FILO 2023 - 'Neva", entre tosses e delírios, o sangue corre lá fora
Espetáculo dirigido por Paulo de Moraes, ‘Neva’ - que será reexibido nesta quarta-feira (21) - traz uma reflexão sobre o autoritarismo
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quarta-feira, 21 de junho de 2023
Espetáculo dirigido por Paulo de Moraes, ‘Neva’ - que será reexibido nesta quarta-feira (21) - traz uma reflexão sobre o autoritarismo
Douglas Kuspiosz/ Especial para a FOLHA 

A atriz Olga Knipper (Patrícia Selonk) caminha pelo palco vazio e tenta, sem sucesso, ensaiar seu monólogo de “O Jardim das Cerejeiras”, última peça do escritor e dramaturgo russo Anton Tchekhov. É 9 de janeiro de 1905 e sufocada pelo luto após a morte de Tchekhov, seis meses antes, ela se depara com a impossibilidade de interpretar.
A roupa preta e a expressão de dor evidenciam que, para ela, a arte morreu junto com seu marido. Aleko (Felipe Bustamante) e Masha (Isabel Pacheco) são outros dois atores que estão no teatro para o ensaio; o restante da companhia, provavelmente foi morto durante o massacre causado pela Guarda Imperial do czar Nicolau II, no que ficou conhecido como “Domingo Sangrento”.
A peça “Neva” foi escrita pelo dramaturgo chileno Guillermo Calderón em 2005 e resgata esse particular dia da história russa para refletir sobre o seu Chile da década de 1970, cuja história carrega a chaga da ditadura de Augusto Pinochet. Ao trazer essa montagem, o diretor Paulo de Moraes, do Armazém Companhia de Teatro, dialoga com os tempos obscuros vividos pelo Brasil de hoje e do passado, que ainda flerta com o autoritarismo - essa ferida aberta de uma ditadura que jamais foi totalmente resolvida.
A estreia da obra no FILO (Festival Internacional de Londrina) ocorreu nesta terça-feira (20) para um Cine Teatro Ouro Verde lotado. Moraes já havia dito que acha importante levar o público a refletir sobre o presente sem necessariamente ser literal. E isso caminha por vias distintas, com humor e drama, mas jamais joga obviedades para a plateia.
A morte Tchekhov é também a morte de Olga, que tem no teatro, na arte da interpretação, um sentido que norteia sua vida; sem a presença dessa figura, e em meio a tamanha crise social como a vivida na Rússia do início do século passado, ela e seus colegas constantemente questionam qual é o papel (ou a importância) do teatro. Como continuar ensaiando, pensando nessa obra, enquanto tantas pessoas são mortas covardemente?
Isso pode ser visto como um flerte do diretor com a desvalorização da arte no Brasil nos últimos anos, antes e após um período de pandemia da Covid-19, e o sentido de se insistir na reconstrução de uma cena artística no país.
Para quem vai acompanhar a apresentação nesta quarta-feira (21), com certeza a atuação da atriz Patrícia Selonk, que dá vida a Olga, vai ser um ponto de destaque. Isabel Pacheco e Felipe Bustamante também se destacam no palco: ela, com um dolorido monólogo nos últimos minutos da obra; e ele nos vários delírios enquanto encena a morte de Tchekhov, que sufoca.
A música de Ricco Viana e a iluminação de Maneco Quinderé, que inclusive foi indicada ao 33° Prêmio Shell de Teatro, são outros pontos que valem a atenção do público.


