FINA SINTONIA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
Antônio Mariano Júnior 
"Tem duas músicas brasileiras. A que as pessoas fazem como aquilo que acreditam, e aí tem muita gente boa, e tem a de consumo imediato que, aliás, não é só no Brasil, é no mundo todo. E tira-se pouca coisa realmente..." (Milton Nascimento)
Alceu e a multidão de felizes
- Doidinho da Silva Quadros. Doidinho numas, vamos combinar: fabuloso!
- Lá pelas tantas grita ao microfone: ''Ô gente bonita, prepara o bico que agora eu virei um beija-flor''. E um punhado de flor, já desabrochada, expande-se até o talo no Marco Zero, centro antigo do Recife. Impressionante!
- Ele pediu e foi atendido. Se não muito, pelo menos um adereço colorido foi colocado aqui ou ali no corpo. Incrível: 140 mil pessoas - olha o tanto de gente - compareceram na hora e no lugar marcados para a gravação do CD e DVD ao vivo de Alceu Valença. Fantasiadas. Muita gente deslumbrante e deslumbrada. O mote do projeto, que sai pela Indie Records, é o centenário do frevo, a ser comemorado ano que vem.
- Frevo é para gente que opta pela alegria. Constantemente. Os passos da dança driblam os contratempos.
- E dá-lhe um, dois, três, agudeza metálica dos sopros, desengonçados bonecos gigantes para lá e para cá, a interação dos músicos (quase 20) no palco, a vibração SINCERA do público (sim, porque esse papo de ''vamos tirar o pé no chão, galera'' elevou muita gente à fina flor do lácio...) e a felicidade de Alceu, o comandante da festa. Colorida. Quente. Tudo se cola ao som do frevo. Suor. Serotonina ativada.
- Tem também emboladas, cirandas, toadas, baladas atuais e aquelas de sempre - ''Tropicana'' tá só no DVD e em ritmo de frevo. Faltou um cadinho mais de momento de esfriar o corpo e aquecer a saudade com versos de um poeta de primeira grandeza popular.
- ''Na Primeira manhã que te perdi/ acordei mais cansado que sozinho/ Como um conde falando aos passarinho/ como um bumba-meu-boi sem capitão/ e gemi como geme o arvoredo/ como a brisa descendo das colinas/ como quem perde o rumo e desatina/ como um gato gemendo no porão'' (A Primeira Manhã)
- Outro versos dele burilados com dor. ''E foi um tal de sofrer, um tal de doer, um tal de chorar/ E foi um tal de sofrer, um tal de correr pra beira do mar/ E eu só na sala deserta com a porta entreaberta/ Pra te ver Voltar'' (Quando Você Foi Embora)
- Ai!
- Quero ficar, azuis caminhos, quero ficar!
- Ôpa! Peraí, o cardápio do dia é o projeto ''Marco Zero ao Vivo''. Exuberante. Em mim não deu vontade de sair dançando casa afora, nem ensaiar uns passinhos no escuro. Mas deu uma arejada no ambiente. É tão bacana ver Alceu Valenca incorporando suas ''entidades''. Trajado e tudo o mais.
- Quem abre o show é um certo fidalgo, com suas vestes e chapéu vermelhos. Depois entra o Sheik de Agadir que veio com um propósito muito especial: levar o show de Alceu para todo o mundo e pagar em ''petrodólares''.
- O melhor é ®MDNM¯Rod Shut, uma referência ao roqueiro inglês Rod Stewart, que vai de casa em casa, chamando gente pela rua para a gravação do projeto. Alceu viaja legal. E o público também. A gente também vai na dele.
- Alceu Paiva Valença. 27 discos. Festival abertura.
- Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, com vontade de chegar.
- Escreveu e dirigiu um filme ''Cordel Virtual''. Tá caçando patrocínio.
- Lembra ele no DVD fatos marcantes da sua trajetória. Quando em pequeno, participou de um concurso cantando um frevo de Capiba. Perdeu para um outro menino que atacou de ''Granada''. ''O frevo tem uma resistência absurda, é uma música que não envelhece'', diz ele. Tem razão.
- Convidados. Silvério Pessoa (que nos extras dá uma breve e bacana explicação sobre a origem do frevo), Zeca Baleiro (sentadinho num banco), Paula Lima (diva em esboço, nervosa, mas deu conta) e.... Daúde. Ô, pretinha boa de tudo. Coisa boa! Maravilhosa. Duelo de gigantes. Canta ''Embolada do Tempo'', que deu nome ao álbum anterior de Alceu, um dos melhores da sua carreira. Taí aquele momento, que pode ser ouvido e/ou visto.
- Aí veio uma fulaninha e me disse: ''Ah, mas você não fala mal dos outros na coluna''. Que bom, ela sabe ler. Desancar é fácil, fácil. Não entendeu ela o que minhas sinuosas linhas querem dizer. Nem mesmo os atiradores de flechas sorrateiras. 'Eu os olhos com olhos lassos e há em meus olhos ironias e cansaços'. Poucos entendem.
- Ah, tá! Seguinte, quem gosta de Alceu Valença vai coçar o bolso e compra o CD e/ou DVD. Quem não gosta, ameixas.
- Aquela multidão no Marco Zero... Queria estar lá naquela muvuca. Deu até vontade de ser um pouco mais feliz...
- Mãos para cima, danças acrobáticas.
- Recife. Frevo. 140 mil pessoas felizes
- Um dia eu alcanço tal capacidade.
EU RECOMENDO
Ana Rita Joana Iracema Carolina, de Ana Carolina (2001, BMG). É um disco que eu gosto porque tanto o ritmo e as letras são muito legais. E me marcou muito porque foi lançado no último ano em que fiquei no Rio de Janeiro, em 2001, antes de me mudar para Londrina. Eu estava começando uma grande paixão que dura até hoje. E foi por causa dessa paixão que fui a um show da Ana Carolina, no Canecão, e passei a admirá-la como artista. Gosto da presença forte dela em cena, da maneira como ela se impõe artisticamente. A Ana é uma intérprete que tem incrível capacidade de ampliar cada vez mais seu público. Na minha opinião ela passa uma imagem de líder nata. Esse disco, em particular, eu gosto porque é alegre, um projeto de amor à vida. Não é para curtir fossa. Gosto das faixas 'Ela é Bamba', que é a faixa que dá nome ao CD e 'Joana', que considero uma boa brincadeira com a cantora Joana. Enfim, esse álbum porque aconteceu num momento muito especial na minha vida e desde então Ana Carolina passou a ser uma das minhas cantoras preferidas. (Alexander Marchiori, engenheiro civil)


