Entendo perfeitamente a decepção das pessoas que leram os livros do Tolkien, e depois assistiram ao filme baseado neles ''O senhor dos Anéis''. Não há uma única cena do filme, durante a viagem, que hobits, elfos, e outros seres tenham a compensação por tantos sofrimentos, de sentar-se para comer . Sai cansada do filme, de tantas guerras, sem as aprazíveis fogueiras e cabanas dos hobits, com suas mesas fartas e aconchegantes. Com caldeirões pendurados na noite estrelada e excelente guisado dentro. A fábula que o livro cria na imaginação da gente, pelo menos na minha, foi por terra... O descanso na jornada para comer, festejar, alegrar-se é imprescindível, tanto na vida de duendes, quanto na nossa, pobres mortais. Quanto mais alegre, substanciosa, criativa e ritualística a refeição, mais ela satisfaz. Às vezes invento receitas que chamo de '' espontâneas'' que ficam muito boas. E que resgatam, por momentos, a magia da minha cozinha. Usando sempre o que estiver mais à mão. Por exemplo domingo, Dia dos Pais. No começo da tarde, a fome aperta, compras não foram feitas. Procuro no armário-despensa e acho um salgadíssimo pedaço de bacalhau. Fiz assim:
Bacalhau à moda 'Élfica'
(Ou digno de elfos, duendes, fadas, bruxas, ursos, orcs etc....)
(para seis pessoas)
Coloquei uma panela com água para ferver. Escorri por alguns minutos o sal do bacalhau embaixo da torneira. Na água, agora fervente, deixo ferver por sete minutos, três pedacos de bacalhau (300 gramas, mais ou menos).
Enquanto isso faço um refogado básico com: três dentes de alho amassados, cebolinha picada, três tomates ou 1 xícara de chá bem cheia de purê de tomate, uma cebola picada, páprica doce, 1 pitada de páprica picante, 1 copo de azeite, 1 colher rasa de sopa de açúcar. Enquanto refoga, retiro a pele e os espinhos do bacalhau e acrescento-o ao refogado. Experimento: se não estiver muito salgado, acrescento algumas azeitonas, pretas de preferência, e um pouco (1/2 xícara de chá ) de queijo ralado. Acrescento água, deixo levantar fervura e ferver uns 10 minutos. Procuro farinha de milho e farinha de mandioca. Que sorte! Tem. Com uma colher grande vou polvilhando, primeiro um pouco da farinha de mandioca, depois continuo com a de milho até ficar um mingau bem grosso. Mexendo sem parar escorro lentamente no redemoinho do cuscuz um fio de azeite que, se você gostar e tiver, pode ser dendê. Unto generosamente com azeite (ou dendê ou óleo ou manteiga,) uma forma de pudim, com buraco no meio. Se quiser enfeitar as paredes do angu com ovos cozidos, legumes cozidos, pedacinhos de queijo em formato de estrela, fica bonito e atrai as criancas. Despeje a polenta de bacalhau quente na forma. Espere esfriar um pouco e desenforme sobre um grande prato. Sirva em pedaços, regando com azeite e acompanhado de uma boa salada.

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