FIM DE CASO segundo Graham Greene


Wilson Bueno
De Curitiba
Especial para a Folha2
Ainda que ‘‘Fim de Caso’’, baseado no livro homônimo de Graham Greene, não tenha levado o Oscar de Melhor Atriz para a bela Julianne Moore, na festa que agitou Hollywood há menos de duas semanas, à parte a qualidade ‘‘exclusiva’’ de sua fatura, mais ‘‘diferente’’ que ‘‘distante’’ do original literário, pois um filme é um filme é um filme até prova em contrário, que mais não seja, o fato recoloca em pauta a obra de um dos mais importantes escritores ingleses deste século. Falecido aos 87 anos, em 1991, Greene é autor de importantes títulos que fizeram a cabeça de meio mundo, destacando-se alguns clássicos como ‘‘Nosso Homem em Havana’’, ‘‘O Poder e a Glória’’ e ‘‘No Coração da Matéria’’, para ficar só nestes.
Várias vezes adaptado para o cinema, Greene, ao contrário de seu personagem, o escritor Maurice Bendrix, de ‘‘Fim de Caso’’, nunca se importou muito com a pretensa ‘‘fidelidade’’ que os puristas (literários ou não) exigem de transposições fílmicas, teatrais, televisas, consciente de que o ‘‘veículo’’ já é linguagem em tudo diversa do original que lhe serviu eventualmente de ponto de partida. Comparar o filme de Neil Jordan com o romance de Graham Greene é tarefa de resto inútil, posto que, como seria de se esperar, nem de longe se parecem. E é muito bom que seja assim - ganha a literatura, ganha o cinema e principalmente ganhamos nós, seus leitores ou espectadores.
‘‘Fim de Caso’’ (The End of the Affair), o livro, que, na esteira da indicação de seu homônimo cinematográfico para o Oscar, acaba de merecer nova edição brasileira, pela Record, na cuidada tradução de Léa Viveiros de Castro, é destes livros ao qual um autor se lança sobretudo para exorcizar seus fantasmas. Concluído em fins de 1950 e publicado em Londres, em 1951, nele, entre a perplexidade e o ceticismo mais desesperançado, Graham Greene como que experimenta tocar em feridas então recentes, no propósito bem doloroso de fazer um balanço ‘‘espiritual’’, digamos assim, dos horrores da Segunda Guerra, à época ainda bem vivos nos corações e mentes dos ingleses. Aliás, à ‘‘consciência culposa’’ do pós-guerra devemos as grandes obras deste século - seja a dos tormentosos dias que sucedem a Primeira Guerra ou a do lento despertar deste pesadelo ainda recente que foi a conflagração mundial que de 1939 a 1945 quase nos varre a humanidade do mapa.
Não por acaso, The End of the Affair tem como pano de fundo e cenário o doloroso tumulto daqueles anos em que entre uma V-2 e outra, Londres mal tinha tempo de pensar na hora seguinte, sistematicamente bombardeada pela poderosa Luftwaffe alemã - humilhados os londrinos e postos de cara no chão; os proverbiais humor e charme britânicos aos farrapos. E é exatamente aí, é premeditadamente aí que o gênio de Greene fala mais alto ao compor, com mão de mestre, uma história de amor cujos protagonistas amam-se mas como tal ódio que é quase impossível discernir a tênue linha que separa a paixão mais extremada do rancor mais suicida.
Sarah Miles é só a esposa do burocrata Henri Miles até aparecer em sua vida o escritor Maurice Bendrix, animado, a princípio, em escrever um romance cujo personagem principal tem a mesma ocupação do seu esforçado marido. Não precisa dizer o quanto uma súbita paixão entre Sarah e Bendrix põe, logo de início, o projeto literário para segundo plano e assume formas onde exaltação e ciúme, amargura e aflição andam juntos, matéria e ‘‘essência’’ de um desvario amoroso que não consegue disfarçar, em nenhum momento, o seu caráter patológico, de clara perversão e, paradoxalmente, de nenhum amor, ainda que seja, novo paradoxo!, puro amor este ódio sem trégua... ‘‘Os amantes se amam cruelmente/ e com se amarem tanto não se vêem’’ - resumiria o poeta no soneto emblemático.
