FINA SINTONIA - Música antes de mais nada (Paul Verlaine)
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quinta-feira, 14 de setembro de 2006
Antônio Mariano Júnior 
- O que deu na lata do poeta querer ser político? Como vereador na Bahia, dizem, fez alguma coisinha. Agora, Ministro da Cultura. Verborrágico, terno e gravata. Faz discursos, vez em quando dança e canta para autoridades estrangeiras - até que se sai bem no novo ofício. Deu visibilidade a uma pasta sempre alimentada com migalhas. Falta acabar, por exemplo, com os lobistas culturais e parar de comparar o Brasil com a França, a Conchinchinha, os Cambaus. O pessoal do audiovisual está uma arara - se bem que nunca foram bem-te-vis. Ministro, com respeito à sua autoridade, se vire!
- Gilberto Passos Gil Moreira. Gil!
- Poeta, que bom ouvir apenas sua voz e violão e canções com fortes contornos poéticos, estéticos, filosóficos e espirituais. Pertinente o nome: ''Gil Luminoso''. Era para ser lançado em 1999 como anexo do livro homônimo de Bené Fonteles. Não deu. Através da gravadora Biscoito Fino deu. Está nas lojas, menos as do camelódromo, desculpe, Shopping Popular. Hum!
- ''Gil Luminoso'' é um marcante disco do mestre baiano. Gil reinventa-se, emerge de profundas águas e vem à tona cristalino. Canções outrora recobertas com camadas pop, ganham sonoridade intimista e tornam-se atemporais. Não que as gravações originais fossem frouxas. Nada disso! Acontece que em ''Gil Luminoso'', as canções vêm com intenções mais nobres.
- Reflexões. O violão hábil acompanha um Gil iluminado cantando versos exatos. ''Tempo Rei'' (82) ganha modulações. ''Retiros Espirituais'' (75) é de se anotar trechos a lápis nas paredes da casa. ''Aqui e Agora'' (77), despojada dos instrumentais, está tão saborosa como um figo maduro. ''O Seu Amor'' (76) livra-se da irônica réplica ufanista militar para verter-se em singelezas poéticas.
- ''O seu amor/ Ame-o e deixe-o brincar/ Ame-o e deixe-o correr/ Ame-o e deixe-o cansar/Ame-o e deixe-o dormir em paz''
- Chiclete mascado, canções batidas e/ou dechavadas por chapados em rodinhas de fumaça e vinho barato pedindo ''toca aquela''... Os tempos são outros. Recapitulada,''Super-Homem, a Canção'' (79) mostra-se um belo manifesto poético-feminista isenta, agora, de possíveis via(da)gens, tá ligado?. ''Preciso Aprender a Só Ser'' (73) fala mais aos instintos do que a cotovelos em chama.
- De Caetano Veloso, no encarte no disco: ''Gil crê em Deus. Eu creio nele''. E eu nos três.
- Os pensamentos de Gil requerem agudeza de percepção. Elevadas palavras evocam também evocam o amor tátil.
- Azuis caminhos, poética horizontal: ''O melhor lugar do mundo é aqui e agora''


