‘‘Não sou daqueles que dizem que não vivem sem música. Aliás, gosto muito do silêncio também, mas gosto do que a música provoca em mim e nas outras pessoas’’
(Carlos Careqa, cantor e compositor)


- Nos bastidores, mais soltinho que arroz de microondas depois de afofado com o garfo. Na apresentação ao público, uns ''gorós'' para perder a timidez. Mesmo assim não rende, não vai. Quer dizer, vai daquele jeito desengonçado. Não samba, marcha. Tá tudo no DVD para quem quiser ver.

- E assim, entre goles de cerveja e vinho e tragadas em cigarro, Zeca Pagodinho gravou mais um projeto Acústico MTV. DVD e CD. Não precisava disso. Ou precisava? Não precisava não. Zeca tomou gosto por leituras e releituras burocráticas, orquestração pasteurizada. Quer vender! Vende, ô, se vende. Ganha dindim pra caramba.

- A espontaneidade e as verdades de um sambista estão encobertas por um projeto de fácil alcance comercial - há muito indo pirambeira abaixo. Zeca vende bem, tem popularidade inconstetável, penetra em várias camadas sociais e, no entanto, não ousa. Fica nesse rame-rame de sambinhas para elevador. Sonoridade tão distante de seu universo... Dá vontade de ler Shakespeare...

- Zeca Pagodinho ou Zeca Engomadinho? Sambista das elites. Sambinhas para senhoras usuárias de cinta Esbelt e senhores que batucam na mesa... fora do compasso. Zeca não precisava apelar para fórmulas azeitadas como o tal ''Acústico MTV'', que sofre de anemia profunda. Esgotamento. Chiclete mascado, com exceção do que O Rappa fez - valores renovados.

- E aí o camarada Zeca vai lá e faz novamente parceria com a emissora que não sabe mais para onde atirar.

- Depois do primeiro acústico, em 2003, ele e a MTV voltam com ''Gafieira''. Tudo bem, há clássicos, muitos músicos dos metais, arranjadores qualificados e coisa e tal. Porém, é mais um produto que vem com grife. Zeca não precisa de grife, já pertence ao mainstream. Precisa voltar a ser o sambista com divisões interessantes e não um crooner que canta de acordo com o combinado.

- Purismo os cambaus!

- ''Gafieira'' sugere mais do que oferece.

- Gravado em dois dias, em agosto do ano passado, o show vai naquela lenga-lenga. Começa com tudo: ''Piston de Gafieira'' do sagrado Billy Blanco, prossegue com ''Tarzan, o filho do Alfaiate'' (Noel Rosa e Vadico) e busca lá nas profundezas uma pepita: ''Beija-me'' (Mário Rossi-Roberto Martins).

- O xis da questão não é o repertório, é o estofo, os arranjos. Pomposos. Faltou algo imprescindível: alma. Um pouco mais de ''quaisquais'', entendem? Gafieira, poxa!

- E o público sentadinho, sentadinho. Samambaias, samambaias. Bate palminha aqui, bate palminha ali, convenções de MTV. Ninguém se exaltou. Nem Zeca com seus goles na birita.

- DVD para ser exibido em telão de botecos enquanto o povo toma batidinhas...

- O CD tem só vozes e palmas. Menos mal!

- Tá, tudo bem, o registro audiovisual tem seus momentos divertidos. Nos extras (making of, Talk Show e Feijoada) Zeca está uma delícia. Humorista nato. One man show. Espontâneo. ''Alô? Maestro? Rildo (Hora) a que horas vai começar essa bigorna?'', diz ele durante os ensaios.

- Um dos arranjadores, o maestro Humberto Mauro, diz que gafieira, a palavra, é o lugar onde se cometem gafes. Olha só! ''O burguês, o aristocrata começou a dizer que aquele lugar é onde se junta aquele monte de crioulos para cometer gafes''. Hum! Então, tá!.

- Durante a animação, o próprio Zeca percebe a formalidade que paira entre os presentes e tasca: ''Dá bebida para essa gente. Por isso que eles ficam dessa forma. Não tem contato. Manda um caminhão e abastece a moçada''. Palmas.

- Conta piadas. Mantém o povo aceso. Vai com tudo nas tiradas. Antes de começar uma gravação, tira algo da boca (pastilha, talvez) e manda: ''Tem que fazer igual judeu tomando Viagra. Dá três lambidas e guarda''.

- Festa da espontaneidade terminada, hora das gravações. E tudo mundo emudece. Quem mudou Zeca Pagodinho? Cadê aquele molecão, o ''malandro'' gente boa? Cadê o pagode, Zeca? Hein, cadê? Cadê a efervescência de uma gafieira, hein?

- A Velha Guarda da Portela estava mais animada que o público. Miltinho, outro convidado, também. Até o elegante Paulo Moura se solta. Cantoras de gerações mais recentes (Juliana Diniz, Dorina, Tereza ''fantástica'' Cristina e Nilze Carvalho) à vontade.

- A platéia se levanta para cantar ''Verdade'' e seus versos confessionais. Um dos raros momentos de empatia.

- ''Descobri em você minha paz/ Descobri sem querer a vida/ Verdade''. Os azuis tudo transformam. Azuis indicam prazerosos caminhos...

- Mas...

- Mas...Tudo formatadinho, né, Zeca?

- Pra quê, Zeca, pra quê, hein?!



EU RECOMENDO

Na Esquina Ao Vivo - Volumes 1 e 2, João Bosco, Epic/Sony Music (2001). Adquiri recentemente esses discos. Sou fã total do João Bosco e nesse projeto ele faz uma retropesctiva boa de sua carreira, que vai desde as composições consagradas feitas em parceria com o Aldir Blanc, até a fase mais recente. O João Bosco tem uma percepção excepcional do cotidiano, além de ter muita habilidade também para abordar temas mais subjetivos. Sem contar que suas melodias são fantásticas. Por tudo isso, além do aspecto retrospectivo do material, eu recomendo a todos terem esses discos em casa. Sempre gostei muito do João Bosco pela maneira peculiar com que se expressa artisticamente. Para quem gosta da boa música brasileira, um clássico. (Alexandre Lopes Kireeff, veterinário e presidente da Sociedade Rural do Paraná)

Sugestões e contatos com a coluna através do e-mail: [email protected]

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