Antônio Mariano Júnior
De Londrina
O Rappa chega ao terceiro disco reafirmando pela terceira vez consecutiva, em seis anos de existência, que o morro não tem vez. E não tem mesmo, ué?! Ok, salve a coerência da banda carioca. Acontece que em ‘‘Lado B Lado A’’, o disco, as desigualdades sociais vêm envoltas num clima sonoro pesadão. E isso pode abafar, ou melhor, pode fazer com que as críticas sociais e políticas passem batidas no meio da parafernália eletrônica. Não se entusiasmem só pelo estofo: as letras, mesmo quase descambando vez ou outra para clichês e trocadilhos, é o que de melhor O Rappa tem a apresentar à sociedade.
O estilo ainda é a mesmo – a fusão de reggae, hip hop, samba, pontos de macumba, rock, dubs e outras cositas mais. Só que desta vez, todos esses ingredientes deram origem a uma gororoba em que é preciso mastigar com calma. Não que ‘‘Lado B Lado A’’ seja algo que vá se tornar um diferencial no mundinho pop tupiniquim. Nada disso. É apenas um disco pop bem produzido que soa pretensiosamente cerebral.
Com perdão do chiste, ‘‘Lado B Lado A’’ não é um disco dance; é um disco denso. Não vem prontinho para o consumo como o suigante ‘‘O Rappa Mundi’’ (96), o álbum anterior que vendeu surpreendentes 300 mil cópias. É preciso agitar antes de usar. É que há muitas informações sonoras diluídas nas 12 faixas (todas inéditas, com exceção de ‘‘Se Não Avisar o Bicho Pega’’, gravada anteriormente por Bezerra da Silva).
‘‘Lado B Lado A’’ não demonstra o amadurecimento de O Rappa – ainda é muito cedo para cair nesse papo furado. Há muitos caminhos pela frente, muitos sons a ser absorvidos, muitas arestas a ser aparadas ou descartadas. Porém, O Rappa está indo no caminho certo. Ao contrário de bandas emergentes (principalmente as que vêm de um disco anterior bem recebido pelo público, a ‘‘rappaziada’’ preferiu dar passos mais largos. E ‘‘Lado B Lado A’’ é um passo e tanto.
Podemos dizer, por enquanto, que esse é o disco melhor concebido – tanto técnico como artisticamente. De longe, ‘‘O Homem Amarelo’’ (música e letra do grupo) é a mais saborosa das faixas embora ‘‘Favela’’ também não faça feio. Algumas ganham nem tanto pelo som e, sim, pela letra. É o caso de ‘‘Cristo e Oxalᒒ (com letra de Marcelo Yuka), cercada de metais e programação eletrônica, que tasca numa de suas linhas: ‘‘Oxalá se mostrou assim tão grande/Como um espelho colorido a mostrar/Pro próprio Cristo como ele era Mulato/ Já que Deus é uma espécie de Mulato.’’ Uau!!
‘‘Lado B Lado A’’ foi gravado no Rio de Janeiro e mixado na Inglaterra. A produção ficou a cargo de Chico Neves, com exceção da faixa título e ‘‘Na Palma da Mão’’, assinadas pelo produtor norte-americano Bill Laswell (que tem em seu currículo trabalhos com Peter Gabriel e Bob Marley). A seguir, os principais trechos da entrevista que o guitarrista Xandão concedeu à Folha2.
Esse disco sai depois de três anos. Por que esse tempo? A gravadora pediu para aguardar o momento oportuno ou vocês queriam amadurecer melhor as idéias?
Não foi por nenhum desses motivos. Foi basicamente pela longevidade do último disco. O ‘‘Rappa Mundi’’ começou a fazer sucesso um ano depois de lançado e ficamos praticamente dois anos na estrada divulgando. Mas a gente parava, nesse meio tempo, para fazer esse novo disco. Ficamos um ano fazendo a pré-produção deste novo disco e entrando a cada três meses no estúdio preparando as bases. E na hora de gravar, gravamos muito rápido. Tivemos uma felicidade muito grande com o Chico Neves (produtor) que montou um estúdio exatamente como a gente queria. Nós queríamos sair dessa rotina de grandes estúdios, de grandes produções. Queríamos uma sonoridade meio década de 70...
Esse disco está melhor aparado tecnicamente, não?
Em termos de qualidade técnica ele não deixa a desejar a nenhum disco nacional. O disco está mais eclético em termos de sonoridade. É um disco que vai marcar o cenário pela própria sonoridade. Essa parte da poesia, da maneira com que fazemos as críticas sociais já é um ponto normal no nosso trabalho. Mas essa parte sonora, a gente amadureceu bastante.
É preciso falar das diferenças sociais gritantes e vocês fizeram disso um mote. Como equilibrar uma causa nobre com apelo comercial?
Falamos sobre as diferenças sociais desde o primeiro disco. O fato de falarmos é natural porque viemos do subúrbio e sofríamos esse tipo de discriminação. Mais ainda, talvez, pela indignação de você, por exemplo, ter seu carro e ser parado numa dura e ser esculachado como se tivesse roubado o carro. E passar um bacana no carrão, de repente o cara é um traficante, um sonegador e dizer: ‘‘bem feito, negão safado, vai trabalhar, vagabundo’’.
Você acha que O Rappa contribui para combater esse tipo de discriminação de que maneira?
Olha, é importante dizer que não somos uma banda engajada nem uma banda panfletária. Fazemos as coisas em que acreditamos. A gente não faz isso para promover o disco; a gente continua indo a Vigário Geral (NR favela do Rio de Janeiro) repassar um pouco do nosso trabalho... Realizamos workshops lá e isso sim faz com que as crianças se sintam motivadas. Se cada um fizer um pouco conseguiremos resolver os problemas sociais. O que não se pode fazer é ficar sentado dentro de casa esperando as coisas acontecerem e reclamando. Não há dinheiro que pague ver que seu trabalho tem retorno e que uma comunidade inteira o respeita.O guitarrista Xandão fala à Folha2 sobre o novo disco do Rappa ‘‘Lado B Lado A’’, considerado o melhor do grupo
ReproduçãoIlustração de Doze Green para o novo disco do Rappa‘‘Realizamos workshops em Vigário Geral, as crianças ficam motivadas’’

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