FINA SINTONIA - Antônio Mariano Júnior
- Ora yeyê Kafideliomã!
- Okê Arô!
- Com o perdão da palavra quero cair na vida.
Quero ficar no parque, a voz do cantor
açucarando a tarde...
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.
(Adélia Prado - O Alfabeto no Parque)
Alteza por extenso
- Maria Bethânia fez 60 anos. Quiseram fazer um auê. Ela recusou comemorações maiores. Disse que preferiria rezar e agradecer aos santos católicos e do candomblé também, provavelmente. Em termos mercadológicos, a gravadora Universal pegou carona na data e acaba de lançar 22 títulos da intérprete baiana, gravados entre 1976 e 1995, durante as três passagens pela companhia inicialmente na Elenco, depois na Philips e posteriormente Polygram e agora Universal Music.
- Raridades. Algumas estavam sendo comercializados na internet. Tinha gente que pagava até 200 paus. Fãs, quando querem, andam sobre as águas...
- Muitos torcem o nariz para Bethânia. Outros usam a burocrática e rasa palavra respeito quando a ela se referem. E muitos e muitos que a acompanham há tempos. Eu gosto mais dessa última categoria. Aliás, Viva Bethânia, o projeto, chega ao mercado visando aos admiradores da grande senhora da MPB. Detalhe: os discos serão colocados à venda individualmente. Quem tiver polpudos bolsos certamente vai cair de boca nos 22 discos. Aos mais contidos, digamos, resta ir comprando aos poucos. Preço: entre R$ 25,00 e 30,00 cada.
- O idealizador foi o jornalista e pesquisador Rodrigo Faour. Que assina os textos de apresentação de cada disco. Muitas curiosidades, informações inéditas, saborosos segredos. Uma deles: insatisfeita com o descaso da então Polygram com a divulgação de seu disco Olho Dágua (1992), Bethânia resolveu ir pessoalmente à gravadora perguntar se ainda a queriam no casting. Pronta para chutar o pau da barraca. Pedir as contas, se fosse o caso. O então diretor Max Pierre desfez o argumento dela e ofereceu um projeto só com músicas de Roberto e Erasmo. Bethânia aceitou. Mas impôs condições. Resultado: As Canções Que Você Fez Pra Mim (1993) vendeu quase um milhão de cópias e reposicionou Bethânia como uma das grandes vendedoras de disco.
- Você pode me bater/ E até me provocar/ Mas não manche minhas águas/ E se rouba minha terra/ É guerra no mar, é guerra (Guerra no Mar - Gerônimo). Está em Memória da Pele (1989), que resume um pouco a personalidade de Bethânia. Agridoce Bethânia.
- Faour cita A Cena Muda, como um dos preferidos. Um disco, segundo ele, político do começo. Fosse uma outra pessoa cantando muitas das músicas, cairia no ridículo ou ficaria sem graça. Há uma carga teatral muito imensa que só Bethânia poderia fazer
- Faour conseguiu também estender o projeto às gravadoras Emi (cinco discos) Sony-BMG (seis e mais uma coletânea Noel Rosa e outras raridades)
- Bethânia foi a primeira cantora brasileira a vender a um milhão de cópias com o histórico Álibi (1978)
- Vinte e dois títulos. Encontros (Chico, Caetano, Edu). Tem Drama !972) que gerou outros dois álbuns ao vivo. Tem Ciclo (1983), o melhor disco dela até hoje modesta opinião minha! Tem muita música que atravessou gerações. Tem muita música que serviu de trilha sonora nos momentos de amor e desencantos.
- Já me perguntaram se sou fã de Bethânia. Não, não sou. Sou desesperado por ela. Por tudo o que vem dessa senhora que faz o sinal da cruz antes de subir no palco, onde se transforma.
- Um orixá em cena!
