EVENTO FILO SEMEIA IDÉIAS Festival Internacional de Londrina programa para este ano 27 projetos socioculturais para a cidade Paulo WolfgangDa esquerda para a direita: Maria Fernanda Coelho, do Filo, Maria Tereza Leal, da Coopa Roca, artesãs de Londrina e Tereza da Costa e Souza, costureira da Rocinha: troca de experiênciasArquivo FolhaMário Bortolotto vai dar uma oficina de dramaturgia em bairro da periferia de Londrina Ranulfo Pedreiro De Londrina Há 22 anos Dona Tereza da Costa e Souza saiu do Ceará para morar no morro da Rocinha, no Rio de Janeiro. Acostumada a trabalhar na roça, encontrou uma realidade diferente. A dificuldade de sair de casa por causa da violência, as crianças pequenas para cuidar e os problemas de saúde cercearam-lhe as oportunidades de trabalho. Como várias outras pessoas da comunidade, Dona Tereza faz artesanato decorativo. Um conhecimento que estava disperso até o surgimento da Coopa Roca – Cooperativa de Artesãs e Costureiras da Rocinha – um projeto cooperativo que está sistematizando essa produção e já ganhou destaque até no exterior. Agora, mesmo sem sair muito de casa, Dona Tereza trabalha com prazer, está se aperfeiçoando e tem um leque de opções para divulgar e comercializar seu trabalho. Esta é uma das sementes que o Festival Internacional de Londrina pretende lançar na cidade ao incluir na programação uma série de 27 projetos de cunho sociocultural. Destes, cinco serão selecionados para ganhar apoio logístico do Festival para ter continuidade. Na semana passada, a Dona Tereza esteve em Londrina acompanhada de uma xará, Maria Tereza Leal, coordenadora da Coopa Roca. Elas visitaram duas comunidades de mulheres na cidade. Maria Tereza conheceu instalações e conferiu a infra-estrutura para o desenvolvimento das atividades, e afirma que em Londrina encontrou condições semelhantes às da Rocinha. ‘‘Basicamente é a mesma coisa, são mulheres com atividades artesanais, a essência é a mesma. É um conhecimento que existe de forma dispersa e que pode ser sistematizado através da organização coletiva’’, explica. A Coopa Roca surgiu em 1982, quando Maria Tereza Leal desenvolvia um trabalho na Rocinha com reciclagem de material para a elaboração de brinquedos para as crianças do local. Em contato com um representante de fábricas de tecidos, ela ganhou um mostruário para diversificar as atividades. Mas, ao ver os tecidos, foi orientada pela Dona Tereza – a cearense que mudou para o Rio de Janeiro – a repassar o tecido para as mulheres da comunidade, ao invés de utilizá-los em atividades infantis – o que resultaria na deterioração do material. Melhor aproveitado, o mostruário foi direcionado a um grupo que desenvolvia trabalhos artesanais. ‘‘A Coopa Roca potencializou um conhecimento que já existia de forma dispersa e desorganizada. Começamos a sistematizar as reuniões e trabalhar a qualidade do produto. Nos primeiros anos havia uma estrutura informal que envolvia festas juninas, universidades, bazares e espaços alternativos’’, comenta Maria Tereza Leal. O trabalho, que era baseado em retalhos e apenas decorativo, ganhou nova direção há uns cinco anos: ‘‘Eu observei que existia uma movimentação de vanguarda na produção de vestuário no eixo Rio-São Paulo. Foi aí que surgiu a idéia de produzir nesta área’’, ressalta. O primeiro desfile da cooperativa foi na ‘‘cara e na coragem’’, segundo a coordenadora. Mas o negócio deu resultado e as perspectivas cresceram. A Coopa Roca fez desfiles em outros Estados e até em Berlim. O resultado está agradando à comunidade da Rocinha. ‘‘Fazemos esse trabalho sem sair de casa, é muito importante. Eu não tinha a oportunidade de trabalhar para ganhar dinheiro. É um incentivo para mim’’, comenta Dona Tereza, a imigrante que tinha dificuldades para trabalhar e agora se dedica com prazer aos retalhos. Os 27 projetos socioculturais que o Filo pretende mostrar a Londrina partem de uma tendência multidisciplinar que o Festival vem desenvolvendo, e já englobou grupos de teatro da terceira idade e voltados para crianças hospitalizadas. ‘‘O Filo desenvolve a finalidade de se firmar como um processo em crescimento, e não como um evento que passa. Chegamos à conclusão que todas as artes se encontram no palco das artes cênicas e detectamos essa necessidade de ligação com o cunho sociocultural, que é um instrumento poderosíssimo de transformação e conscientização’’, revela Maria Fernanda Coelho, coordenadora do Filo. Neste contexto, as idéias da Coopa Roca surgem como inspiração: ‘‘A gente propõe a Coopa Roca como modelo de projeto nesta área. A gente vai dar o primeiro fôlego para o projeto poder andar’’, completa. A fase preparatória de planejamento e sensibilização da comunidade para a apresentação dos 27 projetos já começou. Entre eles está prevista uma oficina de dramaturgia com Mário Bortolloto em um bairro da periferia londrinense em que os participantes produzirão um texto e, posteriormente, vão construir a sua dramatização. Outro projeto é a série radiofônica ‘‘Histórias da Música Brasileira’’, do Instituto Itaú Cultural, previsto para ir ao ar no dia 18 de abril pela Universidade FM. Enquanto isso, a coordenadora do Coopa Roca volta ao Rio de Janeiro, onde a cooperativa vai desenvolver cursos de capacitação com 30 jovens para ampliar a importância social do projeto. Também será realizado um documentário de 50 minutos sobre a cooperativa, com financiamento do BNDES. Maria Tereza Leal pretende ainda lançar a exposição ‘‘RE talhar’’, que contará com a presença de artistas plásticos, designers, decoradores e estilistas. A idéia é desenvolver produtos a partir das linhas artesanais da Coopa Roca. A exposição será realizada entre 11 e 29 de abril na galeria do Parque das Ruínas, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Em junho, Maria Tereza traz para Londrina os trabalhos da cooperativa para serem apresentados no Filo, ao lado dos produtos das mulheres que estão envolvidas no projeto do Festival junto com o Curso de Estilismo e Moda da Universidade Estadual de Londrina.