FINA SINTONIA - O mundo caiu e MAYSA levitou
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
Antônio Mariano Júnior 
- Tinha 13, 14 anos. Nem alegre, nem triste, interiorana. Pedra ao sol. Quem era aquela mulher, na capa do disco, com imensos olhos verdes acentuados por sombra da mesma cor a lhe cobrir as pálpebras? Olhos vivos, imensos, melancolicamente lindos. O disco, elepê duplo, pertencia à Malu, amiga de minha mãe. Pedi para ouvir e ouvi um jocoso: ''O que é isso, menino, desde quando você gosta de música de fossa?''. Mais tarde saberia. Mais tarde, muitas vezes seria passado para trás no amor...
- Aqueles olhos imensos e lindos e tristes eram de Maysa... Os amores e desamores cantados - roucamente - por ela pesavam o ambiente. Pulava faixas delicadamente para não riscar o vinil. Mas sempre voltava porque uma frase ou outra me sugava. Sei lá, poderia servir futuramente para preencher faltas, me servir de argumentos. Sei lá, sei lá... Serviu. Muitas vezes. Um nó existencial vinha da voz daquela mulher e eu nem sabia dar nome a isso. Hoje sei vários: dor, tristeza, aperto, saudade, ausência. Indiferença, medo. Infelicidade. Maysa ensinou, eu ''moleque'', que de dor também se constroem e e se destroem relacionamentos.
- ''Ouça'' e ''Meu Mundo Caiu'' eu tocava ao violão enquanto aprendia a tocar a vida. Maysa cantava com alegria camuflada uma música desse disco - ''Para Sempre Maysa'', uma coletânea - que até hoje canto quando estou em desalinho.
- ''Se alguém contar pelos dedos/ quantas alegrias provou/ pensará que foram brinquedos/que criança má, o tempo quebrou/ Quem seguir a senda florida/ Onde o bem se esquece do mal/ verá que há contrastes na vida/ feito de bronze e cristal/ Bronze é a tristeza que implora/ um novo dia, um clarão da autora/ Cristal, sorrisos, nos dá certeza/ tormento e paz/ são bronzes e cristais''. Lindo! Chama-se ''Bronzes e Cristais'' (Acyr Pires Vermelho-Nazaren de Brito)
- O fascínio por Maysa não é só pela voz, mas à figura que não se eximiu de beber a vida em fartos goles e mostrar suas vísceras. Há 30 anos, exatamente no dia 22 de janeiro de 1977, o Brasil, de ressaca, recebia a notícia que Maysa Figueira Monjardim Matarazzo morria num trágico acidente de carro na ponte Rio-Niterói. Morria a ''Condessa Descalça'' (como era chamada no exterior por se apresentar em público sem sapatos), a Rainha da Fossa (como querem alguns). Nascia o mito.
- Peraí, peraí!!!! Que raio de País é esse que não reverencia uma de suas mais profundas cantoras e compositoras? Cadê as gravadoras que não relançam seus discos? Cadê peças teatrais? Cadê as ''cantorinhas'' de plantão - essas que dormem e acordam ''artistas'' - e seus shows tão marisamonteanos? Cadê a reverência a essa mulher que passeou pela Bossa Nova, mas optou por cantar as chamas de cotovelos? Cadê a iniciativa de relançar em DVD, por exemplo, o programa''Ensaio'' (se não me engano) em que ela cantava com os olhos marejados e a fumaça do cigarro a lhe contornar? Parece que tem uma série televisiva a caminho e uma biografia que passou batida. Pouco, muito pouco.
- A tristeza não precisa de marketing.
- Há quem opta pela alegria. Maysa não teve muitas alternativas. Bebia sim! Fumava sim! Amava sim! Vivia!! Produzia e encantava - um artista sempre estará isento de besteirinhas de comadres que compensam a infelicidade própria e alheia nas cercas de balaústre. Maysa foi grande e, no entanto, seu valor artístico é acintosamente diminuido. Que é isso, minha gente?
- Os grandes não podem sofrer ingratidão.
- Maysa transgrediu em nome da música. Deixou um sólido - convencional, como muitos hoje em dia - casamento para poder cantar. Desvencilhou-se do pomposo sobrenome e foi ser artista. E amou. E cantou. E sofreu. E compôs. E amou dar a vida. Deu nome e forma aos próprios sentimentos. Quanta verdade tem nela cantando ''E Daí? (Proibição Inútil E Ilegal)'', do Miguel Augusto.
- ''Proibiram que eu te amasse/ Proibiram que eu te visse/ Proibiram que eu saísse/ E perguntasse a alguém por ti/ Proíbam muito mais/ Preguem avisos, fechem portas/ Ponham guizos/ Nosso amor perguntará: 'E dai? E daí?'/ E daí por mais cruel perseguição/ Eu continuo a te adorar/ Ninguém pode parar meu coração/ Que é teu, que é teu/ Todinho teu''.
- Azuis que tanto quero. Azuis que me escapam. Azuis que não me saem da memória da pele, afetiva e efetiva...
- Ah, falar da biografia da Maysa? Falar o quê? Ora, peguem um disco dela e olhem bem nos olhos e as respostas virão. Ouçam-na!
- Será que alguma emissora de TV ou rádio vai fazer um especial para marcar os 30 anos de morte dela? Duvideodó...
- Tá, um dado bacana: ela compôs, aos 12 anos, ao piano, sua primeira música. Chama-se ''Adeus'', um samba-canção. Trechinho: ''Adeus palavra tão corriqueira/ Que diz-se a semana inteira/ A alguém que se conhece/ Adeus logo mais eu telefono/ Eu agora estou com sono/ Vou dormir pois amanhece''.
- Turbulências muitas vezes evocam humor ácido. Quanto mais lambadas, mais respostas na ponta da língua. Certa época, ela resolveu fazer dieta. Afinou a silhueta. E teriam perguntado-lhe o quanto havia perdido. Sorriso no canto da boca, Maysa tascou: ''Não perdi quilos, perdi litros''. Ótimo isso, não?
- Já ouviram a versão dela para ''Light My Fire'', do The Doors?
- Assim Manuel Bandeira (1886-1968) se referiu à sua mais latente musa: ''Os olhos de Maysa/ são dois não sei quê/ dois não como diga/ Dois oceanos não pacíficos/ Maysa são dois olhos/ e uma boca''.
- Quem senão um poeta para falar de Maysa. Não da Maysa legendária, mas da Maysa que tanto sentimento transmitia pelos olhos, boca, gestos... dramáticos.
- Dramas...
- Póros...
EU RECOMENDO
Tom & Elis, (1974, Universal Music, relançado recentemente). Esse disco é espetacular, um marco na música brasileira. Foi relançado há pouco tempo e ficou menos reverberado, enfim ganhou mais qualidade técnica. Escolhi esse disco por entender que se trata de algo primordial para a cultura musical brasileira por ter Tom e Elis, além de músicos de alto gabarito como Hélio Belmiro e César Camargo Mariano. Portanto, é um disco bonito e tecnicamente perfeito. Esse álbum é para quem gosta de música brasileira de qualidade e, de quebra, serve de estímulo aos músicos mais novos pelo conteúdo, pela interpretação da Elis Regina, arranjos do Tom e músicos excelentes. Na minha opinião, trata-se de um projeto tão bem planejado que só poderia dar certo. Um trabalho fiel à proposta estética das pessoas envolvidas. E um prazer para quem ouve.
(Marta Santos, cantora londrinense)
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