Modestamente Jobim
A frase: Eu não sou uma pessoa particularmente dotada para a música. O autor: Tom Jobim. Pode? Foi extraída de uma boa entrevista que o maestro soberano concedeu ao jornalista Roberto DÁvila (aquele do sorrisinho sempre em cima, sabe?), em 81, e incluída no DVD Tom Jobim Ao Vivo em Montreal. Sai pela Jobim/Biscoito Fino. O registro audiovisual aconteceu em 1986, no festival de jazz da cidade canadense. O DVD antecipa os 80 anos de Tom, em janeiro de 2007. A parte musical, irretocável. Clássicos como Gabriela, Água de Beber, Wave e a emblemática Borzeguim. Tá esperando o que para coçar o bolso?
Gorjeio do Sabiá
Referência é uma coisa, papel carbono é outra ainda mais aqueles amarfanhados de tanto uso. O primeiro disco de João Sabiá (Rob Digital), revelação do programa Fama do ano passado, tem suingue e coisa e tal. Samba rock, mas cansa um pouco pela superficialidade com que tenta passar a imagem (capa horrorosa, por sinal) e artística de galã cheio da boa malandragem. Tem lá a sua Renata, Renatinha e outras músicas próprias ao lado de preciosidades como Deixa Isso Pra Lá, Nega de Obaluê e até a saturada País Tropical. Dá para ouvir pulando faixas. Um bom disco para animar churrascadas. Ou faxinar a casa com vontade!
Elza, transgressora
A cineasta Izabel Jaguaribe fez Paulinho da Viola - Meu tempo é Hoje. Maravilhoso. O projeto de Izabel é fazer um documentário com Elza Soares. Putz... Alguém, enfim, para fazer justiça com Elza, diva transgressora. Que vai do samba ao jazz sem quebrar telhas. A vida pessoal de Elza sempre foi pontuada por dramas e sambas e jazz e pop. Um olhar atencioso e carinhoso sobre essa mulher vai calar algumas bestas que ainda insistem só em vê-la como aquela que danou a vida de Garrincha. Elza sobreviveu a tudo. Os grandes sempre ficam em pé!
Antena
- Vamos combinar, hein? Já deu o que tinha que dar É Isso Aí, com Ana Carolina e Seu Jorge. Ou seria pior Depois me Diz, outra versão de The Blowers Daughter (Damien Rice), com a Simone tocando incessantemente nas rádios?
- Passaram batidos CDs e DVDs Para Inglês Ver... e Ouvir, da Zizi Possi. Saiu pelo selo do Manoel Poladian, empresário dos ônibus dos anjinhos... Uma pena.
- Eu preciso tomar calmante para cantar Bossa Nova. Foi Daniela Mercury quem disse em recente programa Altas Horas. Precisa mesmo. Tarja preta!
n Bethânia canta Zezé di Camargo. Que convidou Chico para gravar ele aceitou Minha História no próximo disco da dupla. Caetano grava Fernando Mendes. Zé Ramalho participa do disco de Chitãozinho e Xororó. E a gente que se vire para achar argumento para esses intercâmbios.
- João Gilberto vai gravar o primeiro DVD. No Japão, onde há dois anos foi aplaudido por 22 minutos depois de um concerto. Genial e genioso, João! Pacotes de Neosaldina deverão distribuídos aos técnicos de audio e vídeo. Vai que um ou outro faça algum barulho ou uma gota de suor caia no chão e tire a concentração do grande João...
EU RECOMENDO
Amorosa (2004) , da Rosa Passos. É um disco riquíssimo, extremamente sofisticado. Aliás, a Rosa é a cantora mais sofisticada do Brasil. Tudo o que vai para as mãos dela volta rico. Nesse disco ela conta com participações como Yo-Yo Má, Paquito DRivera e Henri Salvador. O arranjo para Retrato em Branco-e-Preto é muito diferente de tudo que se fez até agora. Eu diria que nos últimos cinco anos, Amorosa é o melhor disco que ouvi. Adquiri, ouvi, indiquei e até comprei para alguns amigos. Se a intenção era fazer uma homenagem ao João Gilberto, que fez Amoroso (1977), disco que também influenciou Diana Krall, eu diria o seguinte: Rosa Passos fez melhor que os dois. Renato Manttovanni, publicitário e produtor musical de Londrina





