FINA SINTONIA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de junho de 2007
Antônio Mariano Júnior 
Música ruim dói na minha alma, não nos ouvidos
(Hermeto Pascoal)
- Era Buarque ou Caymmi. Para os dois, discos e mais discos já se fizeram rodar. Muitos cantos. E cânticos. Sagrados. O primeiro escreveu: ''Contra fel, moléstia, crime/ use Dorival Caymmi''. O segundo, Buda Nagô.
- Francisco ou Dorival. Os dois são ''compositores-mestres'' da moça de canto espesso. Ficou com Hollanda por uma sucessão de acontecimentos. Uma sucessão de fatos que a levaram a tributar voz ao homem dos olhos de cor de ardósia.
- Daí que Mônica Salmaso deitou canto sobre canções de Buarque. Então.. Aí é que está: em vez de releituras burocráticas ou oportunistas, Mônica optou pelo bom gosto. Sem sobrecargas dramáticas, sem margens comparativistas honrou as 14 faixas de ''Noites de Gala, Samba de Rua''. Sai pela gravadora Biscoito Fino.
- Mônica coloca sua voz rente aos demais instrumentistas. Que vêm a ser - olha só, presta atenção - Nelson Ayres (piano), Paulo Bellinati (violão e cavaquinho), Teco Cardoso (sax e flauta), Ricardo Mosca (bateria e percussão) e Rodolfo Stroeter (baixo e produção).
- Pau Brasil. shhhhhhhhh...... Fissura ao evocar um a um e ainda por cima falar de Mônica Salmaso.
- Taí a diferença. Mônica e Pau Brasil. Não poderia resultar num disco a mais sobre Buarque. Juntos muitas vezes desconstroem Buarque. Nem para cima, nem para baixo. O meio. A essência. O necessário.
- ''Hoje é dia de visita/ Vem aí meu grande amor''.
- Francisco, o velho francisco tira lascas da alma. A música.
- Anos 80, cinco canções. Uma a menos que a década anterior, a mesma quantidade dos idos 60 e três a menos que os 90.
- As tais ''mais batidas'' se apresentam renovadas. Ou vai dizer que ''Quem te Viu, Quem te Vê'' tem o mesmo sabor que gravações de outrora? Não, não.
- ''Balançam os cabides/ Lustres se acenderão/ O amor vai pôr os pés/ no conjugado coração''.
- Que cor? Quais cores? Vermelho. Azuis, claro. Prata, olhos fechados. As sensações, as sensações...
- Diz ela, por e-mail: ''Eu não queria ter nenhum critério temático ou cronológico sobre a obra do Chico''. Ainda: ''Não me preocupo em ter um diferencial. Cada trabalho, cada intérprete tem a sua identidade e isso é suficiente para mim''.
- Certíssima. Se o canto é técnico? ''Acho que já foi mais técnico. Hoje eu permito que haja 'imperfeições' técnicas se achar que o resultado é musical''.
- Límpido. Exato. Canto valoroso.
- As honras precisam ser compartilhadas com a nobreza quase jazzística do Pau Brasil. Instrumentos. Um depende do outro. Harmonias meticulosas, frases lubrificadas. ''Noites de Gala, Samba de Rua'' é para sempre.
- ''Bom Tempo''.
- ''Lá no alto/ O sol quente me leva num salto/ Pro lado contrário do asfalto/ Pro lado contrário da dor''.
- Samba desvairado, não! ''Construção''. Tijolo por tijolo num desenho mágico. O que é isso, gente boa?!
- ''Eu me considero uma trabalhadora braçal. Faço boa parte da produção do meu trabalho, com muitas horas de escritório para depois cantar. Isso, definitivamente, não tem nada a ver com ser diva e sim com ter um ofício''.
- Ela é primordial. Discreta, discreta. Conduz sua trajetória como canta: suave e incisivamente.
- ''Logo Eu?''. 1967. Bom resgate.
- Suburbano coração.
- Lufã assim escreveu: ''a última visita quanto tempo faz?''
- ''Pra quem você tem olhos azuis e com as manhãs remoça?''
- Azuis...
- Mônica e Pau Brasil. Um ou outro já merecia reverência. Os dois se juntam? Tá, falar o quê? Isso, aquilo, vasculhar profundidades e escrever chatices em forma de resenha? Tô fora.
- Sensibilidade não precisa de didatismo.
- Aos sofisticados, ''Noites de Gala, Samba de Rua''. Aos medianos, ''Noites de Gala, Samba de Rua''. Aos diminutos, qualquer coisa serve.
- Hoje o samba saiu...
- ''Se ela um dia despencar do céu/ E se os pagantes exigirem bis/ E se um arcanjo passar o chapéu/ E se eu pudesse entrar na sua vida''.
- Beatriz!
- ''O amor já vai embora/ ou perde a condução/ Será que não repara/ a desarrumação/ Que tanta cerimônia/ Se a dona já não tem/ Vergonha do seu coração''.
- Ouviria zilhões de vezes Mônica cantando e cantando e cantando.
- ''Eu vivo do que faço razoavelmente bem, tenho um público formado de maneira gradual e muito bacana e que continua crescendo a cada trabalho que faço''.
- Mônica tem um jeito todo próprio de amaciar almas e beijar olhos cansados de tanto chorar. Com a voz.
- Assim: ''Seu beijo nos meus olhos, seus pés/ Que o chão sequer não tocam/ A seda a roçar no quarto escuro e a réstia sob a porta/ Onde é que você some?/ Que horas você volta?''.
- Buarque não me comoveu.
- ''Você, Você'',
- Põe meu coração a balançar...
- Ah, Mônica....
EU RECOMENDO
''Alma'', Egberto Gismonti, 1986, gravadora Emi-Odeon. Considero importante este trabalho na trajetória do compositor e multiinstrumentista Egberto Gismonti e na própria história da música instrumental brasileira. É um disco em que Gismonti apresenta ritmos tradicionais do Brasil, como frevo, baião e maracatu estruturados para piano solo com influências da harmonia por tons inteiros do compositor francês Claude Debussy e da abstração rítmica de Heitor Villa-Lobos. São melodias bem definidas, sugestivas ao improviso e que encontram seu auge nas composições de temáticas lírica como ''Palhaço'', ''Água & Vinho'' e ''Cigana''. E embora seja um disco para piano solo, os sutis e inconstantes acompanhamentos e intervenções de cordas e percussão mostram o valor deste trabalho que redimensiona nossa cultura popular. Além de tudo é um disco reflexivo e tocante. (Aldo Moraes, músico e compositor)


