‘‘Música para mim ou é boa ou é ruim, ou me toca ou não me toca e tem coisas do Axé e do pagode que me tocam e influenciam’’.
(Marcela Bellas, cantora)

- Estojo lacrado. A capa, toda colorida. O vermelho destaca: ‘‘duas músicas inéditas de Caetano Veloso’’. Assim, deste tamanho. Olha... Aí, mecanicamente, viro o disco para ver quem canta o quê. Esse é bom, puxa essa é muito boa! O quê? Banda Calypso? Junto com Batatinha? Ah, o Lázaro Ramos canta? Ah, é? Desde quando? O papel transparente é rasgado na unha, na ignorância mesmo... Liliana arrisca no CD Player portátil. Ela gosta.

- Ela canta, eu danço...com as mãos. Discretamente. Lilica lembrou de uma e outras e cantou e eu...

- Eu quero ouvir. Me dá! E não é que tá uma delícia o Lázaro Ramos cantando ‘‘Vem Meu Amor’’? Uma música puxa a outra que puxa a outra e outra e ... Tá bacaninha a trilha sonora do filme ‘‘Ó paí, Ӓ’, que deve chegar às telas em março. Terceiro longa-metragem de Monique Gardenberg. É, ela mesma quem adaptou ‘‘Benjamim’’, do Chico Buarque, para as telas. É...

- Trilha sonora sempre soa melhor nas telas. Raras as exceções quando dão em disco. Ou repetitivas ou aquelas peças instrumentais divididas em milhões de partes, ora assim, ora assado, ora um bocejo sem fim. ‘‘Ó paí, ó’’ nem chegou às telas, mas as canções contidas são gostosinhas, boas, um axezinho aqui, um samba duro ali... Batatinha, Oscar da Penha, compositor dos tons menores, o lado melancólico do carnaval... Já falo dele. Com o maior prazer.

- O que? ‘‘To Carente’’, com a banda Calypso? Funciona onde e como no filme? Ah, sei lá, pula a faixa. Aproveita e pula também ‘‘Araketu Bom Demais’’, ao vivo... Essas músicas ficam na cabeça por dias e dias e dias. É preciso muita Orquestra de Câmara Solistas de Londrina ou Nana Caymmi para se livrar desas coisinhas...

- Coisinhas, coisinhas, coisinhas...

- Tá, o filme. Esperar para ver. Em bom baianês, ‘‘Ó paí, ó’’ quer dizer ‘‘olhe para isso, olhe’’. Tá, regionalismos à parte, trata-se de uma peça encenada pelo Bando de Teatro Olodum, o qual o ‘‘cantor’’ Lázaro Ramos fez parte antes de revelar-se nacionalmente esse escândalo de ator. Uma comédia de costumes baianos. No site da Globo Filme, Monique não só dirigiu como assinou o roteiro. Está lá: drama. E então? Eu sei lá...

- A sinopse. Vale a pena ler. Manja: ‘‘O filme faz uma rasura na superfície de uma reordenação urbanística do Pelourinho que violentou territorialidades negras em tentativas vãs de embranquecimento cultural e de desafricanização dos espaços públicos de Salvador’’.

- Entenderam? Simples, né? Parece discurso do Gil. Ou entrevista do Otto. Ou o Carlinhos Brown falando bonito...

- A trilha sonora. Produção de Luiz Brasil, Davi Moraes e Betão Aguiar. Bons cartões de apresentação. A música-tema (um frevo) e ‘‘Canto do Mundo’’ (uma balada só ao violão) as inéditas de Caetano. A primeira em parceria com Davi. A segunda, David acompanha Caê, ao violão.Essa só do Velô. Tchu-Tchu!

- ‘‘Com que voz cantará/ Com que luz brilhará/ Há de vir seja como for/ Pr’esse canto do mundo/ de onde virá o amor? ’’. Bonito isso...

