Gosto de música, muito! De música com ‘M’ maiúsculo. E é essa a música que pretendo realizar sempre. (Zizi Possi)


- Alô, Miúcha? Aqui é Antônio Mariano, da Folha de Londrina. Tudo bem?
- Olá, tudo bem?!

- Do outro lado, a cantora começa a tossir compulsivamente. Eu, do lado de cá da linha, fico aflito: ''Você tá bem? Respira fundo''. Tosse, tosse, tosse.

- Eu te ligo em cinco minutos, ok?
- Obrigada...

- Tempinho depois. ''Desculpe, engasguei com água. Se fosse cerveja não causaria esse estrago todo''.

- Muitos risos. Aliás, Miúcha é só sorrisos. O sorriso franco quando canta. Olhos vivos. Simpatia contagiante. Bom humor. Personalidade marcante. Intérprete sofisticada, ela está com mais um disco para apreciação. Um disco em que revela novamente a delicadeza do seu canto. Com mais volume, é verdade. Primoroso, mas delicado.

- ''Outros Sonhos'', chama-se. Sai pela gravadora Biscoito Fino. Sem maiores explicações escolheu canções de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Chico Buarque. Santíssima Trindade!!! Recorrentes em sua discografia. Escolheu pelo simples prazer de cantar essa ou aquela música. Reler como bem entende.

- Tá! Aí, as línguas vão falar: ''de novo eles?''. De novo, sim. Só ler o que está na contracapa do encarte não vale. É preciso ouvir os contornos interessantes de Miúcha. A voz! E ela muito à vontade para brincar com notas e fraseados.

- Músicos de primeiríssima qualidade: Cristóvão Bastos, Jorge Helder, João Lyra, Paulo Braga, Leandro Braga. Alguns. E ela, orgulhosa: ''Foi o máximo''.

- Miúcha é a interprete oficial de Tom Jobim. Com Antônio Brasileiro fez dois discos, em 77 e 79. Em ''Outros Sonhos'' uma raridade jobiniana, ''Você Vai Ver''.

- De Chico, ''Eu Te amo''. Versão em português e francês. Do próprio Chico.

- ''Se ao te conhecer, dei pra sonhar/ Fiz tantos desvarios/ Rompi com mundo, queimei meu navio/ Me diz pra onde é que inda posso ir''.

- Se nos vermelhos encontro tulipas, nos azuis ainda encontro paz.

- ''Já confundimos tanto as nossas pernas''.

- Miúcha canta tão bonito. Tão bonito, bonito, bonito quanto consegue arrancar sopros de originildade na releitura de ''Anos Dourados''.

- Miúcha está percorrendo o Brasil com ''Outros Sonhos''... Londrina, Londrina...Quando, hein, Londrina?

- Versão bem definida de ''Olha Maria''. Releitura bem-vinda de ''Quando Tu Passas por Mim''. Outras nuances, outras cores tinindo em ''Todo o Sentimento''. Danada...

- ''Preciso conduzir um tempo de te amar / Te amando devagar e urgentemente''.

- Alternância de sentimentos. Alegria, breve bem-estar, um canto a penetrar delicadamente o ambiente onde outros sonhos não há... O que há, oscila mas fica. É assim! Gosto assim!

- Diz que relê cartas que enviou para amigos e amados quando morava no exterior.

- Tom Jobim, imagem associada. Além de muita amizade e de ''beber quantidades industriais de chope'', muitas saudades.

- Vinicius era frequentador da casa dos Buarque de Holanda.

- Viu a Bossa Nova em carne e osso. A melodia, a letra e a voz. João Gilberto. E a filha, Bebel, segue com seus levadas eletrônica.

- Fotografia. ''Eu, você, nós dois''.

- Não, não. ''Outros Sonhos'' não completa a trilogia iniciada em ''Compositores.com'', precedido por ''Miúcha Canta Vinicius & Vinicius''. A intenção foi simples: cantar quem mais gosta e como gosta. Bom gosto.

- Heloísa Maria Buarque de Hollanda. Diz a idade, mas delicadamente pergunta: ''Pra quê, né?''

- É mesmo...

- ''Chansong'', com Chico miando em inglês.

- Miúcha em seus outros sonhos dá vivacidade e firmeza necessárias a algumas faixas.

- ''Palavra viva/ Palavra com temperatura, palavra/ Que se produz/ Muda/ Feita de luz mais que de vento, palavra''.

- Bela!

- Porque ''Outros Sonhos'' tem uma graça e leveza e doçura e muita verdade.

- Há cantos extensos, cantos maleáveis, cantos abafados, cantos.

- Miúcha tem sonhos e canta e bem e ponto.

- A voz de Miúcha mexe com a alma.

- Toca.

- Repeat. ''Todo o Sentimento''.

- Miúcha do céu, como ficou bonita essa canção na sua voz!!!!

- E eu risco palavras num bloco.

- Palavras encharcadas de esperanças. Palavras cheias de sonhos...

- Dedicatória sentimental...




EU RECOMENDO

''Tom e Elis'' (1974). Tom Jobim é um mestre em tocar meu coração. Ouço música brasileira desde criança, por influência de meus pais. Minha mãe ainda tem em casa esse disco em vinil... Em casa sempre conversamos a respeito de livros, filmes e músicas, sendo este disco especialmente importante pra mim, porque é a lembrança mais forte que tenho de minha ''infância musical''. Curto ouvir Elis e Tom cantando ''Águas de Março'', apesar de ser clichê dizer isso. Apesar deste disco ter sido gravado nos Estados Unidos, ele foi feito por brasileiros e para brasileiros. Elis Regina foi aos EUA encontrar Tom Jobim para gravar as músicas, com seu então marido César Camargo Mariano, que tocou piano e fez quase todos os arranjos do disco original. Fazendo aniversário de 30 anos, este disco recebe nova edição, com CD e DVD que vale a pena conferir.''
(Mallê Jabur, professora de dança e estudante de Educação Física)

mockup