Os últimos meses de 1998 devem ficar marcados como o período da guerra dos desenhos animados no cinema. Pela primeira vez na história, a Disney enfrenta uma forte concorrência de outras produções que vêm conquistando o público norte-americano, em uma temporada que tem a disputa de bilheteria de ‘‘Formiguinha Z’’, ‘‘Vida de Inseto’’, ‘‘O Príncipe do Egito’’ e ‘‘Rugrats, the Movie’’. Enquanto a briga dos estúdios esquenta nos bastidores - em que milhares de profissionais trabalharam em esquema de guerra para terminar cada produção - o público agradece a variedade de opções deixando milhões de dólares nas bilheterias.
A batalha dos filmes de animação foi impulsionada principalmente pela briga entre Jeffrey Katzenberg e a Disney, onde ele trabalhava até 1994. A DreamWorks, estúdio que ele montou com Steven Spielberg e David Geffen, não só decidiu seguir em frente com a idéia de produzir ‘‘Formiguinha Z’’ mesmo sabendo dos projetos da Disney em relação a ‘‘Vida de Inseto’’, como também acelerou a finalização do épico bíblico ‘‘Príncipe do Egito’’. O processo envolveu acusações de vazamento de informações e de que Katzenberg roubou da Disney a idéia de um desenho sobre insetos.
Embora tenham certas semelhanças, os dois filmes têm conceitos diferentes. Enquanto ‘‘Formiguinha Z’’ (em cartaz no Brasil desde novembro) tem um caráter mais ‘‘adulto’’, em parte por conta das participações das vozes de Woody Allen e Sharon Stone, ‘‘Vida de Inseto’’ (que tem estréia prevista para 18 de dezembro nos cinemas brasileiros) foi feito pela mesma equipe de ‘‘Toy Story’’, em que apenas um personagem, o grilo ‘‘vivido’’ por Kevin Spacey, tem quase três mil controles de movimento. As duas produções parecem ter convencido o público: ‘‘Formiguinha Z’’ já arrecadou mais de US$ 80 milhões nos Estados Unidos em sete semanas, enquanto ‘‘Vida de Inseto’’ estreou no feriado prolongado de Ação de Graças, na semana passada, com um faturamento de US$ 46,5 milhões.
Se os dois filmes sobre insetos pareciam sucesso certo, a outra megaprodução da DreamWorks parece mais arriscada. ‘‘O Príncipe do Egito’’, que foi concebido por Katzenberg como um filme que misturasse o estilo de Claude Monet com a fotografia épica de ‘‘Lawrence da Arábia’’ e os traços do ilustrador do século 19 Gustave Doré, tem um conteúdo mais adulto e não vai se beneficiar da propaganda proporcionada pelas promoções com redes de fast-food ou lançamento de produtos temáticos. O filme, que inclui trechos como o afogamento do exército do Faraó e o aparecimento do Anjo da Morte, está sendo promovido por três trilhas sonoras, das quais participam astros da música country, gospel e rhythm & blues, além do dueto de Mariah Carey e Whitney Houston, ‘‘When You Believe’’.
Se o público anda gostando da variedade de opções, o trabalho em desenhos animados passa a ser uma ótima opção para as estrelas de Hollywood. O número de horas de trabalho costuma ser bem menor do que o de um filme convencional (para os atores) e não há desgaste de imagem. Depois que até Woody Allen aceitou o desafio (ele disse que resolveu participar de ‘‘Formiguinha Z’’ porque Katzenberg promoteu que seriam apenas cinco dias de trabalho), é difícil imaginar que alguém não aceite participar de um desenho animado. Em termos de elenco, ‘‘O Príncipe do Egito’’ é o mais poderoso, com as vozes de Steve Martin, Sandra Bullock, Jeff Goldblum, Michelle Pfeiffer, Val Kilmer, Patrick Stewart, Danny Glover e Martin Short.
Correndo por fora na guerra dos desenhos vem ‘‘Rugrats, the Movie’’, baseado em um dos maiores sucessos do canal infantil Nickelodeon, da Paramount. O desenho sobre um grupo de bebês que se comunica sem que os adultos entendam é exibido nos Estados Unidos há nove anos. Criado por um dos animadores originais dos ‘‘Simpsons’’, ‘‘Rugrats’’ se transformou em um franchise internacional de bilhões de dólares, que deu origem a produtos temáticos (livros, brinquedos e roupas) e um musical que viajou por várias cidades do mundo. O longa-metragem de US$ 25 milhões estreou nos cinemas americanos há duas semanas e já faturou US$ 58 milhões.
Com tantas opções na área dos desenhos, quem acabou sofrendo foi o leitão australiano Babe. A segunda parte da saga do porco falante que queria ser cachorro, ‘‘Babe: Pig in the City’’, arrecadou apenas US$ 8,5 milhões em sua estréia, valor bem abaixo do esperado.

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