- A senhora canta bonito, hein!

- Tem os verbos bem conjugados. A senhora é eterna como Deus! Deus me livre chamá-la assim, informalmente, corriqueiramente, de você. Meu formalismo interiorano deve-se mais ao respeito do que a circunstâncias cronológicas. Sou pequenino, um ponto, uma vírgula, reticências diante da sua extensão - pessoal e artística e vocal.

- A senhora é muito maior que um parágrafo de Saramago.

- Voz de tantas histórias. Em que canto da alma, quais as reminiscências busca para entornar tanto amor e desamor?

- ''E vá com Deus, deixe em paz minha vida/Me acostumei a ver tanta partida/e se eu chamar, nunca olhe para trás/para eu não chorar'' (''A Partida'', Evaldo Gouveia-Jair Amorim)

- Ângela Maria, a senhora me comoveu de um tal jeito que vi muitas cores ao seu redor, no show que apresentou no último domingo. Confesso: pensei que iria a um espetáculo burocrático, sem vísceras. Eu sabia de cor quase todo o seu repertório, meu anjo. Cresci à medida dos seus vibratos.

- Queria ter flores à mão e depositá-las lenta e reverencialmente aos seus pés. Canto agora encorpado, às vezes levemente áspero e, no entanto, caudaloso. Fez muita gente chorar, rir, relembrar, voltar ao tempo da delicadeza. Eu engoli a seco quando interpretou algumas canções encharcadas de preciosismo popular. Aplaudi até os ''emes'' das minhas mãos arderem. A senhora canta o amor de tantas formas e todas tão lindamente.

- ''Meu amor quando me beija/sinto o mundo revirar/vejo o céu aqui na terra/e a terra no mar/os seus lábios têm o mel que a abelha tira da flor/eu sou pobre, pobre, pobre/Mas é meu o seu amor'' (''Lábios de Mel'', Waldir Rocha)

- Eu sei o que quis dizer. Eu sei! Caminho por azuis...Quase os perdi. Quase! Bonitos azuis...

- Canto de diva popular. Salve rainha, defensora das pequenas e leiloadas causas também.

- ''A luz do cabaré/já se apagou em mim/o tango na vitrola também chegou ao fim'' (''Tango pra Tereza'', Evaldo Gouveia-Jair Amorim)

- Fiquei num lugar privilegiado, observando sua performance. E também da platéia. Mais de 50 anos de trajetória e voz. O que me impressiona é sua grandeza e integridade.

- Sim, cantou ''Babalu'' e todas as notas e agudos lá estavam. Cantou ''Ave Maria do Morro'' e seu canto agudo... Um anjo saudando Maria Santíssima dos excluídos... E de repente a voz fala: ''Uma homenagem ao nosso povo, uma música que é o retrato de nosso País''. E veio ''Gente Humilde'', ao que me consta, sua música preferida de centenas que gravou. Deu uma vontade de acreditar nesse Brasil novamente, dona Ângela. Não nos de cima, mas na alegria que vem dos que pouco têm. Dos que arrancam a vida com a mão.

- Vi gente de olhos vidrados e ouvidos aquecidos. Vi gente que não consegue ficar muito tempo em pé, gente que em pé ficou o tempo todo, gente que vendia quinquilharias enquanto cantava, gente pobre e gente rica - em todos os sentidos. Gente atirou flores quando a senhora entrou para cantar. Ah, flores colhidas em jardim, não de floriculturas.

- A senhora tudo fez para não pisar nas flores. Percebi, viu?

- Duas pessoas me chamaram especialmente a atenção. Seu Omega Gomes de Oliveira, 70 anos, andava para lá e para cá levando margaridas para lhe entregar. ''Eu conheço essa moça há 40 anos. É uma grande cantora, um amor de mulher''. As margaridas teriam sido encomendas de uma senhora de 80 anos, segundo ele, que não pôde comparecer ao show.

- Dona Maria de Lourdes Santos não cabia em si. Foi escolhida para lhe entregar um belo ramalhete, em nome do município. Ela nunca tinha estado ao seu lado. E olha como são as coisas: ''Eu amo essa mulher. Estava escrito. Ela foi melhor que o casamento'', disse entre reticências sentimentais.

- Sou dos adjetivos, das hipérboles, assim como profere frases feitas e, no entanto, tão verdadeiras... A gente se desacostumou com a simplicidade, não?

- ''Agradeço o carinho e respeito que todos vocês têm por mim. Um bom Natal e um ano maravilhoso para todos. Muita sorte'',

- Eu acredito em suas palavras, dona Ângela. Nas palavras cantadas e faladas.

- Boa sorte, um beijo. Saudações, majestade!!!!!

EU RECOMENDO

Vou recomendar dois. Um que não é novo, mas que é recente: ''Estudando o Pagode'' (2005, Trama), do Tom Zé. Um disco sensacional. É muito bacana o Tom Zé, um cara tão irreverente, tão incrível, tão genial, fazer um disco todo em favor da mulher. Ele fala da condição feminina. Tem sambas incríveis e letras sensacionais. Eu faço uma pequena participação, mas eu não estou falando do álbum por isso. ''Estudando o Pagode'' é uma espécie de opereta onde o Tom parece estar num palanque defendendo as mulheres. É genial. O outro que vou indicar é o ''Menino do Rio'' (2006), da Mart'nália, que saiu pelo selo Quitanda, da Maria Bethânia. É delicioso de se ouvir. Martinália é uma cantora excelente, que tem uma voz suave. As composições são muito bacanas, muito bem tocadas. A Mart'nália, bem, o nome já sugere, é filha do Martinho da Vila, nosso mestre, e é uma artista muito carismática, que ainda vai dar muito o que falar. (Zélia Duncan, cantora e compositora)

(Colaborou Kátia Michelle)

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