- Virá dos azuis. Do verde, dependendo do verde...Concentradas cores, flor enigmática, petála codificada.

- Interesante a voz de Jauperi, lembra um pouco a do Djavan. Tem força. Tem cores cantando ‘‘Ó paí, ó’’. Tem graça e devoção em ‘‘É D’Oxum’’ (Vevé Calazans- Gerônimo). Amarelo ouro. Ay yê yê! Moro mi má iô.

- Mariene de Castro, uma mulata tão bela quanto a voz que possui, resgata ‘‘Ilha de Mar钒 (Walmir Lima/ Lupa). Precisam dar discos a ela, oras! Daúde sai das ondas eletrônicas e vibra em ‘‘Adeus Bye, Bye’’ (Guiguio-Juci Pita-Chico Santana). Só com a percussão do grupo Ilê Ayê. Pretinha deliciosa. Maravilhosa. Fã número qualquer, eu sou.

- Tem Timbalada? Tem. Tem Olodum? Tem e cantando uma música em inglês com aquele ‘‘levíssimo’’ sotaque baiano. Quer botar reparo? Chama-se ‘‘I Miss Her’’ (Lazaro Negrumy, com participação do dito cujo). Pop, meu rei, pop.

- Daniela Mercury e Margareth Menezes (demorou para essa moça ganhar a devida visibilidade no Brasil) cantam a tangente ‘‘Protesto Olodum’’ (Tatau), antecedida por ‘‘Ral钒 (aos berros alguém grita ‘‘Bahia’’).

- Sabe que Lázaro, com voz grave, mandou bem? Sem os excessos percussivos da gravação original (banda Eva) e deixou ‘‘Vem Meu Amor’’. Uma tetéia (pronto, Kátia vai me pegar no pé de novo...)

- ‘‘Vem meu amor, me tirar da solidão’’.

- ‘‘E fico assim querendo seu prazer’’.

- Batatinha... Oscar da Penha (1924-1997), sambista de primeira categoria, tá lá em ‘‘Depois eu Volto’’ e seus exatos um minutos e vinte e seis segundos. Pouco. Mas o suficiente para mandar seu recado e ser reverenciado pelos novos baianos.

- ‘‘É carnaval/ É hora de sambar/Peço licença ao sofrimento/Depois eu volto pro meu lugar/ Dona tristeza, dê passagem à alegria/ Nem que seja por um dia/Pois respeito sua posição/ Mas hoje eu reclamo com toda razão/Mas hoje eu reclamo com toda razão’’

- Se a tristeza bater leve, varra. Se vier forte, seja baiano.

- Toda sexta-feira, toda roupa é branca, toda a pele é negra, já escreveu Calcanhotto.

- Pelo menos um dia por semana todo mundo devia ser baiano

- Um dia, ao menos.

- Né, meu rei?! Azul. Verde. Dá amarelo. Eu gosto!


EU RECOMENDO

O primeiro disco do Zé Ramalho, 1978. Tem músicas como ‘‘Avohai’’e ‘‘Chão de Giz’’, por exemplo. Eu tinha acabado de me mudar para Londrina e esse disco veio num momento muito bom da minha vida... O Zé Ramalho foi forte ao ponto de sempre alguém ‘‘puxar’’ uma música dele nas rodas de violão. É um disco que não se pode descartar uma ou outra faixa, tem que ouvir todas para compreender a obra. Gosto muito desse estilo, digamos, rock-baião que ele imprimiu. Sempre gostei do Zé Ramalho e um dia tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Depois de um show, no Castelo Eldorado (uma chácara para evento), ele ficou com a gente perto da fogueira do nosso acampamento e o contato foi muito legal. Ali mostrou-se a grandeza maior que possui e que a música dele não mostra por ser grandiosa: a humildade. Só sei que até hoje ‘‘consumo’’ as músicas do Zé Ramalho’’. (Marcelo José de Almeida Lemos, professor e corretor imobiliário)

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