FINA SINTONIA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de abril de 2007
Antônio Mariano Júnior 
- Lacre rasgado à unha, com os dentes, com a ponta da caneta, com a chave, com desejo. Por qual começar? Esse. Aquele. Tava com a memória tinindo com os metais da voz de Bethânia cantando ''A Filha da Chiquita Bacana''... Pronto, ''Muitos Carnavais'' (1977). Terceira faixa.
- E distribuo banana com os animais.
- Um dos dez discos contidos na caixa ''Quarenta anos Caetanos'' (Universal Music), que engloba um período riquíssimo de Velô-tchu-chu tanto em qualidade quanto em quantidade de sucessos emplacados em bocas e rodas de violão e bares da vida e rodinhas de fumaça e frases pinçadas e maceradas mentalmente e que-lindo-poético-tipo-assim-o-cara-é-demais. Êxito comercial relativo. Mas quem consegue calar o boca a boca. Bolachões. Tempos de fitinhas cassetes. Pirataria era coisa de criança.
- E quadrilha toda grita, yeh, yeh, yeh.
- Caetano Veloso. Quarenta anos de carreira. E daí que toda a discografia de Velô está sendo relançada em caixas. A de agora talvez seja a que mais afetivamente toque quem adorava quando Caetano ainda rebolava. Afeminava-se em palco. Brilhava intensamente nas letras. Era acessível. Hoje duro. Um velho baiano, um fulano, um caetano, um mano qualquer.
- Mas eu gosto dele mesmo assim... Não gosto do ''Cê''... Ah, esse cara...
- A caixa. Custa bons dinheiros. Encarar como investimento. A caixa contém tesouros. E tantas músicas que cantamos... Ainda frescas, tesas. Tia Rita tinha um elepê com um desenho que achava bonito. Uma borboleta. Chamava-se ''Bicho'', o disco. E eu, menino ainda distante das calças compridas, coloquei para ouvir.
- Pirei. Deixa eu cantar/ Pro meu corpo ficar odara.
- Tia o que é odara? Explicação de tia é traumatizante...
- E a música que eu mais gostei. E decorei. E cantei... Acho que cantava para mim na época. Hoje devoto trecho.
- ''Eu só quero que Deus me ajude/ E o menino, muito mais também''.
- Pois a rosa é uma flor, a flor é uma rosa...
- Dez discos. Nossa! Olha só o que fizeram. Remasterizaram ''Doces Bárbaros'' em que Caetano, Gil, Bethânia e Gal com vestes hippies e cantos alinhados promoviam a transgressão literária e sonora. Pé quente, cabeça fria.
- Bethânia e Gal cantando ''Esóterico''... Gil cantando ''Quando''. Caetano, ''Pássaro Proibido''. Gal cantando ''Eu Te amo''.
- Tudo ainda é tal e qual/ E no entanto nada igual.
- Gal cantando ''Eu te amo''.
- ''Eu nunca te disse/ não tem onde caiba/ eu te amo/ vou dizer que eu te amo/ sim eu te amo, minha flor''.
- Azuis disparados de fora para dentro. Dentro de mim. Engulo azuis. Poesia passada no pão nosso de cada momento.
- Todo homem sabe a imensidão da fome que tem de viver.
- E de ser o lobo do homem.
- Extra, extra. ''Pipoca Moderna'' contém gravações perdidas, pouco difundidas, extraídas da edição final. ''Mamãe Natureza'' (Rita Lee), uma delícia. Versão irônica de ''Let it Bleed''. Stones, 1969.
- ''Qualquer Coisa'' é ''Jóia'' . Trocadilho. Bezerro, mamãe. Escorpião, Sagitário, não sei que lá...Drume.
- Melancolia no ar. Sai pelos póros. Pelo olhos cansados de tanto chorar. And in her you see nothing/ no sign of love behind the tears/ Cried for no one/ A love that should have lasted years.
- Dentro da estrela Azulada. Colo de Dona Canô. Muito é muito pouco. Disco furado. Fitinha cassete mastigada no velho gravador. Palavrões em meio a lirismos, pequenas pérolas cotidianas.
