Vigoroso LENINE

Perguntaram: ''Por que fazer um Acústico MTV''. Ele: ''e por que não?''

Fez. Fez bem-feito. Nada daquela lenga-lenga deanquinho-violão-palmas-palmas-banquinho-violão. Deu ao formato - manjado... - um toque bem particular. Desplugado, unplugged... Ah, rótulos! Que nhaca, por que precisamos sempre rotular?

- Orgânico, pronto.

- Alto, magro, cabelos longos, porte nada agreste e, no entanto, intensamente nordestino. Homem bonito! E com sotaque musical diferenciado - ele fabrica pop com brasilidade. Pela ótica dele, o Brasil é pop, popular e requintado.

- Osvaldo Lenine Macedo Pimentel. Lenine!! Pernambucano, violonista, 47 anos. Artista. Da melhor estirpe.

- Por que fez o Acústico MTV? Porque tinha algo mais a acrescentar a uma fórmula que já freou muita gente - boas, algumas - com a carreira indo despenhadeiro abaixo. Lenine está em alta. Construtor de sonoridades, alquimista de ritmos, tradutor contemporâneo da musicalidade brasileira. Ora, ora, o Brasil não é apenas o país do coqueiro que dá coco - se bem que em tempos de clonagens e genéricos, salve Ary Barroso.

- E salve Lenine! Cantautoracustico.

- Catorze músicas. Uma inédita. Algumas gravadas por ele pela primeira vez e outras relidas. Relidas? Não, sei. Ah, sei: reinventadas. Sim, porque o que era assim, ficou ASSIM. E o que era ASSIM ficou... assim, sabe como?, de um jeito diferente. Cordas e sopros dão a tônica. Mas não vá pensando em suavidades e levezas de comerciais de Leite Molico.

- Acústico MTV Lenine sai em CD e DVD pela Sony BMG. Já nas melhores lojas do ramo.

- E possivelmente - graças à vista grossa de autoridades competentes(?) - nas bancas de empresários do ramo de fronteira. Ou melhor, da economia informal. Ah, camelôs. Vendedores ambulantes loquazes, piratas da cara-de-pau.

- Os músicos: Jr.Tostoi (violões), Guila (baixos), Pantico Rocha (bateria). Orquestra parcimoniosa regida pelo maestro Ruriá Duprat. Gravações nos dias 24 e 25 de junho, no auditório do Anhembi (SP). Ao vivo.

- Com os intrumentistas, Lenine revisita sua obra sem perder a inquietude, sem descambar para o óbvio. Lenine soube com maestria abaixar volume sem perder a essência. Daí que seu Acústico, ao lado do gravado pelo O Rappa, foge dos moldes preestabelecidos pelo formato que muitos e muitas confundem releituras que, quando executadas, fazem vacas produzirem mais leites, tomates crescerem maiores, cachorros dormirem embaixo da cadeira onde a gente senta...

- O caldeirão sonoro - designação mais velha que o rascunho da Bíblia, mas na falta de outro, amém - de Lenine está mais contemplativo. Melodias amparam letras que evocam imagens cinematográficas. Trilha sonora de um 'road movie'? Talvez. Crônicas pessoais, pegadas sentimentais, fartura lírica e musical.

- ''Os edifícios abandonados/ as estradas sem ninguém/ óleo queimado, as vigas na areia/ a lua nascendo por entre os fios dos seus cabelos/ por entre os dedos da minha mão passaram/ certezas e dúvidas''. Uau! Fragmento de ''O Último Pôr-do-Sol'' (em parceria com Lula Queiroga). Azuis caminhos, o elo é forte!!

- Há também flechas certeiras como ''O Atirador'' e sua sinuosidade nordestina, a politizada ''A Ponte'' (com participação especial do rapper brasiliense Gog) e a revitalizada - melhor ASSIM - ''Jack Soul Brasileiro''.

- Convidados. Agregados nas andanças de Lenine pelo mundo. O baixista camaronês Richard Boná (com quem faz dueto na bela ''A Medida da Paixão''); a harpista Cristina Braga (com delicadas cores em ''Paciência''); o oboísta Victor Astorga (''O Último Pôr-do-Sol'', a única inédita do CD). Dois destaques: a mexicana Julieta Venegas (em ''Miedo''), referência do jazz latino; e Iggor Cavaleira em ''Dois Olhos Negros'' (com direito a um duelo de bateria com Pantico Rocha).

- ''Hoje Eu Quero Sair Só'' e ''A Medida da Paixão'' - Daúde e Fafá de Belém, respectivamente, se apropriaram de tal jeito das canções que, ao ouvi-las na versão do criador, dá a impressão de que foram regravadas apenas para agradar ao público. Que, por sinal, dá sinais de bem-querer.

- ''Santana'' (João Carlos-Junio Barreto). Bonito, viu! ''Louveira santa, desata o apuro/ leve e tanto, sempre sido só/ tange solto, quebrado, quebrado/ claro, Carmo, nossa sede, obá/ Madeira oca estende o apulso/ Capela sertana, sementeiro/lajedo molhado/ pisado, pisado''.

- Uns ofertam alegrias a preços módicos. Outros vendem suas tristezas a prazo. Outros vivem em função de marés. Mas, principalmente, há os que promovem benfeitorias em almas alheias.

- Lenine! E tins e bens e tais...

EU RECOMENDO

''Barulhinho Bom'' (1996), de Marisa Monte. Trata-se do quarto trabalho, de Marisa, que é um álbum duplo, com um disco ao vivo e outro gravado em estúdio. Contém músicas inéditas e regravações. É voltado para o samba, e faz a releitura do samba mais carioca até o samba dos novos Novos Baianos, por exemplo. Há bons momentos como ''De Noite na Cama'' (Caetano Veloso) passando pelo belo ''Xote das Meninas'' (Luiz Gonzaga e Zé Dantas), glorioso na voz ímpar, suavemente macia de Marisa Monte. Uma obra imperdível para quem sabe valorizar o artista brasileiro, e não abre mão da boa Música Popular Brasileira. Esse CD surgiu em minha vida num momento bastante difícil, em que importantes mudanças aconteceram. Apesar das dificuldades pelas quais passei, me revelou ao final uma pessoa muito mais forte, mais completa e muito, muito mais feliz'' - Sandra Tonini, Arquiteta e Urbanista

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