‘‘Música para mim é Deus’’
(Riachão, cantor e compositor)

- ''Livrai dos inimigos/ Guiai os meus passos/ E por onde eu caminhar/ Vire os olhos grandes de cima de mim pras ondas do mar''.

- Quelé. Rainha Ginga. Mãe de canto. Voz e memória da pele que serviam como elo entre os cantos de terreiro e a música do tempo. Samba. Semba. Lundu. Jongo. Sambas de roda. O canto dela evoca história.

- Clementina de Jesus. da Silva.

- Negra. Pano de ori, xale. Voz gutural, grave. Para ínfimos, breve caricatura.

- ''Fui feita pra vadiar''.

- Por quê? Porque sim. Deu vontade. Tava limpando meus discos e CDs - comprados com meu rico, suado e merecido dinheirinho, fruto de anos de dedicação à música e ao meu ofício - e tava lá três álbuns por ela gravados.

- Jornal amarelado, meu nome no alto da página. 1998. Clementina rebaixada - só na fotografia. Relançamento de ''Clementina e Convidados'' (1979). Linhas e linhas e linhas e linhas - finas.

- Pito dela: ''Ah, Zambi, tem outra coisa: clareia a cabeça da minha gente lá no morro/ Fala pra eles pará com tanta cachaçada, maconha, briga/ Devagar, tá legal? Hum!/ Quando os nego tão doidão dão tiro à toa, à toa/ E quando eles inventam de brincá de bandido.../ É o debaixo atacando o de cima, o da direita atacando o da esquerda/ E o pior: ninguém é da direita e nem da esquerda; é todo mundo do mesmo morro/ É a miséria brigando com o miserê''.

- Ela tinha autoridade para falar de igual para igual. Reina agora no Olorum.

- Atraca, atraca quem vem na onda é Nanã.

- Divindades afro. Mas Clementina foi uma divindade. Divindades se reverenciam, sem datas redondas, motivos, causas maiores.

- ''Rainha negra da voz, mãe de todos nós''.

- Mironga de moça branca...

- Gente da Antiga. Clementina, Pixinguinha e João da Bahiana. Precisa dizer que esse disco é histórico?

- Roxá, vamos vadiar, minha nega!

- Sexagenária cantora. Outrora doméstica.

- Lavava, passava, cozinhava e cantava. Mais de vinte anos só na casa de um casal português. ''Criaturas sinceras'', descrevia.

- A patroa certo dia ouviu Clementina de Jesus cantando. Já tinha sulcos no rosto. A pergunta: ''Tá cantando ou tá miando, Clementina?''. Calou-se.

- Tava cantando...

- ''Gosto mesmo é de cozinhar. Sabe o que é você gostar de fazer um prato com prazer? Faço eu''. Entrevista rara dada quando a fama batia à porta - certamente mais reforçada.

- Hermínio Bello de Carvalho - IMENSO!!!!!!!!!!! - foi quem tirou Clementina das estatísticas dos excluídos. Aquele timbre rascante, fora de convenções estéticas, sem vibratos e espesso ganhou ouvidos absolutos...

- 63 anos de idade, Clementina no palco. Rosa de Ouro, antológico. I e II. Dez discos, entre solos e conjuntos.

- A EMI detém os direitos. Será que em julho, quando se completam vinte anos da morte de Dona Clementina, relançam um ou outro? Todos? Todos fora de catálogo. Que país é esse, Zambi?

- Miados. Hum!

- Marinheiro só!

- ''É Clementina cantando bonito as aventuras de seu povo aflito''.

- Assim não, Zambi.

- Cantos religiosos, cantos de ancestralidade. Primórdios. Tudo apreendido. Negra senhora. Preta velha. Transcendências étnicas. Canto forte, oração.

- Ela não é mais ela, Clementina. É um feitiço. Palavras de Fernando Faro.

- Folhas ressecadas. Falta de umidade. Cadeira de rodas.

- Elke a chamar a atenção pela maneira caricata com que um transformista dublou Quelé.

- Há que se ter muito mais que sinais e códigos aos divinos.

- ''Flechas sorrateiras, cheias de veneno/ Querem atingir o meu coração''.

- Embala eu!

- Tina. Ginga. Quelé.

- ''Sonho Meu'' num dueto memorável com outra Dona, Ivone Lara.

- ''Vá matar essa saudade...''. Azuis...

- Clementina de Jesus. da Silva. Porque ela é muito mais que os comuns.

- ''Quando eu morrer, vou bater lá na porta do céu/ E falar pra São Pedro, que ninguém quer essa vida cruel''.

- Entrou no céu, deu pito, resmungou.

- Quando entrou, a terra estremeceu...

- Deus é Pai, Deus é Filho, Espírito Santo, é Zambi.

- Embala eu!! Embala eu!!!



EU RECOMENDO

Trabalho todos os dias com músicas relaxantes.... No fim de semana, fazer uma comidinha com amigos queridos, tomar um bom vinho e escutar Cartola é uma celebração da vida... A música que mais toca a minha alma chama-se ''Preciso me Encontrar'' (quinta faixa do CD ''Cartola 1976''). Infelizmente, não é o tipo de música que estamos acostumados a escutar nas rádios hoje em dia. No entanto, recomendo a todos a obra deste incrível sambista. Sua poesia simples e tão profunda, acompanhada por este ritmo tão brasileiro que é o samba carioca, mexe com nossos sentidos. O Cartola se confunde com o samba e sua história. Poucos sabem, mas foi ele um dos fundadores da Mangueira e o responsável, inclusive, pela escolha das cores da escola. Ouvir Cartola é homenagear a boa música. (Dorcas Vale, professora de Yoga)

Sugestões e contatos através do e-mail: [email protected]

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