Filo abre a cena da diversidade
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terça-feira, 31 de maio de 2005
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Mestre Salu ensinou, o filho aprendeu. Discípulos ou versados no tradicional ou no experimentalismo, como o da companhia alemã Volksbuhne, que pela primeira vez se apresenta no Brasil. Essas são algumas atrações do Festival Internacional de Londrina (FILO) que ainda traz nomes como Eugenio Barba, do Odin Teatret, inspirador do boliviano Teatro de Los Andes e seu diretor César Brie, que também se apresenta no evento.
Mais enxuto sim, porém sem perder a qualidade, o festival começa na sexta-feira ao apresentar às 20h30, no Teatro Ouro Verde, o monólogo ''A Poltrona Escura'', interpretado pelo ator Cacá Carvalho, conhecido por viver o Jamanta da novela global ''Torre de Babel'', o FILO 2005 tem como uma das cerejas do bolo, os alemães do Volksbuhne, que devem arrastar um grande público a duas apresentações nos dias 7 e 8.
Mas, além dos alemães e do mundo italiano de Luigi Pirandello orquestrado pela direção de Roberto Bacci no espetáculo de estréia do festival arrastando para fora de três contos do escritor a inquietação e a crueldade da condição humana existem outros universos iluminados pela qualidade proposta pelo FILO.
Ao contrário dos demais festivais de teatro no país, o londrinense é o espaço para Pedro Salustiano, filho e discípulo do mestre Salu, patrono espiritual do ''manguebeat'' e papa em cultura popular pernambucana, e os russos da Akhe Group e o espetáculo ''White Cabin''.
O contemporâneo não faz sombra à arte popular do filho de Salu, pondo cinema e pintura a serviço do teatro e de um festival que está procurando um novo formato.
Concentrado em 16 dias, onde passarão 42 grupos - número até maior que a edição 2004, que apresentou 38 companhias - o FILO quer ter um novo fôlego, não esvaziando o clima, como acontecia nos anos em que chegou a se estender por cerca de 40 dias.
''Estamos chegando a um novo formato para ver como isso vai ser. Isso tem a ver também com a questão de custos. Quanto mais demorado, temos mais gastos com a locação de equipamentos e diárias de hotel'', afirma Luiz Bertipaglia, curador e presidente da Associação dos Amigos da Educação e Cultura do Norte do Paraná (Ámen), que com a Universidade Estadual de Londrina (UEL), divide a organização do festival.
Ao orçamento de R$ 1,5 milhão, a tarefa difícil de escolher entre mais de 100 propostas internacionais e 400 nacionais que se candidataram a pisar os palcos do festival, que tem 70% do público formado por estudantes.
Afastando os espetáculos comerciais da programação, o FILO coloca no centro da arena inquietações humanos ou sociais, que recheiam a experimentação e a pesquisa do trabalho de ator, grupos, e textos.
O Volksbuhne em seus mais de 80 anos de existência é uma das chaves que abrem o experimentalismo no FILO 2005, trabalhando sempre com textos importantes, onde o ator é dono do espaço.
Em sua trajetória, o cenógrafo Bert Neumann, destaque duas vezes seguidas pela revista Theater Heute, vencedor do prêmio de Berlim, influenciou a estética teatral nos últimos 10 anos na Alemanha, fazendo do cenário um lugar para ser usado na medida humana.
A obsessão pelo refinamento técnico não esconde o ator, mas impôs ao FILO alternativas para atender às exigências da iluminação - que requer equipamentos que não estão disponíveis no Brasil - sem perder o brilho. Exceções que companhias como a alemã abrem para um festival com o reconhecimento do londrinense.
Odin Teatret já pisou no FILO em 1991, quando foi destaque em uma mostra. Voltou em 1999 sempre com um trabalho específico, que olha para o ator com os olhos da técnica, profissional, ética e social, que ergue a antropologia teatral nesta edição em ''Salt''.
Onde há espaço para o Odin e Pedro Salustiano também existe lugar para a dança da americana Maureen Fleming no espetáculo ''After Eros'', que será apresentado dias 11 e 12, às 20h30, no Ouro Verde. Chamando para a cena o butô do pós-guerra de Tatsumi Hijikata e Kasuo Ono, a americana veste na arte tradicional o quimono com cores contemporâneas e música ao vivo.
Grade que atravessa os limites artísticos do país na Mostra Nacional, subindo pelo agreste para trazer grupos importantes nordestinos, que estão em cartaz em várias partes do país, como ''Samba no Canavial'', do recifense Pedro Salustiano, que se apresenta apenas no dia 4, às 20 horas, no Circo Funcart.
Terra Brasil que dá maracatu e congada do filho Salu, como também Cabauêba e o seu ''Linha Férrea'', de Fortaleza (CE), que com textos poéticos constrói um espetáculo visual.
Os nacionais também deixam ver o trabalho de diretores, entre eles o de Henrique Dias, da Cia de Atores, com o espetáculo ''Ensaio.Hamlet'', do Rio de Janeiro, um dos diretores brasileiros mais festejados na atualidade. Brasileiro de destaque ao lado de argentinos como Rafael Spregelburg, do grupo El Pátron Vasquez, que como Daniel Veronese, que esteve na edição passada do FILO, é um dos nomes importantes da dramaturgia Argentina.
Os argentinos, portugueses, espanhóis, americanos, peruanos ou o boliviano Cesar Brie e o grupo Teatro de Los Andes, diretor que integrou o elenco do Odin Teatret, adaptando o estilo Eugenio Barba para as inquietações da América do Sul, são cenas do FILO 2005, que mostrarão no palco a quantas anda a diversidade teatral.


