''Eu sempre digo que fui engolida pela música''
(Daniela Mercury)


- Chegou, é? Deixa aí, depois vejo e ouço.

- E lá ficou no braço do sofá pequeno por uns dias a tal baiana que vende discos tanto quanto iogurtes, cervejas, linhas de xampus. Misturando os ingredientes de cada produto, colocando percussão e melodia tem-se um disco dela... Claro, a massa tem que ser bem batida aos som dos timbaus e discos riscados por DJs. No tabuleiro da baiana tudo o que se põe, vende.

- Ficou lá por alguns dias. Ela viria a Londrina. Veio! Arrastou um monte de gente e coisa e tal. Por que teria eu tanta pressa em abrir se sabia de que (m) se tratava? De quem é, foi e será.

- Tem dindim, iaiazinha comparece!

- Tédio. Melancolia. Telefone que não toca nunca. Mensagens desejadas que não chegam. Mendicância sentimental. Ódio a Graham Bell e à telefonia. Celular.

- Poeira adensa a casa. Poeira de tanto esperar um pouco mais de alegria. Pano molhado, olheiras. Pano molhado no chão. E ela no braço do sofá pequeno esperando a hora de ser rasgada com unhas e dentes. Ao lado, o sofá grande que dia desses, tarde corrida, abriu os braços e ...

- Estendo o braço, olho a capa do DVD... Meio Mulher-Gato, macacão de vinil, bacana. É para animar? É? Vamos tentar! Vou. Enquanto a coisa lambe a bolacha metálica e cospe imagens, olho o repertório. Tem poeira no repertório. Poeiraaaaaaa...

- Ivete Sangalo no Maracanã. Tá! Uau, produção impecável. Cenário, fogo! Tantas e tantas luzez computadorizadas. Fogo por trás, até onde a vista do público alcançar. Lá vem Ivete Sangalo de elevador, sentada numa possante motoca (esse termo é velho pra caramba) e elevando-se ao sétimo céu para depois pisar o palco dos mortais endeusados. E pisa. E manda o ''maraca'' tirar o pé do chão. Pode?

- A tal galera naquele circo magistral: ''o maraca é nosso, há, há, hu, hu!''

- ''Bastou você entrar na vida pra ficar tudo bem/ Eu não quero desgrudar de você/ é bom parar o tempo/ tem tudo pra dar certo nós dois''.

- Tem? Tem...

- Ela que sim... Ela vende emoções a prestação.

- Ivete tá podendo, dizem. Ivete é isso! Ivete é aquilo! Ivete às vezes enche o pacová... Voz bonita muitas e muitas vezes a servico da dispersão. Sim, vem, mostra, canta, embevece e depois... E depois? O tempo passa e ela insiste só em mostrar o perfil popular. Geratriz da canção popular desvairada.

- Popular uma pinóia. Há nela um requinte, uma sofisticação que o próprio canto abafa ou é levada quando pede para a galera tirar os pés do chão. E se a galera um dia não tirar mais os pés do chão? Hein?!

- Intérprete de bom quilate. Recorre, no entanto, às aliteracões sonoras. Que não levam artistas por muito tempo a algum lugar. E aí vem outro ou outra popular e come o fenômeno. Canibalismo fonográfico. Fãs juram amor eterno da boca pra fora.

- A voz, a voz, a voz. Ivete sua voz é linda!! Faça melhor uso. Mostrar-se ''pequena'' aos olhos alheios é como regar carpete verde.

- CD rendeu DVD. Disco tem menos músicas. DVD dá pra ver a baiana bonita em meio ao aparato, no Maracanã. Chancela do Multishow, sai pela Universal Music.

- No DVD, Sangalo pulveriza singelezas. Talvez nem se dê conta da poesia que espatifa no chão quando a galera está sem pés, sem cabeça, memória mecânica... Ancas e bracinhos para cima...

- ''O amor me chamou de flor e disse que eu era alguém pra vida inteira''.

- Se chamou, chamou baixinho... Repete...

- Diz ela, emocionada não há dúvida: ''Ilumina a platéia. Tá cheio de fãs. São todos meus fãs. E eu sou o maior sucesso.''

- É sim, iaiazinha! Você é um sucesso...

- Como pode dar a alma quando canta ''A Lua Q eu te Dei'' e passa o chapéu quando ataca de ''arerê, um lobby, um hobby, um love com você!''.

- Nenhuma das duas estão. Mas a lua ficou esquecida...

- ''Posso falar da tarde que cai e aos poucos deixa ver/ no céu a lua que um dia eu te dei pra sonhar''.

- ''Por onde você for, me queira bem, durma bem, meu amor''.

- ''Para qué me curaste cuando estava herío''.

- Alejandro Sanz e Miss Sangalo bonitos de se ver. Mas falta alguma coisa a mais...

- Alguma coisa mais. Sumidade baiana, Rosas Passos aparece nos extras tocando e cantando com Ivete. Harmonias intrincadas, quebradas, levadas, delicadezas. Ivete sem fogo por trás, em estúdio, sem muito ou quase nenhum esforço arrisca-se a acompanhar Rosinha ao violão. ''Dunas''. Pronto, está aí a prova de que Sangalo também se sai bem contornando competentemente harmonias sofisticadas. Ivete é grande, precisa se tocar.

- De Juazeiro, terra de João Gilberto. Não beberam da mesma água, mas se bicam, ao que que consta.

- Levasse Rosa para Maracanã e seria um momento marcante. Ora, se Ivete pede ''dá o pé, loro'' a galera dá... Mas preferiu ''Eu Sei que Vou te Amar'', do Tom e Vinicius. E todo mundo canta. Todo mundo, Ivete... Da próxima pega uma menos manjada.

- Imagino você cantando ''A Medida da Paixão'' do Lenine. Voz e piano. Esse vozeirao, Ivete do sétimo céu!

- Sensível Desafio, Célia!

- E, no entanto, gente de toda a cor. Raça de toda fé. Guitarra de rock and roll, batuque de candomblé.

- Zabé come zumbi e zumbi come Zabé.

- ''Longe da fama e das espadas/ Alheio às turbas ele dorme''. Íntegro Fernando.

- Se eu não te amasse tanto assim..

- Declamaria Camões aos poucos e não Adélia, mãe dos não Gracos.

- Talvez não visse flores por onde eu vim e vivesse na escuridão.

- Me dá uma lua, Ivete?!





EU RECOMENDO

''SempreViva'', Ceumar. Para quem ainda não conhece essa linda cantora mineira, dona de uma voz doce e suave, eis uma grande ''dica' . Ceumar faz um trabalho de qualidade incontestável, fora dos modismos. Faz música bem brasileira, mostrando com suavidade que se pode fazer um bom trabalho sem cair no convencional. Fui apresentada ao trabalho dela ano passado por uma grande amiga (valeu Dê!) e desde então não consigo parar de ouvi-lo. Este CD traz melodias luminosas e letras inteligentes, passeando por um universo de alma interiorana mesmo sem ser um disco regional. Passa da balada ao xote, do samba ao jongo e vai até a um blues com um toque brasileiro. ''Lá'', uma de minhas canções prediletas, traz versos simples, mas de uma rica poesia e melodia. E a voz dela faz a gente realmente levitar. ''Se vocês só ouviram falar de céu e mar mas não de Ceumar não perdem por esperar''. (Jacqueline Almada, artista plástica)

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