FINA SINTONIA- ANTÔNIO MARIANO JÚNIOR
A música é nosso principal item de exportação cultural, espalha a identidade do País pelo mundo (Ivan Lins)
Fafá de Belém: disco e DVD ao vivo trazem raridades de uma grande cantora, que certa época descambou para o popularesco
A voz quente de FAFÁ
- Onze anos. Aniversário. Com direito a bailinho e rostinhos colados ao som de trilha sonoras internacionais, ganhei de presente um compacto - lembram? Na capa, uma moça de generoso decote a sustentar fartos seios. Ela no meio da mata. Quem é? De onde saiu? O que faço com isso? Nem trocar podia, estava com dedicatória com garranchos: ''Parabéns, do amigo Clóvis''... Pois é...
- Um dia o tal disquinho fez-se girar. Voz rouca a rasgar o mundinho americanizado - quer ''jacuzice'' maior que querer moldar a alma com ferramentas ''estrangeiras''... Enfim, gostei da moça. Muito!!! Fafá de Belém. Cheguei a trocar um disco - ''Excelsior, a Máquina do Som'', manja? -, presente da tia Lola -, por um álbum (ou melhor, elepê) da moça paraense.
- Trinta e um anos depois e alguns discos, ainda dou ouvidos ao que Fafá canta... Às vezes, reconheço, um ouvido só... Encorpada, voz de fêmea com cheiro de patchouli, colo quente, farturas, moça de risada franca, cores advindas do sol. Vermelho!
- ''Eu nasci para ter/ Um amor forte/ Sereno, bonito, gostoso/ Um homem bom''.
- Um cheiro de sedução... Bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant que integra o ''Ao Vivo'', 24º disco de Maria de Fátima Palha de Figueiredo. Sai pela EMI juntamente com DVD. Público afiado, letras de cor e salteadas.
- Ahã, tá, ok!!! Teve uma época que descambou mesmo. Uma vez, em Salvador, numa entrevista, ela me confessou que muitas vezes resvalou no brega. Em canções de ossos frágeis. A voz se perdeu em nome do povo, pelo povo e para o povo.
- Musa das Diretas. Quantas pombas voaram...
- Diz ela: ''Depois de viajar todo o Brasil fazendo a campanha das Diretas Já, reencontrei-me com o rádio''. Discorre sobre sua entrada no ''universo popular''. E não tem um tiquinho assim de remorso... Isso que dói, hein!?
- Ao Vivo. Registrado nos dias 5 e 6 de outubro do ano passado, no Theatro da Paz (Belém). Fafá faz uma retrospectiva consistente - e verdadeira - de alguns BONS momentos de sua carreira antes de quase a colocar próxima à pirambeira...
- ''Lá vem a força, lá vem a magia/ Que me incendeia o corpo de alegria''.
- Divindades vibram: Clementina, Monsueto, seu Francisco boné e cachimbo, atraca, atraca que o Naná vem chegando.
- Mesmo relendo-se, Fafá há tempos devia um disco que a gente pudesse aumentar o som sem temer os comentários da vizinhança... O anterior, só Buarque, é bacana, mas um tanto burocrático...
- Ave Maria! Caiu de joelhos aos pés do Papa.
- O Hino. Dividiu opinões, mas arrepiou até ilustres pensadores.
- Fafá distribuiu a sensualidade de sua terra. Canta seus homens...
- ''Me enlouquece de prazer, como ninguém jamais/ Ah, meu homem, você é demais''. Ou mesmo: ''Da infância abriu-se os laços/ Nas mãos do homem que amei''.
- O maior de todos os resgates: ''Que me Venha esse Homem'', sensível poema de Bruna Lombardi musicado por David Tygel.
- Fafá arrepia os veludos do sofá, assopra a cortina amarela, embaralha pés e põe ouvintes na contramão do é!! Aí se revela a intérprete. Narizes vão torcer, pilhérias sairão, mas Fafá é uma das grandes cantoras do Brasil. O repertório é outra coisa. Fosse levar a ferro e fogo, Ângela Maria não seria diva...
- ''Que me prenda de tarde/ Em sua teia de veludo/ Que me fira com os olhos/ E me penetre em tudo''.
- Vermelho. Muitos vermelhos. Não o amor porque esse tem outra cor. Vermelho que vem na contraluz dos sentimentos, do que explode e faz tremer...
- Maria Solidária. Milton-Brant bem representados.
- ''Foi Assim'', em dueto com Walter Bandeira, cantor paraense. É...
- A dicção de Fafá, os ''esses'', os chiados... Às vezes sai um ''Voxê'' aqui ou ali...
- ''O brilho do meu canto tem o tom/ e a expressão da minha cor: vermelho''.
- Fafá de Belém. De Portugal. Cá e lá, pois!
- Tá, tá lá ''Nuvem de Lágrima''... ai. E ''Meu Disfarce''...eita nós!! E duas faixas bônus que lambem dials...
- DVD traz faixas emblemáticas. ''Menestrel das Alagoas'': ''De quem é essa ira santa?''
- ''Quem me vê assim cantando, não sabe nada de mim''. Suely Costa e Cacaso.
- ''Dentro de mim mora um anjo, que me sufoca de amor''. As cores, cadê? Eu sei, eu guardo, salivo.
- ''Da vida, sou construção e desmoronamento/ servo e senhor, e sou/ mistério''. Fragmento vermelho de Lya Luft que saltou aos olhos marejados.
- Fafá dos fados. Gosto de fados sim, Walmor!!! Fafá tem nome de cantora de fado, certo? Portanto, gosto!
- ''O anzol dessa paixão me machucou...''
- Sempre hei de gostar de cores e cantos quentes! Cor, cheiro, reminiscências!
- Não deixa que eu corra...
- Qual mesmo a cor da espera?
EU RECOMENDO
A música é mais que ouvir. É sentir, é viver cada som, cada acorde e o timbre da diva da MPB Gal Costa, no álbum duplo ''A Arte Maior de Gal Costa'' (Gravadora Fontana, 1983). Nele há grandes compositores como Dorival Caymmi, Djavan, Chico Buarque, Roberto Carlos e Luiz Melodia. É daqueles discos que você viaja na sutileza dos agudos de Gal. ''Camisa Amarela'' (Ary Barroso) parece nos envolver num aquecimento melódico, capaz de transformar uma geleira num imenso rio de águas cristalinas como a voz da cantora. ''Tigresa'' (Caetano Veloso) é devorada pela ''leoa'' Gal com toda a maestria. Como cantora eu aprendi muito ouvindo Gal; sua timbragem não encanta só a mim, mas a muitos outros fãs. Portanto, cante com ela: ''Por ser feliz, por sofrer, por esperar, eu canto, pra ser feliz, pra sofrer por esperar eu canto'', também do Caetano (''Minha voz, Minha vida''). Ouça, cante e se encante. (Jemima Fernandes, jornalista, cantora e locutora da Rádio Universidade FM).





