- Assim, se depender do apelo visual da capa é bem capaz que deixe para lá – ou vai falar que nunca, nunquinha pegou um estojo, olhou e olhou e tornou a olhar e, na dúvida, deixou de lado? Mas ó, perde tempo com picuinhas não porque o primeiro disco da cantora curitibana Thaís Gulin tem muito mais a dizer – ou a ouvir, como queiram – que o perfil e os cotovelos da moça registrados em preto-e-branco.

- Muito mais! Cantora e compositora, Thaís apresenta um disco intenso que foge um pouquinho da sonoridade convencional, mesmo que alguns arranjos ainda busquem clichês e sua interpretação, numa ou outra faixa, ainda insista nos rigores técnicos. Mas, no todo, ‘‘Thaís Gulin’’, o álbum, tem o firme propósito de sugerir outras intenções do que as aparentemente disponibilizadas.

- Timbre delicado, mas não limitado ao ponto de suprir apenas delicadezas e deixar à mingua átonas melodias. Thaís produz o essencial, mesmo dando margens comparativistas à essa ou àquela gravação original. À essa ou àquela fulana. Thaís tem segurança e isso é louvável, ainda mais num disco de estréia. O lançamento é da gravadora Rob Digital.

- Ela anda em boa companhia, com um time de músicos competentes e atinados à sua proposta estética. Que pode ser resumida como básica e essencial. Ou orgânica, a palavrinha da moda.

- Doze faixas, maioria regravações. Peraí, peraí! O repertório não é apenas um amontoado de canções conhecidas (ou semi). Naninanão. Thaís imprime sua leitura direta, sem muitas firulas, sem muito nhenhenhém. Muitas vezes deixa que a ambientação sonora dê a coloração necessária à sua performance vocal.

- Exemplo? A desconcertante ‘‘Garoto de Aluguel (Taxi Boy)’’ em que ela parece ‘‘narrar’’ uma crônica, enquanto a guitarra de Bernardo Bosísio ambienta o lado cortante da realidade retratada por Zé Ramalho.

- Manja o verso: ‘‘Lá na vila do caroço no fundo do poço/ tem um copo de veneno dry martini pleno/ bolinando as turbinas quando o sangue estricnina/ na corrente anfetamina você liga e não atina/ sobe a rampa no veneno e pula em cima do piano/ deixa pra fulano reparar os danos’’. É de ‘‘Piano (Ofídico Fatídico)’’, um quase rap (quase porque há doses de ironia e bom humor, coisa que rappers, pelo menos os brasileiros, não gostam). É a melhor faixa. De autoria de Iara Rennó e Anelis Assumpção.

- A partir daí, Thaís decola e começa aspergir sua proposta literária e estética. Aí é que tá: o disco da moça, notável caleidoscópio musical, capta o ouvinte pelas rebarbas. Nada de retidão, linearidade.

- Thaís não caminha reto. Pega atalhos, vicinais, mas deixa pistas. Em vez de migalhas de pão, pedras pontiagudas para os seguidores. Daí colocar, por exemplo, Zé Ramalho e a dupla Jair Amorim e Evaldo Gouveia (na deliciosa ‘‘Bloco da Solidão’’) numa mesma ‘‘encruzilhada’’ e de lá disparar suas vibrações – ora por via técnica, ora solto. E cada um que aloje seus sentimentos.

- O disco não tem manual. Quer ouvir por ouvir, tudo bem. Mas, se reparar nas entrelinhas – sonoras, inclusive –, vai encontrar mensagens codificadas. O que dizer de ‘‘Defeito 10: Cedotardar’’ (Moacyr Albuquerque) cujo estofo sugere um tango ou mesmo ‘‘De Boteco em Boteco ’’ (Nelson Sargento) em que as ‘‘garrafas então batem palmas’’?

- Crônicas cotidianas. Urbanas. ‘‘Thaís Gulin’’ traz a urbanidade na essência. Lirismo fragmentado.

- Crueza e distinção. Verdades intrincadas. ‘‘Esse amor me derreteu/ ajoelha-te, esquece, me chupa e agradece/ a quem te machuca/ agradece a Deus/ Dói demais’’, palavras que tão bem escorregam de Thaís ofertadas por Otto e Alessandra Negrini.

- Molhados azuis...
- Dela com Arrigo vem ‘‘Cinema Incompleto (Núpcias). Eis caminho sonoro da
moça na intricada melodia com seu ‘‘final clich꒒.
- Thaís e cia trazem soluções práticas, por enquanto notadamente aplicáveis.
- Thaís ainda tem muito o que dizer.
- Deixem a moça falar.
- Deixem a moça cantar.
- Dêem mais espaço e ouvidos a Thaís.
- Ela precisa.
- E merece!!


EU RECOMENDO

  Nervos de Aço, Paulinho da Viola (1973, gravadora Emi Odeon). Gosto muito desse disco, a começa pela capa feita pelo Elifas Andreatto, meu grande amigo. É uma delícia ouvir o Paulinho da Viola interpretando ‘Nervos de Aço’’, bela canção do Lupicínio Rodrigues. Para mim esse disco é uma obra-prima da Música Popular Brasileira, um clássico. Foi todo feito por mãos de mestres, a começa pelo próprio Paulinho que, junto com Chico Buarque, ao meu ver, é um dos maiores compositores brasileiros. Ouço bastante esse disco, que me foi apresentado pelo Elifas Andreatto e desde então passsou a ser um dos meus favoritos. A boa música sempre vai sobreviver. Você se lembra quando os discos traziam aquela tarja escrita ‘‘Disco é Cultura’’? Pois é, atualmente, a MPB está deixando muito a desejar, com raras exceções. Por isso, para mim o Paulinho da Viola continua sendo o que sempre foi: grande.
(Odair Chiqueto, comerciante de Rolândia)

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