‘‘Respeito quem acha que música é entretenimento, mas para mim o artista tem de causar um choque’’
(Hans-Joachim Koellreutter)



SOPROS DO RAUL

* Bochechas arredondadas, pele quase lassa e no entanto poros. Que impelem e lançam sons. Olhos apertados, rosto como uma Neosaldina e, no entanto, música para aliviar dores, contornar sentimentos, enlevar espírito. Arte!

* Trombone. Diafragma, pulmão. Aquecidas escalas, ascendência e descendência rítmicas. Jazz, música arrojada, apurada, depurada, decupada, absolutamente requintada e, por um triz assim, brasileira no sopro - daí que vai tocar aos suscetivelmente preparados e, quem sabe, incautos e incultos alcancem uma certa graça.

* Música instrumental. De qualidade. Podem teóricos e pedantes formularem teorias e resenhas, mas quando de boa procedência não precisa de adjetivos e muitos ''quais-quais'' ou rasgos de linguagem. Música instrumental toca ou não e ponto final. Se é boa, ótimo! Se fizer dedos tamborilarem ou estalarem, arrancar um ''lalalá'', um assobio, um ''uau'', tudo certo. Tem que ouvir. Seguir a linha melódica - e quanto mais perder a linha, melhor. Instigar e entreter. Choque!

* Jazz não, ''Jazzmim''. Trocadilho. É o oitavo disco de Raul de Souza. Do imenso trombonista Raul de Souza. Lendário Raul. Sai pela Biscoito Fino.

* João José Pereira de Souza, 72 anos, mais 50 de carreira, carioca. Tornou-se inicialmente Raulito, alcunha dada por Ary Barroso durante a participação em seu show de calouros. ''O Ary falou, tá falado. E ficou Raulito por alguns anos. Depois eu mudei porque Raulito é espanhol. Pra nós é Raulzinho. Raulito ou Raulzinho, o que eu quero é tocar'', disse o há tempos Raul de Souza em depoimento ao Museu da Imagem e do Som.

* Filho de pastor evangélico, serviu a Força Aérea Brasileira. Acompanhava a mãe à igreja e marcava o compasso das músicas com a perna. ''Com 14 anos eu me expulsei da igreja, eu mesmo. Era muita proibição''. He he he! Foi para a música. Integrou a Orquestra Carioca da Rádio Mayrink, atuou em programas de TV. Primeiro disco: ''À Vontade Mesmo'', 1965. Inventou o ''Souzabone'' (variação do trombone, com quatro válvulas, uma delas cromática, em vez das tradicionais três e afinado em Dó). É um dos maiores trombonistas contemporâneos. Biografia mínima, histórias por demais.

* Raul de Souza. Brasileiro radicado desde 1990 na França. Que para seu ''Jazzmim'' chamou o grupo curitibano Na Tocaia para suingar junto. A versatilidade de Raul encontrou eco no jazz fusion de Mário Conde (guitarra, violão, cavaquinho), Endrigo Bettega (bateria), Glauco Solter (baixos elétricos e fretless) e Jeff Sabagg (teclados). Gravado na capital paranaense, mais precisamente no Studio Mantra, entre 22 e 30 de julho de 2004.

* Nove temas assinados por integrantes do Na Tocaia, Raul de Souza, Tom Jobim, Chico Buarque e José Boldrini. Improvisos e austeridades técnicas alternam-se. frases musicaissinalizam muitos caminhos, por vezes aparentemente fáceis de serem trilhados mentalmente. Mas não dão no lugar-comum, isso não.

* ''7 Maluco'' (Mário Conde) aponta para o formalismo cromático enquanto ''Yolaine'' (Raul de Souza) desprende mais timbres. A desconstrução de ''Piano na Mangueira'' (Tom-Chico) permite, talvez pela melodia familiar, que o disco tenha uma referência mais direta com o ouvinte - do interessado e/ou do interesseiro.

* Lá pelas tantas, uma voz grave e firme declama versos bonitos. O poema: ''Grafia Nua'', de Silvana Leal, (''Uma luz penetra a caixa escura./Realiza-se a imagem narcísica./Esta foto tua, grafia nua/ Desperta medo e mito./ Metade mulher a outra casca dura./Fragmentos de vida vigiada./Todo mundo tem uma máscara para tirar retrato.) antecede ''Luiza'' que Raul imprime sopro confessional, um trombone a preencher o vazio enquanto os olhos vasculham a quarto, sala, cidades, em procura de azuis caminhos...

* ''Alamanda'' encerra o álbum. Nos segundos finais, a risada generosa de Raul do Trombone, aliás da França, quer dizer, do Brasil, melhor, do mundo. Que já soprou seu arte aos ouvidos de Sara Vaughan, Stanley Clarke, Ron Carter, Freddie Hubbard, entre outros e tantos e bons e brasileiros Jobim, amém!

* ''Jazzmim'' é um disco solar. Vai tomando apossando-se dos sentidos aos poucos. Disco instrumental com grife. Mais que isso, álbum instrumental que não subestima a inteligência das lavadeiras do rio e nem lustra com saliva ou bafo quente o verniz cultural de acadêmicos - ou pretensos iniciados.

* ''Jazzmim'' agrega. Lasseia corações contraídos. Yeah!

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