Filosofia parisiense que se esparrama pelos cafés
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terça-feira, 05 de julho de 2005
Luís Souza<br> Especial para a Agência Estado 
São Paulo - Houve um tempo, quando uma Europa devastada pela 2 Guerra Mundial (1939-1945) tentava se reerguer, em que era mania entre a juventude parisiense se esparramar pelos cafés da margem esquerda do Rio Sena e discutir dilemas filosóficos. Na mesa ao lado, era possível encontrar Jean-Paul Sartre, o ícone da época. Se estivesse vivo, o filósofo teria completado cem anos em 21 de junho.
Sartre construiu uma obra que representa um dos pilares do Existencialismo. Por escrever, além de complicados tratados como ''O Ser e o Nada'', de 1943 , também digeríveis obras existencialistas de ficção, a exemplo da trilogia ''Os Caminhos da Liberdade'', publicada entre 1945 e 1949, Sartre desfrutou de popularidade. Até sua morte, em 15 de abril de 1980, a fama se manteve. Seu enterro foi acompanhado por 50 mil pessoas.
Hoje, 60 anos depois do fim da 2 Guerra, no centenário de nascimento de Sartre e 25 anos após sua morte, é possível fazer um passeio sartriano por Paris, nos bairros de Saint-Germain-des-Près e Montparnasse. Ali é possível frequentar os cafés favoritos do filósofo e até lhe fazer um visita póstuma.
Tome a linha 4 do metrô e desça na estação Saint-Germain-des-Près, na esquina do Bulevar Saint-Germain com a Rua Bonaparte. A saída desemboca na praça que, desde 2000, se chama Sartre-Beauvoir, em homenagem ao pensador e sua companheira eles não chegaram a viver juntos e nunca se casaram , a escritora Simone de Beauvoir (1908-1986). É uma honraria que Sartre provavelmente aceitasse, já que ele passou incontáveis horas de sua vida em longas discussões em dois cafés vizinhos à praça.
Siga pelo Bulevar Saint-Germain e atravesse a Rua Bonaparte. Pronto, você está em frente ao Les Deux Magots, um dos dois cafés favoritos do filósofo. Se no pós-guerra o local era modesto e servia como reduto de intelectuais e estudantes, hoje o público é formado basicamente por turistas e franceses ricos.
Inaugurado em 1885, o Les Deux Magots valeria uma visita apenas por sua história, mas, além disso, possui um terraço muito agradável. O problema é o preço. Para sentar, é necessário consumir. Uma taça de champanhe Moet et Chandon, por exemplo, sai por 11 euros.
Grudado ao Les Deux Magots está o Café de Flore, o outro predileto de Sartre. Ele e Simone de Beauvoir usaram as mesas do estabelecimento como escritório de trabalho durante a ocupação alemã, na 2 Guerra. Aberto dois anos depois do vizinho, o Café de Flore também vive cheio de turistas e hoje cobra caro de seus clientes. Um expresso ali custa 4 euros. Mas o charme do lugar não tem preço.
Apesar da inexistência de intelectuais atualmente, o Les Deux Magots e o Café de Flore fazem questão de manter a aparência de cafés literários. Para isso, cada um oferece um prêmio de narrativa. O Les Deux Magots escolhe um livro por ano desde 1933. Já o Café de Flore instituiu sua celebração em 1994, na qual é eleita uma ''jovem promessa da literatura''.
Visite também a Biblioteca Nacional François Mitterrand (www.bnf.fr), no ponto final da linha 14. Ali, feche sua jornada com a exposição em homenagem ao centenário de nascimento de Sartre (ingressos a 5 euros), até 21 de agosto.


