- Envelope bege. Sedex. Meu nome. Apalpo, um CD. Abro.

- O quê!? Brincou! Ah... Seis anos depois quem sai do embrulho? Fátima Guedes. A própria. Cabelos curtinhos, debruçada sobre o piano. Quanto tempo, mulher de Deus, quanto tempo!! Você reaparece cantando Tom Jobim.

- ''Mais um tributo'', pensei. Nada disso. Quer dizer, é Tom, mas não é mais uma artista cantando clássicos do maestro soberano de Buarque. Fátima Guedes cantando os primórdios de Antonio Carlos Brasileiro Jobim. Pré-Bossa Nova.

- Ah, tá! Ah, bom! Que bom! Fátima resgata canções - essencialmente sambas - feitas na década de 50 e início de 60. Cairam no esquecimento ou raramente foram lembradas depois que Tom Jobim mostrou, em 62, no mítico Carneggie Hall, o que todo o mundo chama e canta Bossa Nova.

- O título: ''Outros Tons''. Legal, né? Décimo disco-solo de Fátima Guedes, que atualiza canções dentro do clima de boate. Pode arrancar a eguinha da chuva quem pensar que ''Outros Tons'' é um produto fácil. Nananinanão... Sabiamente, Fátima dá voz a um álbum esteticamente bem resolvido. Ou seja, não abre precedentes ao mercado fácil. Crooner refinada.

- ''Outros Tons'' é agradável, algo raro de se encontrar em trabalhos bem dimensionados, bem-intencionados mas que quando vai para o CD-Player murcham avencas portuguesas e dá aquela vontade do nada de encerar a casa...

- Fátima está menos técnica. Mostra dolência e incisão com sua voz quando necessárias. Canta os amores, desencontros, encantos, sonhos, praia, saudade sem em momento algum descambar no que de feio e recorrente há na canção popular desvairada - tem algo mais tétrico que Bruno e Marrone? Coisinhas!

- Sai pela Rob Digital. Idealizado e produzido por Marcus Fernando, o projeto conta com Paulo Midosi (piano), Ronaldo Diamante (baixo) e Elcio Cáfaro (bateria). Uma ou outra canção contém rápidas inserções de pérolas de Jobim: ''Dindi'', ''Chovendo na Roseira''. Mixagem perfeita, voz e instrumentos competem igualmente.

- Pesquisa de fôlego, ''Outros Tons'' traz à tona certas canções gravadas originalmente por cantores obscuros como Bill Farr, Zezinho, Nelly Martins e Mauricy Moura. Com Vinicius, Tom assina três; com Luiz Bonfá duas; com Newton Mendonça também duas; e só ele, três. Encarte traz breve histórico das 12 músicas. Texto de Hugo Sukman.

- O canto de Fátima dá viço em ''Faz uma semana'' (parceria com João Stockler'' registrada em 53 por Ernani Filho. O canto de Fátima é preciso em ''Engano'' (com Bonfá) que desapega-se da versão de Doris Monteiro, em 1956. O canto de Fátima dá visibilidade à discreta ''Vida Bela (Praia Branca)'' registrada no antológico ''Canção do Amor Demais'', 1958, em que Elizeth Cardoso anunciava o que Tom e Vinicius viriam ofertar: a Bossa Nova.

- Dois momentos: as jobinianas ''Olha para o Céu'' e ''Pensando em Você'', em que ela parece solfejar em determinado trecho da letra.

- ''Penso em você/ tantas vezes eu penso em você/ Que, meu amor, já não posso viver/ Sinto você ao meu lado/ Quando à tarde o sol vai se esconder/Penso em você, sempre em você/ Ó meu grande amor'' . Eu desejo apenas azuis caminhos. Nada mais!

- ''Outro Tons'' precisa ser apreendido, sorvido como gente sorve a vida quando está feliz da vida. E quando a gente está feliz da vida, a vida desliza em tardes que abafam segredos bons.

- O retorno de Fátima Guedes vem com grau máximo de excelência. É uma excelente intérprete. Mas a pergunta à roda: ''Quando virá um próximo trabalho autoral?'' A poética e melodias de Fátima são preciosas.

- São dela tais palavras: ''Ah, meu amor, de discretos pecados/ Formamos esse ser tão uno, divisível/ Parece incrível/ Que nós tentemos que ele dure eternamente/ nessas metades incompletas mas decentes (''Condenados'')

- Ouçam tudo dela. Tudinho, tudinho.

- Fátima, é de se celebrar seu retorno aos discos com ''Outros Tons''. Mas ó, você não é só intérprete. Você é uma das maiores compositores brasileiras.

- A quem interessar possa: aos 15 anos eu troquei um bailinho no Tupi Tênis Clube por um disco da Fátima Guedes. Meu pai foi taxativo: ou o baile ou o disco em forma de caderno com direito a espiral, homônimo, de 1980. Contei isso a ela quando esteve em Londrina. E disse que eu não sabia onde enfiar a mão e o que falar perto dela, que embalou anseios e inquietudes e amores de um adolescente interiorano e sensível.

- Fátima, querida, minha vida deu tantas voltas... E você sempre tão presente!

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