‘‘A língua já é musica’’
(Gilberto Gil)

- As lentes do fantásticos mostraram ''o compositor mais polêmico da Música Brasileira''. Aí Caê falou, falou... Falou mais que o homem do peixe-elétrico e a mulher dos queijos. Aquelas coisas de sempre. Caetano Veloso tem fã-clube na mídia. Polemista não, galo de briga. Dos bons, é certo. Bicadas aqui, esporadas ali e a tal entrevista soou inócua. Fachada para promover o mais novo disco do homem baiano que vem ficando mais bonito com a idade. Caê ainda acha Antonio Carlos Magalhães sexy?
- ''Cê'' já está nas lojas. Autoral, primeiro álbum com letra e música feitas só por ele. Sai pela Universal Music.
- Um pouco chato. Sexo e rock roçam-se. A sexualidade de Caetano é ereta em algumas canções e broxante em sua maioria. Há uma atmosfera mais pop do que rock and roll. Se ouvir de uma só fez, ''Cê'' é um pé no saco. Pulando faixas, funciona.
- Assim: cê quer insitir no ''Cê'', insista muito. Provavelmente acostume-se com o disco de Caê. Os puristas - o que não é o meu caso - vão querer girar maçanetas com os dentes. Os modernos - a essa raça cheia de maneirismos não quero pertencer - vão balançar a cabeça e dizer: ''Disco do c...''. Os interessados em hibridismos - aí eu até posso me alinhar - podem até achar interessante isso ou aquilo, mas devem chegar a uma conclusão óbvia: ''Cê'' iria passar batidinho, batidinho não fosse um disco de Caetano Veloso.
- As pollyanas da vida certamente vão achar algo de bom. Ah, pollyanas, caetanos e modernos sempre são do contra, orra!
- ''Cê'' tem uma sonoridade básica. Ínfima perto do orquestralmente pujante ''A Foreing Sound'', álbum anterior. Produção de Moreno Veloso e Pedro Sá (guitarra). Completam a cozinha planejada, Ricardo Dias Gomes (baixo e piano rhodes) e Marcelo Callado (bateria). Bacaninha.
- As letras de Caetano padecem de lassidão. Sexo a penetrar os pensamentos complacentes, quase crônicas de amor irreparável. ''Outro'', a primeira faixa, é uma besteirinha (''Você nem vai me reconhecer/ quando eu passar por você/ de cara alegre e cruel/ feliz e mau como um pau duro'') e funciona como um contraponto à estruturada ''Deusa Urbana'', balada com laivos de conformismo sentimental - bom até (''mucosa roxa, peito cor de rola/ seu beijo, seu texto, seu queixo, seu pêlo, sua coxa/ Menina deusa urbana, neta do sol/eu sou você e os meus rivais/ sou só).
- Pára o disco! Como diria Jardelina, genial-louca-artista, ''dá licença que eu vou lá fora gritar e já volto''.
- Voltei. Ah, tá, ''Cê'', do Caê. Há momentos - o que infelizmente não retira o rótulo ''um pouco chato'' do álbum - de boa e rara junção de letra a música. O clima romântico-cafona de ''Não me Arrependo'', o samba alquebrado ''Híbrido'' e ecos de ''Haiti'' (aquela, sabe?) no rap ''O Herói''.
- Sexo implícito, pop! ''Porquê'', com Caetano em sotaque lusitano, insinua-se poesia ao que seria aos portugueses a chegada do orgasmo (''Estou-me a vir/ e tu como é que te tens por dentro? Porquê não te vens também?''). Hum!!!
- Pára o disco! Preciso me aliviar.
- Voltei. Ah, tá, Cê, do Caê. De amargar? Mesmo? Então tome um trechinho de ''Rocks''. Lá vai: ''tu é gênia, gata, rata demais/ meu grito inimigo é: você foi mor rata comigo''
- Frase de Caetano no material de divulgação. ''Há canções demais nesse mundo. Eu próprio já fiz uma quantidade ridículas delas''. ''Rocks'' entra para a galeria das piadinhas de salão.
- Não se espera sempre o cristalino de Caetano. Ele ousa, sempre ousou, isso sempre foi bacana. Mas ''Cê'' é um canto torto. Poética revisitada, discurso reeditado. Caetano empenha-se em tornar brilhante seu ''Cê''. Em vão! ''Cê'' é apenas uma bela bijuteria a ornamentar pescoço de gatos básicos - aqueles rajadinhos, sabe? Que a gente dá nome bonito, mas se chamar ''bichano'' vêm
- A poesia de Caetano não é mais felina, é recorrente. A crítica especializada em Caetano há de lhe dar o merecido destaque. Da minha modesta parte, linhas tortas e língua tesa.
- Eu adoraria ver a reação de Fernando Mendes (''Você Não Me Ensinou a te Esquecer'') e Peninha (''Sozinho'') ao ouvir ''Cê'' do começo ao fim e tendo Caetano ao lado perguntando: ''E aí, estão gostando?''.
- Tubaína quente em taças de cristais tchecos. Chá de cicuta em copos de requeijão cremoso...

EU RECOMENDO
Wanda Sá & Célia Vaz - É um disco que eu gosto muito. Há uma harmonia boa entre a Wanda Sá e a Célia Vaz tanto ao violão quanto na voz. Aliás, o timbre vocal das duas é tão parecido que às vezes deixa o ouvinte na dúvida sobre quem está cantando. No mais, a Wanda e a Célia interpretam músicas nada comerciais, de autores como Chico Buarque e Caetano Veloso que estavam muito inspirados quando as fizeram. Há participações especiais de Gal Costa, Joyce, Quarteto em Cy e Nana Caymmi que fazem com que releituras de canções fiquem diferentes, bem legais. Esse disco eu escutei na casa de Tereza, uma amiga, e achei lindo; no dia seguinte ela me deu de presente. Tudo é muito bem elaborado.Portanto, eu recomendo para quem gosta de música brasileira. Mas música brasileira de qualidade. (Cristina Santos, professora)

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