‘‘Se lembrar dos tempos/ Dos nossos momentos/ Lembre da nossa música’’
(Vanessa da Mata)

Jussara, amorosa e marinha

- Você já foi à Bahia? Não? Que pena. Tem fitinhas do Bonfim (aquelas que nem lavando com caco de telha saem do braço), vatapá, caruru, munguzá, umbu, ioiô, iaiá, baianas com contas e guias. Ainda há a idílica Bahia. Procurando se acha. Povo em slow motion. Caymmi, buda nagô!

- E tem axé-music. Tem cada coisa atualmente...Hum!

- No ''Lado A'' tem aquele povo que manda ''tirar o pé do chão, galera!''. Tem gente que levita. Tem gente que tira o pé do chão e nunca mais os coloca de volta. Alienação vendida em tabuleiros.

- No ''Lado B'', ah esse tem um monte de gente muito boa. Gente que faz música para o coração e não para as ancas. Música para a eternidade. E, no entanto, não ganharam a visibilidade merecida.

- Tem, por exemplo, Jussara Silveira. Que está lançando o quarto disco-solo, dez meses depois do delicado ''Nobreza''. Só duas releituras: ''Morena do Mar'' (Dorival Caymmi) e ''Oferenda'' (Itamar Assumpção). Dez inéditas. Sai com aval do Programa Cultural Petrobras em parceria com o selo Maianga.

- Chama-se ''Entre o Amor e o Mar''. Conceitual. Dá gosto ouvir a voz dessa moça de timbre quente como quente é o mar da Bahia. Ah, os graves de Jussara...Emissões coloridas! Melancolicamente prazeroso, ''Entre o Amor e o Mar'' busca tesouros das águas de Janaína e burila sentimentos de quem precisa ser amado.

- Amar é importante, o mar imprescindível. Subjetividades.

- ''Eu que inventei este lugar/ Entre o mar/ Como se eu fosse um lar/ Pra eu me instalar'', versos iniciais da canção-título. Quem me dera lavar meus sentimentos em mares azuis...

- Jussara pede contemplação. E consegue. O canto da baiana (nascida em Minas Gerais e levada tiquinha à Bahia) busca, pega, acolhe, acarinha, faz pensar, repensar, querer sempre o mais e o mar e o dom luzidio e teso de amar.

- Sereia Jussara!

- Estofo mínimo, breves lambidas eletrônicas. Pouquíssimas. O canto de Jussara não precisa de muitos complementos. É capaz até de dar sentidos maiores a versos inclinadamente miúdos. A produção é de Luiz Brasil. Yin e Yang.

- Uma cantora pode eriçar pêlos vez ou outra. Uma cantora pode se perder nos caminhos, ceder às tentações, abrir clareiras. Uma cantora pode ser apenas uma cantora e ponto. Abrir a boca e emitir notas certas.

- Jussara interpreta.

- E logo na primeira faixa...Tão linda... Deu vontade de chorar. Construção poética, melodia delicada. Vem de Guilherme Wisnik e Vadim Nikitin essa pequena obra-prima. ''Só''. Coloque no repeat. Sente-se. Deixe-se tomar

- ''Vem ouve só/ Essa cansada canção/ Fruta vã/ pensando no galho/ Manhã/ Na palma/ da mão''.

- De Adriana Calcanhotto recebeu ''Meu coração só'', em que o verbo querer impera.

- ''À Contraluz'' (Paulo Neves) manda versos incisivos. ''Tava me sentindo só/ Começando a adoecer/ Ia me faltando a memória/ De como era bom viver''

- Azuis caminhos... a caminho do mar...Encontro de azuis. E eu tão só...

- ''Nossa canção não tocou/ Nem sombra de dó, nem sombra de Deus/ Meu Deus, onde o amor vai dar? '' (''Só pra ver onde dá'', Rômulo Fróes e Gustavo Moura)

- Jussara Silveira, íntima pintura marinha.

- ''Entre o Amor e o Mar''.

- Elucubrar não é preciso. É necessário ouvir o canto agridoce de Jussara. Exato. Contemporâneo. Primaz.

- Prefiro ofertar a falar. Entre mostrar erudição, opto pela reverência.

- Entre o amor e o mar, fico com os dois.

- Fico também com as profundezas de Jussara Silveira.

- Jussara, quantos mares seu canto abriga?


EU RECOMENDO

  Maria Bethânia Ao Vivo (1995), Universal Music. Bem, a interpretação da Bethânia é intensa, demais. O que me levou a comprar esse disco foi ‘‘Todo o Sentimento’’ (Cristovão Bastos-Chico Buarque) que sempre gostei e ela tão bem se apossou da canção. Já havia ouvido com o Chico Buarque, mas prefiro a leitura da Bethânia. Há também ‘‘Lua Branca’’, da Chiquinha Gonzaga, que eu me lembro muitos dos meus pais ouvindo. Aliás, foram eles que me fizeram gostar de música brasileira, inclusive instrumental. Tem também ‘‘Fera Ferida’’, do Roberto Carlos. Gosto do disco todo, mas essas três canções para mim são atemporais e me remetem a lugares e sentimentos vividos intensamente. A Maria Bethânia não canta só com o coração, ela canta com o corpo inteiro. Eu gosto de gravações ao vivo e eu sinto que nesse disco a troca de energia com o público faz ela crescer ainda o seu canto. A Bethânia foge dos padrões convencionais de beleza, porém, quando canta, fica lindíssima.
(Nádia Moreira, dona-de-casa)

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