- Em outras palavras sou muito romântico.
- Da cor do azeviche, da jabuticada.
- Londrina, 1982. Rapaz interiorano. Manga de camisa comprimda dobrada uma só vez. Uma só vez. Moringão. Gargarejo. Primeiro show. Caetano. De repente veio cavaleiro de Jorge... Parecia a imagem de trem vindo da tela do cinema e todo mundo saindo correndo. Eu queria correr. Caetano era muito maior que as capas dos discos e das tais fitinhas... Fui ficando, ficando, ficando, fiquei. Até hoje, em que pese minhas chacotas de comadres de cerca de balaústre, eu gosto muito do Caetano.
- Nomes não digo. Cor sim. Azul. Verde, dependendo do verde. Amarelo. Tpd.VMA. Espelho dá respostas. Branco por todos e sobre todos e para todos.
- As crianças cor de romã, onde estarão? ''Cores Nomes'' (1982), a consagração, disco de ouro. Caetano no rádio, nas ''rádias'', na Globo, lotando ginásios de esportes. E fez muita gente acabar gostando de ''Sonhos'', do Peninha.
- Ele me deu um beijo na boca.
- ''Eu transo todas sem perder o tom''.
- E aí uma voz se entrelaça à outra que corre atrás da outra que grita assim e assim fica: ''A ninguém revelarei o meu segredo/ E nem direi/ quem é o meu amor''.
- Nem eu. E você?
- Maria Bethânia e Caetano Veloso (1978). Sem comentários.
- Aí o baiano, o fulano, o Caetano declarou assim certa vez, num certo veículo e foi parar num livro. ''O mito Caetano Veloso é mais ou menos independente da minha vontade, não é totalmente independente, não. Senão, não aconteceria. Tudo isso traduz um sonho de infância, de adolescência, uma tendência, uma vocação para, pelo menos, ser famoso''.
- Hum! tchu-tchu. Coisas de Caê, destilador de poesia e cuspidor de impropérios aos desafetos.
- Paulo Francis e Millôr Fernandes. Bichas enrustidas. Palavras dele. De Francis: ''Ele prefere fazer o que chamei outro dia de 'maltrapilho estilizado', simbolizar a miséria raquítica do baiano e interiorano brasileiro, para mero efeito de consumo visual''.
- Olha os cotovelos na balaústre!!!!!
- Parafinz, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz/Ouraxé, palávora, driz, okê, cris, expacial/projeitinho, imanso,ciumortevida,vidavid/ Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me logun/ Homenina nel prais de felicidadania/
- ''Outras Palavras''. Esse me virou do avesso. Por falta de manteiga, passei poesia no pão e comi.
- De 75 a 82, muita coisa aconteceu no meu coração.
- ''Porque sou família demais''.
- No caderninho de frases azuis, uma das minhas preferidas: ''Não se perca de mim/ Não se esqueça de mim/ Não desapareça''.
- Viu?
EU RECOMENDO
Por Onde Andará Stephen Fry?, Zeca Baleiro (MZA/Universal, 1997). Já tinha ouvido falar do Zeca Baleiro, mas eu o descobri há quatro, cinco anos. Gosto desse disco porque tem humor, além de mesclar som eletrônico, que eu gosto muito, com música regional. Para mim, ele se mostrou a melhor revelação da MPB nos últimos anos. Zeca deu uma revigorada no cenário musical. Ele faz um tipo de som muito competente. Nesse disco gosto de ''O Parque de Juraci'' em que faz uma boa sacada com a sonoridade das palavras. Tem também romantismo com ''À Flor da Pele'' e ''Salão de Beleza'' que gosto muito. Enfim, é um álbum que sempre ouço, até no meu estabelecimento comercial. Pelo fato de o Zeca dar uma arejada na música brasileira, eu recomendo a audição desse disco em qualquere lugar e a qualquer hora. (Dalton Hernandes Barros, restauranteur)


