São Paulo, 17 (AE) - Formalmente, Maria Bethânia e Gal Costa cantaram juntas, ao vivo, apenas outras duas vezes: em 1964, em Salvador, no show "Nós, por Exemplo", que marcou a estréia profissional delas duas e de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé e, em 1976, no espetáculo "Doces Bárbaros". Fora isso estiveram juntas, eventualmente, em programas de televisão - ou cantaram duetos, em discos de Maria Bethânia. Sempre nos de Bethânia: "Eu a convido para gravar comigo, mas ela nunca me convidou", diz Bethânia, que não está reclamando, mas achando graça da constatação.
De fato. Gal Costa, aliás, gravou pela primeira vez num disco de Bethânia, fazendo dueto com ela na linda e tristíssima canção "Sol Negro", que Caetano Veloso escreveu para as duas. "Sol Negro", naturalmente, é um dos números do show que fazem juntas, sábado e domingo, no Credicard Hall, em São Paulo. Em 1964, quando cantaram a música pela primeira vez ("Na minha voz/Trago a noite e o mar/O meu canto é a luz/De um sol negro", cantava Bethânia, o grave rasgando noite e mar; Gal Costa, ainda conhecida como Maria da Graça, respondia: "Valha, Nossa Senhora/Há quanto tempo ele foi-se embora/Foi pra bem longe, para além do mar/Para além dos braços de Iemanjá/Adeus"), obedeciam a uma disposição de palco determinada pelo autor: uma em cada extremo da cena, Gal de preto, Bethânia de branco.
A disposição foi mantida e Gal continua de preto. Bethânia trocou o branco pelo prateado. O show de sábado e depois é o mesmo que foi apresentado para casa lotada, no Rio, no fim de semana passado. Elas abrem juntas o espetáculo, com "Os mais Doces Bárbaros", de Caetano Veloso, e "Oração para Mãe Meninha", de Dorival Caymmi. Gal sai, Bethânia canta meia hora. "Não É A Força Que nunca Seca, nada formal; canto coisas que gosto de cantar, posso dizer um texto ou não dizer nenhum", conta. "Devo cantar Sampa: me faz bem cantar Sampa em São Paulo", adianta.
Depois Gal Costa volta e as duas cantam mais dois números. Bethânia sai, Gal apresenta uma versão reduzida do espetáculo dedicado à música de Tom Jobim. Para encerrar, cantam juntas mais quatro música. A última delas é "Força Estranha", feita por Caetano para Roberto Carlos. Dobrando a carioca - Outra grande pedida musical é "Dobrando a Carioca" - espetáculo que junta, amanhã e sábado, na Choperia do Sesc Pompéia, quatro grandes músicos que, à primeira vista, são diferentíssimos entre si: os compositores, violonistas e cantores Jards Macalé, Guinga e Moacyr Luz e o cantor Zé Renato. Você vem descendo a Rua da Carioca, no centro do Rio, dobra lá no fim e está no Teatro João Caetano. Você pode estar vindo do centenário Bar Luiz, de famoso chope gelado e petiscos alemães. É comum que se chegue ao Teatro João Caetano vindo pela Rua da Carioca, por isso mesmo.
Foi no João Caetano que "Dobrando a Carioca", o show, estreou, em novembro. Na verdade, a direção do teatro havia convidado Moacy Luz para temporada de uma semana. "Mas eu sou um agregador, gosto de ter gente comigo e não queria fazer sozinho uma semana de show", conta Moacyr. "Já vinha, havia algum tempo, pensado em montar um espetáculo com Macalé, Guinga e Zé Renato e, numa temporada anterior, havia convidado cada um deles para fazer participação no meu show, separadamente".
A idéia inicial era que os quatro tocassem alguns números juntos e apresentassem, sozinhos, as obras respectivas. Mas quando começaram os ensaios, todos queriam tocar tudo. "Dobrando a Carioca", por fim, virou show de quarteto. Sax de boca - E o repertório não ficou restrito às obras dos participantes. Tanto que o show é aberto com "Um a Zero", de Pixinguinha (letra de Nelson ¶ngelo: "Vai começar o futebol..."), e encerrado com Noel Rosa: "Com que Roupa?" Há espaço para o solo de "sax de boca" de Jards Macalé (que canta Vapor Barato e Anjo Exterminado, músicas dele e de Wally Salomão), para "Favela", samba de Padeirinho e Jorginho, para "Nêga Dina", de Zé Kéti, para "Serra da Boa Esperança", de Ari Barroso e Lamartine Babo.
Macalé tirou do baú um samba de breque de Sebastião Fonseca e Ciro Nunes chamado "Cidade Lagoa". Diz a letra que, a qualquer chuvinha, a cidade enche tanto que dá para ir de barca do Praça da Bandeira ao Catumbi - no Rio. Vale para São Paulo, com adaptação: da Praça da Bandeira ao Morumbi. Claro, não faltarão composições de Moacyr Luz (Carlos Cachaça, Anjo da Velha Guarda, letras de Aldir Blanc) e Guinga (Você, Você, parceria com Chico Buarque, Catavento e Girassol, Chá de Panela, letras do mesmo Aldir Blanc, Saci, letra de Paulo César Pinheiro).
Opções - Os shows mencionados são opções de ótima música. Mas há outras. Perto do carnaval, o samba reina. No Carioca Club, amanhã à noite, integrantes da Mangueira apresentam o enredo do carnaval 2000 e lembram grandes sucessos da escola, sambas de avenida e de quadra. Os Meninos do Morumbi, com o Bloco Pagodão, os Unidos da Melhor Idade, a Banda Deco e outras atrações fazem, amanhã e sábado, no Sambódromo, a Pholianafaria.
A Fnac continua sua semana voltada para o carnaval: amanhã tem Jair Rodrigues, sábado canta Leci Brandão e, no domingo, juntam-se integrantes do show (e disco) "Esquina Carioca": Moacyr Luz (que não perde o fôlego), Walter Alfaiate, Luiz Carlos da Vila, mais o Quinteto em Branco e Preto. O Quinteto, grande revelação do samba paulistano - grande samba o desses meninos, que estão com o disco pronto, a sair em breve -, faz show-solo, só amanhã, no Villagio Café. Quem não viu precisa ver. Se há alguém que não goste de samba, passa a gostar, depois de ver o Quinteto. Pagode e feijoada - Mais samba bom, com o bamba Nei Lopes, sábadop, no Feijoada com Pagode do Consulado da Cerveja. É o início da tarde. À noite, tem Rosa Passos, que fica até sábado em cartaz no Supremo Musical. Ou Luiz Melodia, também amanhã e sábado, no Teatro do Sesc Pompéia. Tem ainda João Nogueira, sábado e domingo, no Teatro do Sesc Vila Mariana.
É de bom tom ir ouvir Célia, amanhã à noite, no Auditório do Sesc Vila Mariana, ou dançar o forró animadíssimo da Banda Mafuá, que toca amanhã no Centro Cultural Elenko KVA. Ou, ainda, ouvir ritmos caribenhos com Christianne Neves e banda
no domingo, no Bourbon Street. Difícil é escolher.

mockup