- Porque outro dia a música me veio inteira. O poema, o poema, o poema...Porque outro dia estava com os sentimentos mal empregados. O poema, o poema, o poema... Dada em estado lastimável, pedindo socorro e o vento levando. E os versos me vieram. Incisivos. Latejantes. Dor. Alento.

- ''Ressuscista-me, lutando contra as misérias do cotidiano/ ressuscita-me por isso/ Ressuscita-me quero acabar de viver o que me cabe/ minha vida''

- Gal Costa canta tão bonito ''O Amor'', poema de Maiakovski com melodia de Caetano Veloso e Ney Costa Santos...

- ''Ressuscita-me/ ainda que mais não seja/ porque sou poeta e ansiava o futuro''

- E o disco girou inteiro trazendo um amontoado de imagens e cheiro e cor e um tempo que eu me insinuava feliz. E era. E Gal canta tão bonito...

- Rádio Universidade FM. Gal canta uma canção do Djavan. Lá vou eu relembrar...

- Porque outro dia, em momentos azuis, ouvimos ''Acústico''. Desplugam-se as convenções, acionam-se sentimentos e... Gallllllllll!!!

- Porque chego à Folha, segunda-feira, abro o e-mail e um leitor me recomenda o DVD ''Ensaio da Gal''. Recomendação. Considerações. Serão publicadas em breve.

- Porque anteontem arriei CDs e vinis da Gal. As rosas com pétalas úmidas - vermelha e amarela - a enfeitar uma certa Gal Tropical. As pernas bonitas num vestido de rumbeira, gosto duvidoso.

- E desce mais. Porque ''Epitáfio'', dos Titãs, ganhou a versão definitiva num álbum que passou batido.

- ''Devia ter me importado menos/ Com problemas pequenos/ Ter morrido de amor''

- ''Baby, I love you''.

- Porque deu vontade de ouvir ''Todo Amor que Houver Nessa Vida''. E deu vontade de morder a fruta gogóia.

- Porque Gal Costa está comemorando quarenta anos de carreira discográfica. Primeiro elepê em 1967, com Caetano. Sem contar um compacto simples com o singelo nome de Maria da Graça, dois anos antes. Maria da Graça é nome de cantora de fado. Gal é nome de gente grande.

- 40 anos. Tá, está saindo pela Trama um CD e DVD ao vivo com repertório baseado em ''Hoje'' (2005). Ô disco difícil de se gostar à primeira ouvida... Depois a gente gosta. Mas no início não. E depois vai gostando dessa, daquela, pula essa faixa e acaba por gostar. Gostar!! Acostumar, não.

- Pouco. Muito pouco para Gal Costa. Os outros três orixás baianos (Caetano, Gil e Bethânia) tiveram seus discos relançados e resmaterizados, ao menos os da época da Philips. Um auê. E os da Gal, hein? Tem documentários produzido pela DirecTV. Hum...

- Aí tem um monte de histórias em torno dela. A da panela grande onde enfiava a cabeça e cantava para se ouvir. A do João Gilberto que, na Bahia, viu Gracinha e disse que ela seria a maior cantora do Brasil.

- Foi durante um bom tempo a maior cantora do Brasil... Depois foi acomodando-se em releituras burocráticas, ficando quieta, quieta, quieta, quietinha...

- Gal, fala alguma coisa!!!!!!!!! Sai de onde está e vem cantar. Não emudeça!

- No início, voz anasalada. Depois, berros. Mais adiante, cristais. Agudos, vibratos. Agora o instrumento e a matéria encorpados. Não corre mais para lá e para cá no palco. Agora,no sagrado lugar, fixa-se como um totem, um alto-falante a emitir seus gals.

- Gal. O nome dela é Gal. Duelo com guitarra.

- ''Um Dia de Domingo'', essa foi de lascar o cano. Expressão antiga, né? Mas ela lascou o cano com Tim Maia. Agora entendo quando Adélia Prado diz ''a voz do cantor açucarando a tarde''. A Tarde.

- Porque ela me deu uma resposta atravessada numa entrevista. E eu fiquei tiririca. Ela mais. Não gostei. Nem ela. E depois colocou minha matéria no site. E teria dito que que gostou. Diva...

- Marchinhas, boleros.

- ''ô balance, balancê''

- ''E assim se passaram dez anos...''

- Gal gravou ''Canta Brasil'' e a clássica canção sinônimo de proeza vocal aos calouros da televisão.

- E daí muitas quiseram ser Gal. Hoje muitas têm como referência Marisa com seu popismo recorrente...

- Porque Gal ficou segurando a bandeira do Tropicalismo aqui enquanto Gil e Caetano se exilaram no estrangeiro por ordem e conta dos cavalos que governaram o Brasil em época de ferraduras e chumbo.

- Ninguém canta Caetano e Gil melhor que Gracinha...

- E ninguém poderá - vejam bem, poderá - regravar ''Eu Te amo'' (''Não tem onde caiba''). Cantores com auto-estima em dia não devem sequer regravar ''Tema de Amor para Gabriela''. ''Meu bem, Meu mal'' pode.

- ''Molha tua boca na minha boca/ a tua boca é meu doce é meu sal/ Mas quem sou eu nessa vida tão louca/ Mais um palhaço no seu carnaval''

- Língua é uso!

- La leche buena todo en mi garganta.

- Porque ela canta tão cristalino que o amor é azulzinho. E é. É sim! Eu sei!

- Porque Gal muitas vezes remexeu com meus muitos sentimentos. Nem alegre, nem triste... O poema, o poema, o poema.

- ''Para que não mais existam amores servis/ Ressuscita-me para que ninguém mais tenha que sacrificar-se por uma casa, um buraco''

- Porque Gal de voz encorpada e carnes a mais ainda me pega pelo ouvido e me põe na cama.

- Porque Gal canta Caymmi

- Porque Gal numa tarde dessas, começo de noite, embalou meus sonhos azuis.

- ''Eu tô na lanterna dos afogados/ Eu tô te esperando, vê se não vai demorar''

- Sus brazos por primera vez.

- Tudo é divino, maravilhoso.

- ''Aquele Frevo Axé''. Ouve aí, gente...

- Hippie outrora, matrona. Plural.

- Por que Gal?

- Porque sim!

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