Filosofia pop
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Nelson Sato <br> <br> Reportagem Local 
Uma das mais brilhantes intelectuais brasileiras desembarca hoje no 8º Festival Literário de Londrina/Londrix. A filósofa, escritora e professora universitária gaúcha Marcia Tiburi, 40 anos, vem lançar seu novo romance ''Era meu esse rosto'' e fazer uma palestra, às 19h30, no Centro Cultural Sesi.
Com formação em Filosofia e Artes, é autora de vários livros, entre títulos de prosa de ficção e ensaios de reflexão. Nascida em Vacaria (RS), morou duas décadas em Porto Alegre e atualmente vive em São Paulo onde é professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tornou-se conhecida após uma participação no programa ''Café Filosófico'', da TV Cultura, que logo rendeu o convite para integrar o elenco do programa ''Saia Justa'' no canal GNT e assinar uma coluna na revista Cult.
Requisitada para conferências em todo o País, ela desenvolve o projeto ''Filosofia do Rock'', ciclo de debates sobre cultura pop já realizado no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. ''Sou uma militante da cultura literária, que não existe neste País onde o crescimento e o elogio da ignorância está cada vez maior. Quero estar na contracorrente'', diz ela, por telefone. ''Era meu esse rosto'', livro que lança em Londrina, é seu quarto romance - os outros três são ''Magnólia'' (que foi finalista do Prêmio Jabuti em 2006), ''A Mulher de Costas'' e ''O Manto'', reunidos pela autora no que batizou de ''Trilogia Íntima''.
Publicou também ''Filosofia Pop'' (coletânea de artigos escritos para a revista Cult), ''Olho de Vidro'' (ensaio crítico sobre a televisão) e títulos de sua área de especialização como ''Filosofia em comum / Para ler-junto'', ''As Mulheres e a Filosofia'', ''O Corpo Torturado'' e ''Uma outra História da Razão''. A seguir leia entrevista com a autora.
Você vem lançar o livro ''Era meu esse Rosto''. É um livro de memórias?
Marcia Tiburi: É um romance. Escrevi durante 13 anos, é uma obra muito especial para mim, porque há nela, como na maior arte das obras de ficção, uma inspiração na vida. No caso tem a ver com a minha infância, mas creio que com a infância de todos os que viveram no sul e têm ascendentes imigrantes italianos. Penso que muitas pessoas se identificarão com a narrativa, como aliás, já tem acontecido pelas notícias que tenho dos meus leitores que conhecem bem nosso mundo frio e afetuoso do Sul. É meu quarto romance. Os outros três fazem parte de um conjunto que intitulei de ''Trilogia Íntima''. Este representa uma outra fase.
Você publicou um livro sobre televisão, ''O Olho de Vidro'', após sua participação no programa ''Saia Justa''. Que reflexão é desenvolvida nessa obra?
A televisão me mostrou uma coisa: que refletir sobre o que se vê em escala social é urgente. As pessoas que vêem televisão não sabem o que estão fazendo. Para elas, a televisão se tornou um dado inquestionável no cotidiano. O título do livro é uma metáfora que considerei muito adequada para descrever a cultura visual, da imagem em que vivemos hoje. É como se nosso olho não servisse para mais nada e fosse substituído por esse olho de vidro - uma prótese, na verdade, que oferece toda uma visão de mundo, um modo de perceber a realidade que comanda a cultura brasileira e administra todas as instâncias de nossa vida.
Você lançou também um livro intitulado ''Filosofia Pop'', que reúne artigos publicados na revista Cult. Como tem sido essa experiência de escrever para uma publicação de banca e não de circulação restrita à academia? Há retorno dos leitores? Já houve algum texto que tenha causado polêmica?
Evidentemente há muito mais retorno em termos quantitativos. Eu gosto muito de escrever em revistas e jornais. Em especial para a Cult onde tenho esta coluna há alguns anos. Não é uma coluna voltada para a história da filosofia, como é muito comum em nosso meio acadêmico e jornalístico, mas um espaço para uma criação conceitual. Gosto muito deste aspecto da experiência filosófica. Tem muito a ver com o conceito de filosofia no qual eu acredito. Ou seja, que filosofia é experiência da linguagem que se faz por escrito ou não, mas sempre por meio de uma diálogo com as questões de nosso tempo. Filósofo é aquele que, atentamente, tenta descobrir a formulação teórica da vida, da sociedade. Não creio que meus textos causem polêmica, mas sim reflexão e nem sempre há acordo em torno dela, o que é desejável. Filosofia é processo de pensamento que envolve mais dissenso que consenso. O nome ''Filosofia Pop'' foi um pouco provocação, outro tanto é realmente o conteúdo dos artigos que lidam com a questão do poder e do biopoder, mas a partir, sobretudo, do conteúdo da cultura pop que é uma área da cultura sobre a qual há pouca reflexão. Há uma artigo sobre Lady Gaga, por exemplo, que, segundo consta, é o mais lido - ou um dos mais lidos - da história da revista.
O que você dizia nesse texto sobre Lady Gaga?
Eu dizia que ela trabalha com um referencial infinitamente mais monstruoso que Madonna, cuja persona é considerada a representante de uma certa cultura erótica importante no contexto da libertação das mulheres. A Lady Gaga vai além, sai da norma, rompe com o heterossexualismo levantando uma bandeira bastante avançada dentro da cultura pop, que é muito careta. Perto dela, a Madonna é bem-comportada.
Você escreveu um artigo sobre o funk carioca que gerou alguma controvérsia. Como foi isso?
O funk tem sua beleza, tem o fascínio de sua estética suja. Adoro a autolibertação, a autodescoberta, mas não podemos ser ingênuos e ficar elogiando como se fosse a salvação de toda população excluída - como fazem alguns intelectuais. Não basta estetizar a pobreza porque as pessoas continuam subjugadas. Nesse artigo eu quis criticar o excesso de autocontentamento e mostrar que a cultura do funk traz uma armadilha, uma enganação, uma reinscrição das pessoas excluídas em seu próprio gueto. É como se a burguesia dissesse: ''Fiquem aí no gueto e não venham encher o saco no meu shopping''.
Você exerce a docência há um bom tempo, não? Qual a sua posição a respeito das cotas nas universidades?
Sou professora desde 1994, ano em que entrei no doutorado da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), defendido, aliás, em 1999. Eu defendo as cotas. Elas são uma tentativa de produzir igualdade em um contexto desigual. Uma tentativa de corrigir o erro social que envolve o sistema de ensino brasileiro.
Como está o movimento feminista hoje? Quais são as questões que mais afligem a mulher contemporânea?
As feministas falam em ''mulheres'' no plural e não em ''a mulher'', o que seria uma essencialização, ou seja, a afirmação de que existe uma essência feminina e não uma ampla diversidade que deve ser respeitada em cada indivíduo. O feminismo no Brasil, por exemplo, continua atento à mesma questão que ainda precisa ser levada adiante: os direitos das mulheres relativamente ao trabalho, ao seu próprio corpo, aos direitos reprodutivos, à dignidade, à exploração sexual por meio da prostituição, etc.


