmonicamente intrincadas. Fino trato com as notas. Pacto com o imperecível. Do piano tudo nasce e ganha forma, volume, peso. Assinatura própria.

- Assim declarou: ''Só entendo a música, qualquer uma que eu queira cantar, quando me sento ao piano para tocá-la. Costumo dizer que preciso dormir com as canções, ser íntima delas, para entender como somos juntas''.

- Tá no press kit, origami. Leila desdobra-se em zelo para apresentar ''Nos Horizontes do Mundo - Ao Vivo''. CD e DVD saem pela gravadora Biscoito Fino. Ao vivo! Mas com Leila funciona porque em seu entorno há vibrações intensas. Disco, 13 faixas. DVD, 21 além do tradicional making of, clipe. Gravado em agosto, no Sesc Pinheiro, São Paulo. 13º disco, segundo DVD.

- Cenário reproduz a sala-de-estar da casa de Leila. Com direito a florezinhas sobre o piano. Ao piano, começa a destrinchar os horizontes projetados. Delicada, mas incisivamente, vai tocando intimidades estabelecidas.

- No palco com Leila, David Feldman (teclado), João Viana (bateria) e André Vasconcelos (baixo). Cordas, sopros, violões do disco de estúdio reproduzidos parcimoniosamente através do ProTools. Samplers, em outras palavras. De leve, de leve.

- ''Nos horizontes do mundo/ Não haverá movimento/ Se o botão do sentimento/ não abrir no coração''.

- ''Gozos da Alma''.

- Verde como pano de fundo, códigos sensoriais. A cura e esperança nos momentos de calores amontoados...

- ''Quis esse sonhador/ aprendiz de tanto suor/ ser feliz num gesto de amor''.

- Leila desenha-se também em técnica. Vigor. Agudos quentes. Exata como a roda de um compasso. A instrumentista é tão elegante e se faz respeitar mesmo quando busca canções encrustadas na memória. ''Brincar de Viver'', a arte de sorrir, cada vez que o mundo diz não.

- Onde Deus possa me ouvir.

- Claríssimas madrugadas confessionais. Entre o amarelo e o vermelho, alaranjado. Acuidades e cuidados. O meio, sempre.

- Ora em pé, ora ao piano, Leila ajeita sentimentos. Evoca as notas de Sueli Costa e versos de Abel Silva, ''Amor é Outra Liberdade''. ''Redescobrir-se, perfil incerto/ Surpreender velhos amigos/ E no terror da liberdade, cuspir o anzol''.

- ''Nos Horizontes do Mundo'' desenha-se sem grande aparatos cênicos. Leila não é gestual, é contida. Fecha a mão esquerda, leva à altura do coração. No entanto, os olhos dela são holofotes a iluminar porões. Focos de luz sobre as temeridades. Os olhos de Leila... A voz de Leila...

- Recado seco, ''Minha Alma''. Recado úmido, ''A Vida que a Gente leva''. Recado molhado, ''Você Bem sabe''.

- ''Nuestro Juramento'', bolero.

- 1979. Belém do Pará, Teatro da Paz, camarim de Elis Regina. Estudante de Medicina. Vinil para receber autógrafo e um conselho. ''Se for para você ser cantora, você será''. Foi. Ano seguinte Leila estreava o show ''Sinal de Partida''. No mesmo palco. Foi, é e será cantora de quilate.

- ''Essa Mulher'', cantada como quem relembra cenas de um belo filme.

- Evoca Dona Adélia Prado. Na ponta da língua, fragmento do texto ''Filandras''. ''(...) porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio e diz: ''Vem cá, homem, repara e vê se já viu o céu mais bonito e mais estrelado que este. Para isso, só para isso, vale nascer''.

- As cores. Suficientes. A quem pertencer possa. O meio exato das preciosidades adquiridas pelo caminho das canções e poemas.

- ''Coração recolha tudo/ essas coisas são do mundo/ só não guarde mais o medo/ de viver a vida não''. Paulinho da Viola, ''Nos Horizontes do Mundo''.

- Ao vivo, os horizontes de Leila são azuis de dia, alaranjados quando o dia muda a guarda. Depois tudo clareia e fica bom do mesmo jeito... Que cor tem o segredo?

- Pela segunda vez canta ''Catavento e Girassol'', que deu nome a um dos seus discos mais intensos. Sopro pop em ''Pela Ciclovia''. O suingue de Donato. Caymmi!!!! O tempo de Renato Russo. Djavan. Fátima Guedes, ''artesã da preciosidade''. Toquinho. Gente muito grande foi avistada por Leila.

- Clipe de ''Hoje'', parceria dela com Renato Russo. Imagens filtradas, suavidade. E um verso gruda: ''Bom tempo, muito tempo/ acho que a gente é que é feliz''.

- Se fosse para ser cantora, seria... Hum! Leila foi além disso, foi ser feliz curando feridas e dores profundas e males da existência humana com o canto.

- Quase foi ''doutora''. Cantora

- ''Ah, como essa coisa é tão bonita, ser cantora, ser artista, isso tudo é muito bom''.

- Leila colocou isso em prática...

- Tão bonita, tão cantora, tão artista...




EU RECOMENDO

Eu gosto muito da Ana Carolina por causa da voz grave e cheia de melodia. Quem a descobriu foi Luciana de Moraes, filha de Vinicius, num show que aconteceu no Mistura Fina, no Rio de Janeiro. Quinze dias depois, ela assinava contrato com a gravadora BMG. O disco que recomendo é ''Ana Carolina'' (1999). É o primeiro disco em que ela resgata clássicos da MPB (''Retrato em Branco e Preto'', ''Alguém me Disse'', ''Beatriz''), além de se revelar uma grande compositora como nas faixas ''A Canção Tocou na Hora Errada'', ''Trancado'', só para citar algumas. Isso sem contar nas harmonias igualmente belas de Totonho Villeroy. A Ana Carolina tem uma personalidade marcante. Eu me sinto feliz em ouvir suas músicas porque acabo me achando um pouco em cada uma delas, especialmente em ''Garganta''. (Marisa Santos, sonoplasta e DJ)

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