FILO ACENTUA A OUSADIA
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de junho de 2000
Francelino França De Londrina 
Esse ano, o Festival Internacional de Londrina abriu as portas para a manifestação e produção da cultura, dando visibilidade aos excluídos pela educação, pela distância geográfica e até pela indústria cultural. Para essa empreitada audaciosa e visionária, os organizadores se ancoraram no subtítulo Ano 0 - De Todas as Artes.
Com um plano piloto de política cultural, o Filo adquiriu um novo formato, instituindo 22 programas de difusão do saber e de fomentação cultural, os chamados Projetos de Maio. Alguns foram direcionados para determinados grupos, enquanto que outros foram abertos para a população da cidade. Até a 32ª edição, o Festival de Teatro oferecia um caráter de maratona para o espectador, com espetáculos todos os dias, em horários diferentes. Acompanhá-los exigia fôlego e disposição para contemplar, refletir, rebelar, instigar e se divertir.
Com o encerramento do Filo 2000, e todos os problemas enfrentados com a proposta audaciosa, é o momento de reavaliar se o passo não foi maior que as pernas. Para muitos, pode ser pretensão levar adiante um evento cultural com 49 dias de duração. Não somente em função da abrangência do projeto de ensaio de política cultural, mas pela dificuldade crescente na obtenção de recursos para projetos culturais.
Ao longo desses 33 anos, o Festival de Teatro evoluiu, se transformou. Deu voz aos grupos amadores da cidade e do Brasil. Depois, começou a falar outros idiomas, ampliou os horizontes e antecipou a globalização. Agora, ao ultrapassar a linha divisória da socialização do conhecimento, questiona-se a descaracterização teatral do Festival. Com os vácuos na programação, esse pensamento pareceu mais evidente.
Das ações culturais empreendidas pelo Filo 2000, nos Projetos de Maio, alguns resultados foram extremamente positivos, como na Oficina de Linguagem Audiovisual, dirigida aos integrantes do Movimento Sem-Terra, resultando num produto transformador para a comunidade do Assentamento Dorcelina Folador, de Arapongas. O vídeo-documentário, Uma Luta de Todos, mostrou a possibilidade de realização de uma comunidade atuante e discriminada, revelando imagens de uma luta ainda desconhecidas da mídia.
A Oficina de Palhaços, com os Parlapatões, Patifes e Paspalhões atingiu com um tiro certeiro a auto-estima dos internos da Penitenciária Estadual de Londrina que atuaram no projeto. A diretora e atriz italiana Nicolleta Robello, de mãos dadas com a tragédia grega, comandou uma inesquecível viagem emocional na memória afetiva das atrizes do Grupo Teatral Fase Três. Nesse contexto sócio-cultural, o Filo trouxe dos morros cariocas para a Zona Sul de Londrina a Oficina de Moda. A Associação de Mulheres A União Faz a Força e a Cooperativa de Artesãs e Costureira da Rocinha alinhavaram uma parceria criativa e fashion.
O formato do Filo 2000 procurou preencher a lacuna de um projeto cultural efetivo na cidade. Se por um lado, alguns desses projetos facilitaram o acesso à produção e manejo aos bens culturais, por outro lado houve um esvaziamento da parte teatral, com a decapitação de importantes espetáculos pré-programados para esse ano, com o mesmo número de dias. O Cabaré do Filo - colocado no freezer no Ano 0 -, representa um importante papel de integração entre os artistas e público que prestigiavam o Festival, além de oferecer um caleidoscópio musical para todos os gostos.
A greve da Universidade Estadual de Londrina levou embora uma fatia considerável de público do festival, incluindo alunos de Artes Cênicas. É preciso ressaltar ainda, a necessidade de outros setores de Londrina se aproveitar ainda mais de eventos como o Filo, para que não fique ilhados e restritos a um determinado grupo, para que ações na área cresçam. Os acontecimentos culturais não receberam a devida atenção do setor turístico da cidade, mesmo os de repercussão internacional.
Nitis Jacon, diretora geral do Festival Internacional de Londrina, afirma que a proposta de política cultural abarcada esse ano, não está pronta. Mas nesse formato, o Filo oportunizou aos excluídos e auto-excluídos manejar e produzir culturalmente. Inicialmente achamos que 5 projetos teriam potencial. Agora, acho que os 22 projetos podem ter continuidade, acredita Nitis. Mais que a horizontalidade desse formato, atacando o mapa da cidade, a verticalização da cultura se deu em função da expansão legítima do resgate das raízes culturais dessas comunidades, segundo a concepção da diretora.
O Festival acabou se tornando subversivo, em função da política cultural existente, porque atinge a consciência crítica sobre o que é cidadania, prossegue. Por enquanto, chegaram R$ 140 mil reais do Ministério da Cultura, falta ainda o dinheiro do Governo do Estado, da Prefeitura do Município de Londrina e do Sercomtel. Só para lembrar, no ano passado, o dinheiro desses órgãos demorou três meses para chegar à conta bancária do Filo.
O Filo 2000 ficou dividido entre o desejo e a possibilidade, com as ausências de acontecimentos importantes, como a presença de integrantes do Movimento Dogma, ou a conferência/espetáculo com Augusto Boal. Em termos artísticos, vale registrar que os espetáculos teatrais de 1999 superaram em qualidade o Ano 0 de Todas as Artes, que será lembrado pela ousadia.


