- Tantos solavancos. Tantas rasteiras. Quantas desilusões diluídas com pedras de gelo. Por que as divas sempre padecem? Por que algumas se comprometem tanto com o destino? Por que algumas, mesmo à revelia, doam-se de tal modo ao canto e a tantos desatinos?

- ''erres'', ''dês'' e ''tês'' acentuados. Porrrque. Di. Ti.

- ''Ah, o amor é uma coisa muito grande, muito, muito sagrada... O amor é o amor... Eu me dedico demais ao amor''.

- Dalva de Oliveira. Que citava o amor, mas compreendia muito mais o desamor.

- ''Teu travesseiro vazio/ provocou-me um arrepio/ Levantei-me sem demora/ E a ausência dos teus pertences/ Me disse: 'Não te convences, paciência, ele foi embora'' (''Bom dia''- Herivelto Martins-Aldo Cabral)

- Às vezes acho que Dalva de Oliveira sofria mais que todo mundo, quando no lado escuro do amor.

- A voz de Dalva. Dramas e breves alegrias.

- Daria uma cinebiografia com direito a todos os clichês. E todos verdadeiros. Dizem que a vida é clichê. Um punhado de acontecimentos. Um sopro forte de breves adjetivos, alguns bons.

- Ranhuras na matéria.

- Em 2007, Dalva de Oliveira faria 90 anos. Há 35 anos, o Brasil perdia Dalva de Oliveira. Datas redondas servem para isso mesmo: para refrescar a memória do Brasil - e informar o pessoal da música, novatos, aventureiros, alienados, apocalípticos e integrados.

- Vicentina Paula de Oliveira (05/05/1917 - 31/8/1972). Não era nome de estrela. Uma cantora da imensidão do céu merecia nome de estrela. Dalva. Dalva de Oliveira. Mal escrita, a vida dela verteria lágrimas mexicanas. Bem escrita, páginas em branco. As infelicidades e felicidades não dizem respeito a ninguém. Dalva trazia o contentamento e murchidão na voz.

- De contralto a soprano, assim sem titubear. Das contidas dores à agudeza dos sentimentos.

- Cristal muitas vezes colado e disfarçado sob a luz do abajur lilás

- Breve biografia? Não, não. Informações pulverizadas. A voz! A voz!!

- Os escândalos perdem força com o tempo, outrora austero.

- A gravadora EMI detém os direitos dos discos gravados por ela. Se vão relançar alguns títulos neste ano? Hum! Comprei cadeira nova. Sentarei.

- Sambas, tangos, baião, marchinhas, boleros e muitas, muitas, muitas canções apenas ligadas ao coração.

- Dalva pertencia à mesma escola de Aracy Cortes (sabe quem é não? Procure nos sites de buscas e aproveite para saber um pouco mais os primórdios da MPB). Dalva, inimitável, vibrou em Ângela Maria, Nubia Lafayette. E vibrou um pouco de Bethânia que a ela dedicou um texto: ''A Dalva tinha a coragem e o jeito de cantar num palco/ o que até então eu só tinha coragem e jeito de cantar dentro da minha casa''.

- ''Se eles estão me traindo/ se andam fingindo que é só amizade/ Hão de pagar-me bem caro / se eu algum dia souber a verdade'' (''Há um Deus'', Lupicínio Rodrigues)

- Mandou bem seu recado. Aproveito e mando o meu.

- ''Bandeira branca, amor/ não posso mais/ pela saudade que me invade eu peço paz/ Saudade, mal de amor, de amor'' (''Bandeira Branca, Max Nunes- Laércio Alves)

- Paz nos azuis. Azuis. Os brancos, obatalá cuida!

- ''Foi bom te ver outra vez...'' (''Mascara Negra'', Zé Ketti- Pereira Matos)

- Marchinhas para se tocar a vida.

- Não seria Dalva de Oliveira não ofertasse na voz - sim, porque a vida particular foi severamente monitorada pela ''imprensa'' - toda a cartela de cores.

- Herivelto Martins. Polêmica separação, desunião que rendeu clássicos à música brasileira. Recado daqui, resposta de lá.

- Dalva cantou para inglês ver e ouvir. Para Argentinos. Tinha ''fans''.

- Paixão fulminante por um jovem quase 30 anos mais jovem. Copos.

- Uma rainha que passava pela catraca dos ônibus urbanos no final da vida.

- Rainha, no entanto!! Da Voz, por merecimento.

- Sofrimento... Se isso enaltece o ser humano, gostaria de ser um nada. E se isso for verdadeiro, Dalva realmente foi grande.

- ''Volta, vai sofrer teu castigo/ Não procures comigo o que já se acabou/ Chora teu fracasso inconsciente/ Porque o amor dessa gente/ Dura como uma flor''. (''Lembra'', Tito Climent)

- Coragem e o jeito de cantar num palco...

- ''Vê, estão voltando as flores/ Vê um novo céu se abrindo/ Vê, como é bonito o dia/ Vê a esperança ainda''

- Suspiro poético, alento às frágeis almas.

- Ela, inconscientemente, fazia a transição entre o popular o canto lírico. Insuperável.

- Vibratos rascantes.

- ''Não deixe que males pequeninos/ Venham transtornar o nosso destino/ O peixe é pra o fundo das redes/ segredos pra quatro paredes/ Primeiro é preciso julgar/ Pra depois condenar''. (''Segredo'', Herivelto Martins-Marino Pinto)

- ''Eu me dedico demais ao amor''

- Eu também!

- Humildemente...




EU RECOMENDO

Fino da Bossa 1 e 2, Jair Rodrigues e Elis Regina. Bem, eu acredito que foi através desses discos que a música popular brasileira atingiu o seu máximo. Depois dos programas, comandados por Jair e Elis, e transformados em discos, vieram outros da Record, dos quais participei de quase todos, como a Jovem Guarda, os festivais... Lembro do Chico Buarque todo envergonhado, de smoking, começando a se apresentar nos festivais. Uma vez fui ao 'Fino da Bossa' e fiquei impressionada. O Jair Rodrigues era comunicativo, simpático, mexia com a platéia como faz até hoje. A Elis era um pouco temperamental, mas muito talentosa. Para mim, o programa e os discos foram um marco pessoal porque estava entrando numa faculdade, havia os movimentos estudantis, enfim foi um aprendizado. Os discos trazem canções antológicas. Hoje em dia, as músicas, de um modo geral, são apelativas e naquela época eram idealistas, extremamente melodiosas e com letras corretas. Enfim, quem viveu vai concordar comigo: aquela época foi muito bonita. (Liliana Claudia Garcia Spironelli, médica ginecologista e obstetra

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