FINA SINTONIA - Antônio Mariano Júnior
''O amor ensina música''
(Erasmo de Rotterdam)
Sagrados
- Um, Doidinho da Silva Quadros. O outro, um lorde, polido que dói. Ambos geniais. Aí, calhou de João Donato e Paulo Moura se reencontrarem numa festa, em janeiro deste ano, na casa do diretor Carlos Manga. Papo vai, papo vem, a memória afetiva e musical do pianista acreano e do clarinetista paulista falou mais alto. Tão alto que gerou um disco. Chama-se ''João Donato e Paulo Moura - Dois Panos para manga''. Manga, pano, Carlos Manga, trocadilho... entenderam, né?
- Pois muito bem. O projeto, encampado pela gravadora Biscoito Fino, traz os instrumentistas relendo clássicos da música brasileira dos anos 30 aos 50, standards de jazz e dois temas inéditos. Tudo redesenhado competentemente. Sons que promovem imagens cinematográficas.
- O encontro bem que poderia render um DVD.
- ''A saudade Mata a Gente'' abre com o piano quase lúdico de João enquanto a clarineta de Paulo arquiteta frases e harmonias que passariam despercebidas se relidas convencionalmente. Em ''Copacabana'', o piano acentua-se em harmonias críveis e incríveis. João de Barro, o Braguinha, o autor deve ficar orgulhoso com as recriações.
- Agora,''Tenderly'' (Walter Gross e Jack Lawrence'', sucesso na voz de Nat King Cole, é para ouvir, ouvir, ouvir, ouvir. Traçados cromáticos.
- Raridade: ''Minha Saudade'', canção praticamente desconhecida de João Donato e... João Gilberto. Pré-Bossa Nova. Pré-O Pato. Pré-Chega de Saudade. Pré-esquisitices do genial e genioso Gilberto.
- Inéditas: ''Sopapo'' e ''Pixinguinha no Arpoador'', que inicialmente vai parafraseando ''Carinhoso'' e depois toma destino próprio.
- No encarte do álbum, uma deliciosa entrevista com Donato e Moura.
- Falar o quê sobre o encontro sonoro de dois monstros, hein? Como adjetivar corretamente sem cair no lugar-comum? Ora, para quê elucubrar sobre um disco tão contemplativo? Melhor é abrir um vinho, cruzar as pernas, vez em quando fechar os olhos e sorver prazerosamente o que vem de Donato e Paulo Moura.
- Shiuuuuuuu! Silêncio!! Há música boa no ar!!!
Baiana cheia de bossa
A capa do disco não é nada convidativa. Simplória... Aí vem a primeira faixa, ''Minha Casa é Você'' (''Meu pensamento se vê/ sempre voltando a você/sempre recorro a você/ sempre que quero me achar''), para sacar o bom trabalho autoral ''No Rádio da Minha Cabeça''. Que vem a ser o quinto CD da cantora e compositora baiana Sylvia Patrícia. Sai pela gravadora Lua. Acento pop, mas sem desvarios. Leves incursões eletrônicas. Letras cobertas com ritmos que vão do samba à salsa. Sylvia Patrícia passeia com muita bossa pelas 12 faixas (todas cifradas para violão e guitarra no encarte). Voz bem colocada, suave. Tem participação de outra extraordinária cantora baiana: Jussara Silveira em ''Ednalva''. Deliciosa.
- Põe reparo nisso: ''Eu sempre tremo nas bases/quando ela resolve botar o trema em cima do 'u'/os pingos em cima dos 'is'/Com seus dois fuzis me olhando''. He he!
- Ritmos sincopados, boas sacadas literárias. Alternância de suavidade e proeminência melódica e rítmica. ''No Rádio da Minha Cabeça'' é, por excelência, eficaz. Para dizer o mínimo.
Antena
- O DVD da lendária Orquestra Tabajara, com direito um documentário, está estourando por aí. 73 anos de atividade. No menu, entre outras opções, ''Espinha de Bacalhau''. Deliciosa criação do 'chef' Severino Araujo...
- Milton Nascimento é a bola da vez na coleção ''Perfil'' (Som Livre). Claro, a coletânea prioriza o Lado A da discografia do imenso artista carioca-mineiro. Olha só: ''Encontros e Despedidas'', que tem a voz de Zezé Motta ma-ra-vi-lho-sa.
- Lisa Ono, brasileira de muito sucesso no Japão cantando Bossa Nova, põe na roda ''Romance Latino Vol.1 - Los Boleros al Estilo de Bossanova'' (Deck Disc). ''Ay cosita Linda'' e ''Piel Canela'' são encantadoras. Daqueles discos perfeitos para ouvir na horizontal. De preferência com alguém que traz tempos de delicadeza.
EU RECOMENDO
Forças D'Alma, de Tutty Moreno. Para a cantora Joyce, a expressão MPB perdeu o significado original. Por ela, hoje passam a chamada ''música sertaneja'', falsos pagodes, axés & similares, que inundam a mídia brasileira. O substitutivo seria MBB (Música Boa Brasileira) que continua desprezada pelas grandes gravadoras, que insistem no quanto pior, melhor. Joyce é casada com o baiano Tutty Moreno, responsável por um dos mais fascinantes CDs lançados ultimamente. Basicamente instrumental, foi produzido em 1998 pela Secretaria de Turismo do Estado da Bahia e relançado pela Pau Brasil. ''Forças D'Alma traz reconstruções de temas de Dorival Caymmi, Luis Eça, Egberto Gismonti, Durval Ferreira e da própria Joyce, que participa em duas faixas. Destaque para o piano e arranjos (cordas, inclusive) de André Mehmari. Um primor de trabalho.
(José Flávio Garcia, agropecuarista e produtor do Londrina Jazz Club, programa que deve retornar à Rádio Univesidade FM)
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