Feito de cisma e desconfiança, sexo e agonia, tais casos de amor só são piores quando terminam e é o que acontece neste livro essencial, devassa de nossa pobre alma agarrada ao vício de amar feito meninos corrompidos pelo excesso mesmo deste amar sem conta. Inconformado e em desamparo, não queiram, nunca não queiram o orgulho ferido de um homem. Com Bendrix não é diferente - irá ao inferno, se necessário, para ‘‘recuperar’’ este amor de perdição. Chega a se aliar a Henri, o marido, para, juntos, moverem incansável campanha contra Sarah Miles de quem, ambos agora, desconfiam severamente. É que Sarah, sufocada de paixão por Bendrix, luta em desespero para livrar-se do sentimento odioso, buscando, quem sabe, uma terceira via, num terceiro amor...
Impõe-se pois que se aliem os adversários de ainda ontem para mover impiedosa caça a esta mulher que audazmente trai os dois - o amante de ainda ontem e o sempre marido, só Deus sabe com que secreta e lasciva constância. Desnecessário dizer que este será sempre, para a frágil Sarah, um projeto, um nunca realizado desejo, uma melancólica utopia.
Armar um ‘‘plot’’ dramático deste nível não é tarefa fácil, mesmo porque em literatura a coisa menos importante é o enredo que será sempre incapaz de dar conta da história caso não o mova a paixão da linguagem. A precisão e a minúcia que, por exemplo, Graham Greene, um mestre da arte da narrativa, alcança, neste ‘‘Fim de Caso’’, o leva, mais que contar uma história, a erigir à condição de grande arte o drama tão miúdo quanto atormentado de um trio de pobres-diabos movendo-se nos arredores de uma Londres obscura e sitiada, baixo o desassossego da guerra horrível. E nisto o romance é exemplar.
Criador de mundos e com um domínio de seus instrumentos digno dos grandes ‘‘fabbros’’, Greene, neste livro, está insuperável - não se superasse outras vezes ainda, sobretudo com a tocante obra-prima que é, sem erro, ‘‘Monsenhor Quixote’’, um de seus últimos livros. Aqui, em ‘‘The End of the Affair’’, nem um passo em falso - a vida recriada no papel com tudo o que nela é gozo e grandeza, horror e vilania, pequenez e gestos imperecíveis de lealdade, ganham uma veemência de que só a melhor prosa é capaz.
Dono de um cristianismo rebelde e rebelado, Graham Greene, em diversas ocasiões teve a oportunidade de discutir, do humano, o sentimento triste da paixão sem medida. Nunca, contudo, como em ‘‘Fim de Caso’’, isto serviu de motivo e metáfora da inextricável miséria humana, ainda que nos mova - e é isto que nos confere uma delicadeza - o perene desafio de nos salvarmos de nós mesmos. Parece esta a ‘‘ética’’ e o propósito primeiros deste católico inglês para quem a falência moral é a maior violência de que somos capazes - destrutivos e inquisidores, deserdados e inocentes em nossa ignomínia; e cruéis como só os humanos podemos ser.
‘‘Fim de Caso’’ é destas obras maestras nas quais a velha ars literaria se reafirma como instrumento quase único para nos pensarmos a nós mesmos e às nossas contradições mais fundas. Um clássico, modelar no que a literatura tem de mais ‘‘específico’’ - a capacidade de se constituir em extensão de nossa imaginação, como a queria outro mestre, e poeta incomparável, el viejo brujo de Maipú - Jorge Luis Borges. E para quem a literatura era a arte mais fina e a mais completa.
‘‘Fim de Caso’’, editora Record, 184 páginas, tradução de Léa Viveiros de Castro, R$ 15,00Livro que deu origem ao filme dirigido por Neil Jordan trata do rompimento da relação de dois amantes e faz o balanço espiritual de uma época
Reprodução‘‘Feitos de sexo e agonia, tais casos de amor só são piores quando terminam’’

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