‘‘A música para mim é uma ferramenta para lidar com o mundo’’
(Lô Borges, cantor e compositor)

Solícita, gentil, fala envolvente, tanta informação bacana e... o gravador não registrou um ''a'' do que Olivia Hime disse. Anotações breves, mínimas, insuficientes para que ela pudesse falar sobre o que de tão bonito e delicado acaba de colocar nas prateleiras.
- Nervoso (não fosse tão educada senhora escreveria um palavrão ''social''), ligo novamente, explico a situação. Ela se dispõe a fazer nova entrevista, em novo horário, mesmo às voltas com problemas familiares. Outros jornalistas tinham horas agendadas. Respeito, claro. Ainda bem que deu tempo de lhe falar o quanto apreendi em ''Palavras de Guerra''. Delicado, envolvente e incisivo, o 11º disco da cantora e compositora que deitou voz serena nos palavras de Ruy Guerra. Não as do cineasta, a do letrista. Do poeta, melhor dizendo.
- Não retornei a ligação.Fiquei sem jeito... Optei por ficar com a voz de Olívia - certa madrugada, deitado ao sofá, e ela cantando; sentia as notas,a emissão... - e as benditas palavras do moçambicano radicado no Brasil. Optei por reverenciar ao meu modo, no meu canto - AQUI!!!-, um álbum tão significativo.
- Poeta precisa de intérprete. Olívia Hime, pois!
- Generosidades interpretativas, melódicas, literárias.
- Para ser ouvido em tempos de paz interior e exterior.
- Em tempos bons. Branco
- A voz de Olívia afagando tão belas palavras. Reflexão. Reflexões!!
- Ela dispara cores. Vermelho. Press kit. Vermelho!
- Dezessete canções das décadas de 60 e 70, apenas uma inédita: ''Corpo Marinheiro''. Música de Francis Hime, com incidência melódica de ''Embarcação''. Participação de Nilze Carvalho.
- ''No teu corpo marinheiro/Espamos à guisa de mar/ No teu corpo marinheiro/ Meus abismos de pureza''. Bonito, isso, não? Abismos de pureza...
- Letrista exímio - poeta, aliás -, Ruy Guerra foi resgatado por Olívia em parcerias como Edu Lobo, Chico Buarque e, principalmente Francis - esse último assina a produção e quase todos os arranjos.
- Abre com ''Jogo de Roda'' (parceria com Edu). Percussiva, com direito aos pratos de Dona Edith. Sampleados.
- Veio d'água. Fluidez. O disco vai se formando. Não há um conceito explítico. Mas o repertório escolhido provoca assombros através do canto sereno que Olívia imprime às palavras de Guerra.
- Letras tesas. Canções sentimentais não só tributadas ao coração. Ambientações. Palavras que se tocam, estranham-se, unem-se, alargam-se, roçam-se, excitam-se, ficam para sempre...
- ''Nos gestos tortos e mancos/ Faz coisas do Deus dará, meu homem/ traz no corpo um cheiro de mulher''. (''Meu Homem''). Um tango exato para a voz sinuosa de Olívia.
- De Chico, com Chico e paratodos, Ruy Guerra despejou clássicos. Lá estão ''Tatuagem'' e ''Bárbara'' (com participação de outra Olívia, a Byignton). Releituras particulares, sem ''sotaques'', sem maneirismos. Precisas.precisas.
- ''Quero ficar no teu corpo feito tatuagem...''. Os versos iniciais ativam sentimentos.
- Tatuagem. Azuis. Aoi Miti.
- Amarelo, por que não? Azuis...
- A voz gutural de Guerra declamando seus poemas, ''Fortaleza'' e ''Tigrana''
- ''Minha fortaleza é de um silêncio infame/ Bastando a si mesma, retendo o derrame/ A minha represa''. Uau!
- ''Palavras de Guerra''. Bela mulher a cantá-las.
- Ambiguidade poética. Doce Olívia, palavras contudentes.
- Sem arrombos orquestrais. Enxuto é lugar-comum. Orgânico, lugar-comum. Sonoridade nobre. É... E tanta gente boa ''diluída'' em acordes e créditos: Marcos Nimrichter, João Lyra, Jorge Helder, Ricardo Silveira...
- Francis...
- Quarteto Maogani em ''Minha''... Eterna, Olívia, eterna!
- ''Sai de onde estás para eu te ver''.
- Azuis. Palavras cromadas.
- ''Palavras de Guerra'' é para ser absorvido e não dissecado. Parâmetros, que cada um crie os seus. Quando o lirismo é explicado, espatifa-se no chão.
- Convite ao sossego. Bem-estar.
- O gravador falhou, Olívia. Sinto muito. Mas sua voz, a sua voz - a falada, inclusive - vem me guiando desde então até aqui nesse parágrafo. Transcendências de figuras de linguagem.
- Olívia, quer saber? Você me promove boas sensações com ''Palavras de Guerra''
- Muito obrigado!!!


EU RECOMENDO

Secos & Molhados, o primeiro disco, de 1973. Tinha cinco anos de idade e lembro que eu ficava deslumbrada com aquelas performances, roupas coloridas e exóticas. Lembro também da expressão dos meus avós diante daquilo que parecia muito estranho... Eles, principalmente o Ney Matogrosso, ousavam muito. Quando me tornei adolescente, os Secos & Molhados ‘‘voltaram’’ para mim. Quer dizer, eu os redescobri. As músicas falavam de temas políticos, história, filosofia e eu me perguntava como um grupo pôde maravilhar tanta gente e ao mesmo tempo transgredir padrões estéticos e comportamentais. Quem nunca cantou ‘‘O Vira’’, ‘‘Sangue Latino’’ ou ‘‘Rosa de Hiroshima’’, com um poema fantástico do Vinicius de Moraes? Enfim, esse disco marcou e continua sendo atual, ao meu ver. Quando eu o ouço, revivo esperanças e sinto que muitos mais corações podem ser tocados pelas melodias e letras desse disco.
(Rita de Cássia Messias, psicóloga e professora)

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