FINA SINTONIA - Bethânia, as águas e eu
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de março de 2007
Antônio Mariano Júnior 
A minha música são cartas que eu escrevi para o futuro, sem esperar resposta
(Villa-Lobos)
- Em pelo menos três momentos ela calou o teatro inteiro... Sabe o que é estabelecer conivências sensoriais com quase duas mil pessoas? Ela conseguiu!! Nem os gritos de ''eu te amo'', ''linda'', ''maravilhosa'' dos maravilhados surtiram tanto efeito quanto o silêncio que a voz daquela mulher promoveu. Maria Bethânia arrebatou o Teatro Guaíra, em Curitiba, no último sábado quando apresentou o espetáculo ''Dentro do Mar Tem Rio''. Fez o público respirar fundo, ganhar fôlego e mergulhar.
- Primeiro ato, águas serenadas. Segundo ato, águas enfáticas. Cenário sem maiores apelos visuais, rigor às marcações cênicas, gestos recorrentes - e mesmo assim fatais. Tudo concentrou-se no discurso de Bethânia. Contemplações sim, porém, o espetáculo evocou reflexões. Pudera, ela e Fauzi Arap roteirizam ''Dentro do Mar Tem Rio''. Um jorro de informações que o público - ao menos quem prestou atenção ao entorno das palavras - recebeu em mais de 30 canções e textos.
- Ela calou até mesmo duas mulheres tagarelas sentadas na poltrona detrás que falavam a língua dos faraós embalsamados...
- Arrebatamento: ''Eu que não sei quase nada do mar'' (Ana Carolina-Jorge Vercilo) e Bethânia levou a primeira saraivada de longas palmas, assovios, assovios, palmas e... ''obrigada, senhores''.
- ''Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão''.
- Iansã e Oxum. Ori. Divindades reverenciadas no espetáculo. Eparrei, oya! Ora yê, yê, yê.
- ''Sem ela não se anda/ Ela é a menina dos olhos de Oxum/ Flecha que mira o sol/ Oiá de mim''.
- Menino de lufã - grande e bravo - a focá-la para a eternidade. Ele não caminha sem ela. Ela dele recebeu uma rosa com mais de 300 pétalas... Vai dar certo porque contém verdade. Nele e nela.
- Vibratos, frases prolongadas. As águas de Bethânia escorreram águas de muitos olhos...
- Ela calou o teatro com águas turvas também. Uma canção de desamor. Voz e piano. Foco de luz. Tocou nas feridas dos humanos alquebrados. Como é que essa música passou batida a mim no disco e que no espetáculo me fez mais um na multidão dos silenciosos?
- ''Lágrima por lágrima/ Hei de te cobrar/ Todos os meus sonhos/ que tu carregaste/ (...) Hás de me pagar/ Toda a festa que adiei/ Tesouros que entreguei à imensidão do mar/ As noites que encarei sem Deus/ Na cruz do teu adeus/ Hei de cobrar''.
- Mãos que não queriam se calar. Aplausos, aplausos, aplausos, aplausos...
- A vontade era de soltar um palavrão bem alto como quem diz: ''Putz, obrigado, é isso, é isso, é isso''. Deitei lágrimas rasas e aplaudi com a multidão de tocados.
- Minhas águas interiores tão desorganizadas ultimamente... Caudolosas serão quando os azuis novamente se materializarem nos meus anseios horizontais e verticais...
- Azuis que vibraram em mim o tempo inteirinho. Eu na sua voz, sua voz a eriçar meus pêlos.... O tempo inteirinho... No palco ( ''Pensamento viaja/ e vá buscar/ meu bem-querer/ não posso ser feliz assim''), no camarim (a mão roçando a minha, mãos que beijo com adoração, ''você gostou?'', sorrisos, fãs gritando, ''já vou'').
- Meu amigo Wiliam te dizendo palavras tão lindas (''Lá na pedreira, rola da cachoeira/ uma água forte/ pra me banhar''). Tão bonito vê-lo comovido. Tão humano, demasiadamente humano com seu deus que dança...
- Azuis intensificados. Tpd. Cwb. Vma... Da cor da luz do sol.
- ''Dentro do mar tem rio/ Dentro de mim tem você''.
- Minhas águas interiores vieram à tona muitas vezes, Bethânia!
- Dada descuidou das próprias águas, afundou-se em águas virulentas e faltou à ''grande ópera''. É como define seus espetáculos, Bethânia!.
- Juninho.... Heleninha...''Pedrinha miudinha de Aruanda ê/ Lajedo tão grande/ Pedrinha de Aruanda ê''... Juninho!!! Katia, que linda sua menina que queria assistir ao show.... Pode?!
- E ela calou o teatro. Com a força da voz e o texto de Alvaro de Campos que fez questão de datar: 1917.
- ''Fora tu, reles esnobe, plebeu/ E tu, imperialista das sucatas/ charlatão da sinceridade/ E tu, qualquer outro/ Ultimatum a todos eles/ E a todos que sejam como eles/ Todos / (...) Homens altos/ passai por baixo do meu desprezo/ Passai aristocratas de tanga de ouro''.
- Impacto. Palco, tribuna. ''E tu, Brasil, blague de Pedro Alvares Cabral/ Que nem te queria descobrir''.
- Matéria-prima para reflexões e devaneios pessoais. O entorno dessa senhora transcede a linguagem dos comuns.
- ''Dentro do Mar Tem Rio'' é um espetáculo para os sentidos.
- Por quase duas horas o Teatro Guaíra ficou submerso nas águas de Maria Bethânia. ''Dentro do Mar Tem Rio'' é para muitos. Os poucos que se acomodem às próprias miudezas e fragmentos.
- E que cada um resolva suas águas interiores. Da melhor forma possível. E se possível...
- ''Debaixo d'água tudo era mais bonito/ Mais azul, mais colorido/ Só faltava respirar/ Mas tinha que respirar''.
- E Bethânia volta ao segundo bis cantando ''Chiquita Bacana'' e ''Chuva, Suor e Cerveja''. Carnaval. Tínhamos, nós, o Guaíra, que respirar...
- ''Não se perca de mim, não se afaste de mim, não desapareça''.
- Bethânia, sabe aquela pergunta que me fez? Resposta por escrito: ''Adorei! Você quer me matar do coração, mulher?''


